Debates
28 de maio de 2026

Ciclo “O Brasil na visão das lideranças públicas”, com Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo

Reconhecido por sua atuação na promoção do equilíbrio fiscal, da modernização da gestão pública e do diálogo entre os setores público e privado, Hartung falou sobre os principais desafios do Brasil hoje e as perspectivas das eleições gerais de outubro próximo.

Em diversos momentos da história, o Brasil conseguiu acertar o passo e unir os setores público e privado, pesquisadores, cientistas, trabalhadores e a sociedade em torno de programas e projetos que permitiram ao país dar importantes saltos de desenvolvimento.

O mundo vive um momento de grandes mudanças e desafios — com crises climática e do multilateralismo, volta do protecionismo comercial e econômico, disputa entre Estados Unidos e China e guerras —, mas há várias oportunidades sobre a mesa e o Brasil está bem posicionado para aproveitar algumas delas.

Para fazer isso, o país precisa parar de tropeçar nas próprias pernas, aprender com o que deu errado, se inspirar no que deu certo e unir forças em torno de alguns projetos capazes de levar a um crescimento socioeconômico mais robusto, sustentável e justo.

Foi o que disse Paulo Hartung — ex-governador do Espírito Santo por três mandatos e ex-senador da República, reconhecido por sua atuação na promoção do equilíbrio fiscal, da modernização da gestão pública e do diálogo entre os setores público e privado — em palestra do ciclo “O Brasil na visão das lideranças públicas”, realizado pela Fundação FHC.

Paulo Hartung em palestra na Fundação FHC – Foto: Vinicius Doti

“O Brasil não é um país que precisa andar no escuro e tentar copiar a experiência de outros. Podemos olhar para nossas próprias experiências, aprender com o que deu errado e nos inspirar no que deu certo. As oportunidades estão sobre a mesa. Está na hora de juntar esforços para aproveitá-las”, disse Hartung, economista formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Mesmo distante da política desde 2019, quando deixou o último cargo eletivo, Hartung permanece como uma voz respeitada e influente nos meios político e empresarial. Ele deu alguns exemplos de setores nos quais o país poderia concentrar esforços e investimentos:

  • exportação de energia limpa, com a produção em larga escala de hidrogênio verde e biocombustíveis de última geração;
  • fabricação de produtos de alta tecnologia a partir da exploração adequada das importantes reservas brasileiras de terras raras;
  • investimentos em infraestrutura fundamentais para a expansão da inteligência artificial, como datacenters, que demandam grande oferta de energia limpa, abundante no país;
  • recuperação de terras degradadas com plantio de florestas, unindo reabilitação ecológica e produção econômica.

“Temos mais de 100 milhões de hectares de áreas degradadas, disponíveis para restauração florestal e produção de fibras, energia e alimentos, sem precisar desmatar mais nada. Que outro país do mundo tem essa quantidade de terras disponível?”, perguntou o palestrante, que atualmente preside a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), associação que reúne a cadeia produtiva de árvores plantadas.

“Em 2050, haverá mais 2 bilhões de pessoas no mundo (segundo projeções da ONU). O Brasil já é líder mundial na produção de alimentos, mas pode melhorar muito a infraestrutura nas zonas rurais, assim como a logística de transporte, armazenamento e exportação de alimentos”, disse.

Ele lembrou também que o mundo precisa realizar a transição energética, e o Brasil, que já possui uma matriz energética majoritariamente limpa e grande capacidade de produzir energia solar, eólica e biomassa, está em posição privilegiada para se tornar um grande exportador de energias renováveis.


Veja como foram outras palestras do ciclo “O Brasil na visão das lideranças públicas”:

Com o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad

Com a ministra do STF, Cármen Lúcia

Com o prefeito de Recife, João Campos

Exemplos de projetos bem-sucedidos do passado

Como exemplos de projetos bem-sucedidos colocados em prática no passado, Hartung citou:

  • o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), criado nos anos 1970 em resposta à crise do petróleo e que ajudou a transformar o Brasil em referência mundial na produção de etanol;
  • a transformação da agricultura brasileira em um dos setores mais produtivos do mundo, resultante de um processo de modernização iniciado nas décadas de 1970 e 1980, no qual tiveram papel decisivo as pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa);
  • o Plano Real, que estabilizou a economia brasileira após décadas de inflação crônica e sucessivas tentativas fracassadas de controle inflacionário, abrindo caminho para a modernização do país e a melhora das condições de vida da população;
  • o fim do monopólio estatal do petróleo e o novo marco regulatório do setor, nos anos 1990, que contribuíram para o avanço da Petrobras, a exploração do pré-sal e a consolidação do Brasil como exportador de petróleo;
  • a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), que, apesar de desafios persistentes de financiamento e qualidade do atendimento, se tornou referência de saúde pública universal no mundo em desenvolvimento;
  • a universalização do acesso à educação básica, que, embora ainda enfrente importantes desafios de qualidade, garantiu a presença da grande maioria das crianças e adolescentes na escola;
  • o fortalecimento institucional do Banco Central, peça-chave para a estabilidade econômica e a modernização do sistema financeiro brasileiro, com avanços como a criação do Pix;
  • o crescimento do setor de florestas cultivadas, inicialmente voltado à produção industrial, que fez do Brasil líder mundial na exportação de celulose e hoje também impulsiona iniciativas de restauração de biomas.

