Debates
09 de abril de 2026

Desafios para a América Latina em meio ao choque entre as grandes potências

Em debate na Fundação FHC, Andrés Velasco defende que, em um mundo profundamente instável, a América Latina deve evitar alinhamentos automáticos, fortalecer a integração e diversificar parcerias.

O mundo vive um novo momento em que os Estados Unidos da América – principal potência econômica e militar, suposto modelo de democracia e fator de estabilização das relações internacionais e comerciais desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1945) — já não estão mais interessados em desempenhar esse papel.

Neste novo mundo em que “o poder hegemônico se tornou predador”, os países da América Latina precisam se fortalecer internamente, aprofundar a integração dentro de blocos já existentes, como o Mercosul — cujo acordo com a União Europeia foi assinado e aguarda implementação —, estreitar as parcerias com seus vizinhos e outras nações da região, e buscar novos parceiros entre os países em desenvolvimento de outros continentes, como Índia e países do Leste Asiático, do Oriente Médio e da África.

A China já é o maior parceiro comercial da maioria dos países da América do Sul e tem aumentado seus investimentos na região. Essa relação pode ser aprofundada em áreas como tecnologia e energia, mas os países latino-americanos não devem escolher o “lado chinês” na disputa estratégica entre Pequim e Washington.

Estas foram as principais conclusões deste seminário com o economista chileno Andrés Velasco, ex-ministro da Fazenda do Chile (2006-2010) e atualmente diretor da Escola de Políticas Públicas da London School of Economics and Political Science (LSE), realizado na sede da Fundação Fernando Henrique Cardoso em São Paulo, em 9 de abril de 2026.

Um mundo mais instável e menos previsível

“Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca (em janeiro de 2025), a grande águia que cuidava do mundo se tornou predadora, como escreveu Stephen M. Walt em artigo recente na revista Foreign Affairs, intitulado ‘The Predatory Hegemon: How Trump Wields American Power’. Trump é um acidente de percurso ou trata-se de uma mudança que veio para ficar?”, perguntou Velasco, PhD em Economia pela Columbia University, com passagens acadêmicas pela Harvard University e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“Creio que o que acontece nos EUA atualmente vai além de um presidente. Trata-se de um divórcio cultural com o mundo que o próprio país ajudou a construir nos últimos 80 anos”, disse o palestrante, que é membro do G20 Eminent Persons Group, grupo internacional de especialistas que assessora reformas no sistema financeiro global.

Segundo Velasco, os EUA (sob Trump) não são o único predador desse novo mundo e, nesse contexto, a política internacional volta a exigir força. “A Rússia invadiu a Ucrânia e deu início ao maior conflito armado na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos três ou quatro anos, a política global passou a exigir músculo”, afirmou. Em paralelo, conflitos no Oriente Médio reforçam esse cenário de instabilidade e revalorização do poder militar. “A capacidade militar importa — e quanto mais se gastar em armamentos e tecnologias militares, melhor para garantir a defesa. Mas onde procurar essa tecnologia sem depender dos EUA e da China?”.

Assista: 9ª temporada da série Vale a Pena Perguntar: América Latina entre China e EUA

Andrés Velasco em palestra na Fundação FHC – Foto: Vinicius Doti

Três dimensões da nova segurança

A partir desse diagnóstico — de um mundo mais instável, com regras mais frágeis e crescente incerteza — Velasco organizou sua análise em torno de três dimensões centrais da segurança: física, econômica e tecnológica.

A primeira é a segurança física, que voltou ao centro da agenda global. Além da guerra na Europa, multiplicam-se tensões e conflitos que reforçam a importância da capacidade de defesa. O desafio, porém, vai além de gastar mais: envolve desenvolver ou acessar tecnologias estratégicas sem criar novas dependências. Esse debate já mobiliza a Europa, especialmente em áreas como sistemas de defesa, satélites e comunicações. Ao mesmo tempo, a segurança física inclui o combate ao crime organizado, um fenômeno transnacional que afeta de maneira particularmente intensa a América Latina.

A segunda dimensão é a segurança econômica. Se, no passado recente, a globalização oferecia previsibilidade e acesso relativamente estável a mercados e insumos, hoje o cenário é mais volátil. “O acesso a mercados não é garantido; o acesso a insumos também não”, resumiu Velasco. Tarifas podem ser alteradas abruptamente, cadeias produtivas podem ser interrompidas e até o acesso ao sistema financeiro internacional — crédito, grau de investimento e meios de pagamento — pode ser condicionado por decisões políticas. Soma-se a isso a crescente disputa por energia e minerais críticos, essenciais para a economia contemporânea.