“Tivemos capacidade de colocar muita coisa de pé tanto nos setores privado como público, com ajuda das universidades e dos centros de pesquisa. Para isso, não precisamos de reservas de mercado nem de subsídios. O que precisamos é juntar esforços para inventar coisas novas. Quando acertamos o passo, colhemos resultados”, afirmou Hartung.

“Sou moderadamente otimista em relação ao futuro do Brasil, sobretudo com base no que nós, brasileiros, conseguimos produzir em nossa história, da redemocratização para cá. Os tropeços nas próprias pernas, no entanto, turvam nossa visão e nos fazem perder energia”, continuou.

Os deveres de casa do Brasil

O desafio agora, afirmou Hartung, é criar condições políticas, institucionais e econômicas para que o país consiga aproveitar as oportunidades abertas pela transição energética, pelas mudanças tecnológicas e pela reorganização da economia global.

“Temos boas experiências acumuladas, o mundo está de cabeça para baixo e há oportunidades em cima da mesa. Mas precisamos fazer os deveres de casa”, afirmou.

Entre os principais desafios apontados por Hartung estão:

  • o combate ao crime organizado;
  • o enfrentamento da corrupção;
  • a recuperação da capacidade de investimento em infraestrutura;
  • a modernização da educação;
  • a reorganização das contas públicas e o enfrentamento do “populismo fiscal”.

Segundo ele, o avanço do crime organizado já ultrapassa o problema tradicional da segurança pública e afeta diretamente a economia formal e o funcionamento das instituições. “O crime organizado está entrando no sistema financeiro, no mercado de combustíveis, na exploração e no comércio de ouro. Isso corrói o ambiente econômico e institucional do país”, alertou.

Hartung também criticou o enfraquecimento da agenda anticorrupção nos últimos anos. “O fracasso da Operação Lava Jato foi muito ruim para o Brasil porque escancarou espaço para a desfaçatez”, afirmou.

Segundo ele, o tema voltou ao centro do debate público em razão de episódios recentes envolvendo emendas orçamentárias, denúncias no INSS e fraudes no sistema financeiro.

Outro ponto central destacado pelo ex-governador foi a necessidade de reorganizar as contas públicas e enfrentar o que chamou de “ciclo longo de populismo fiscal”.

“A política precisa voltar a conversar seriamente com a sociedade sobre responsabilidade fiscal. Quando governei o Espírito Santo, eu dizia que só cuida das pessoas quem cuida das contas públicas”, disse.

Hartung defendeu a construção de uma narrativa política capaz de dialogar com a população sobre equilíbrio fiscal e sustentabilidade econômica: “Precisamos criar um fio-terra nessa conversa. Sem isso, continuaremos presos ao populismo fiscal.”

Celso Lafer, Paulo Hartung e Sergio Fausto no auditório da Fundação FHC –
Foto: Vinicius Doti

Conheça o projeto “Cenas da Redemocratização”, que recuperou 124 gravações em fitas VHS do programa “Vamos Sair da Crise”, apresentado por Alexandre Machado na TV Gazeta de São Paulo, no final dos anos 1980 e início da década de 1990

Assista à oitava temporada da série “Vale a Pena Perguntar”: Nova Onda Populista: direitas radicais

Infraestrutura, educação e produtividade

Hartung afirmou ainda que o Brasil sofre com um grave déficit de infraestrutura e que o Estado brasileiro não dispõe de recursos suficientes para resolver sozinho esse problema.

“Não existe dinheiro público suficiente para fazer os investimentos necessários em portos, aeroportos, ferrovias, estradas e energia. Será preciso atrair capital privado, e isso exige boa regulação, segurança jurídica e ambiente de negócios confiável”, disse.

Segundo ele, existe hoje excesso de liquidez internacional e forte demanda reprimida por investimentos no Brasil: “Tem dinheiro sobrando no mundo. O problema é que precisamos criar condições para atrair esses investimentos.”

Ao comparar o Porto de Santos ao Porto de Cingapura, onde esteve recentemente, Hartung afirmou ter percebido o tamanho do atraso brasileiro em infraestrutura logística. “Nossa deficiência de infraestrutura é brutal”, resumiu.

O ex-governador também chamou atenção para problemas de conectividade no campo e para a necessidade de modernização educacional diante da revolução tecnológica em curso.

“Conseguimos colocar praticamente todas as crianças na escola, mas ainda não alcançamos a qualidade educacional que este novo tempo exige”, afirmou. Segundo ele, novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, podem ajudar nesse processo, “mas não existe bala de prata”.

“Entre as prioridades do Brasil hoje estão o enfrentamento ao crime organizado e à corrupção, a ampliação dos investimentos em infraestrutura, acompanhada de maior segurança jurídica, e a modernização da educação”, disse Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo

Polarização e renovação política

Na fase de perguntas, Sergio Fausto, cientista político e diretor-geral da Fundação FHC, observou que os últimos 40 anos foram marcados pela deterioração da qualidade das lideranças políticas e questionou Hartung sobre como enfrentar esse problema.

O ex-governador respondeu que a crise de lideranças não é um fenômeno exclusivamente brasileiro: “O vazio de lideranças é planetário. Basta olhar quem substituiu a chanceler Angela Merkel no governo da Alemanha ou observar quem lidera hoje as principais nações do mundo.”

Para ele, parte da solução passa pelo fortalecimento dos partidos políticos como espaços permanentes de formação de quadros. “Precisamos convencer os partidos a voltarem a ser centros de formação política de novas lideranças”, disse Hartung, que integra o conselho do RenovaBR — iniciativa suprapartidária voltada à formação e capacitação de novas lideranças políticas no país.

Ao abordar a polarização política brasileira, Hartung afirmou que o país vive preso em “duas canaletas profundas”: o petismo e o antipetismo. “São fenômenos políticos que não imaginávamos possíveis há alguns anos. Isso acaba submetendo a política brasileira a uma dinâmica muito disfuncional”, afirmou.

Segundo ele, construir alternativas exige capacidade de diálogo com a sociedade e defesa clara de valores e princípios democráticos: “É preciso continuar remando e jogando luz sobre valores e princípios para conseguir atravessar esse momento.”

Hartung mencionou pesquisas recentes sobre polarização conduzidas pelos cientistas políticos Felipe Nunes e Thomas Traumann e afirmou que o Brasil vive hoje uma profunda transformação social, cultural e política.

“Temos outro país. Há correntes políticas que talvez nem sejam majoritárias, mas conseguem mobilizar apoios muito intensos”, disse.

Apesar disso, destacou o surgimento de uma nova geração de lideranças políticas, como o prefeito do Recife, João Campos, e o governador gaúcho Eduardo Leite, entre outras. No Congresso, ele citou a senadora Tereza Cristina como exemplo de liderança com capacidade de diálogo e construção de consensos.

Produtividade e escolhas difíceis

Em pergunta ao palestrante, o empresário Pedro Passos afirmou que o debate sobre produtividade ocupa pouco espaço no país e questionou como construir consensos para uma agenda econômica mais competitiva.

Hartung respondeu que aumentar a produtividade exige um conjunto amplo de ações, incluindo melhoria da educação básica, fortalecimento do ensino técnico e profissionalizante e disposição política para enfrentar escolhas difíceis.

“Há setores e arranjos industriais que sobrevivem apenas com subsídio e proteção. Isso não se sustenta no longo prazo”, afirmou. Segundo ele, mesmo com a volta do protecionismo em várias partes do mundo, o Brasil precisará aprender a realizar transições econômicas de forma gradual e politicamente viável.

“Até para desmontar uma máquina e montar outra é preciso habilidade política”, disse. “Precisamos definir quais são as brigas prioritárias e construir regras de transição.”

Hartung lembrou ainda que, quando chegou ao Congresso Nacional como deputado federal, o Brasil ainda mantinha reserva de mercado no setor de informática.

“A política é a capacidade de transformar conflitos paralisantes em mudanças possíveis. As grandes transformações normalmente acontecem por meio de pequenas conquistas que vão se acumulando”, afirmou.

Um novo país em transformação

A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida observou que as profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram o perfil da sociedade brasileira e trouxeram novos grupos para o centro do debate político. Hartung concordou com a avaliação e afirmou que o Brasil vive hoje uma mudança profunda de valores, comportamento e representação política.

“Trocamos de religião, mudamos valores, aumentou muito o espírito empreendedor. Vivemos em um novo país”, disse. Segundo ele, a representação política precisa refletir melhor essas mudanças sociais.

“Queremos que a política seja mais parecida com o país real e menos baseada apenas em sobrenomes tradicionais.”

Hartung defendeu a adoção do voto distrital misto como forma de melhorar a representação política, fortalecer o controle social sobre os mandatos e reduzir o custo das campanhas eleitorais.

Encerramento

Ao concluir o encontro, o presidente da Fundação FHC, Celso Lafer, afirmou que a palestra dialoga diretamente com a missão histórica da instituição.

“Faz parte da missão da Fundação Fernando Henrique Cardoso indicar rumos, apontar sentido de direção e ajudar a pensar caminhos para transformar o país. E Paulo Hartung fez isso hoje”, afirmou.


Otávio Dias é editor na Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. 

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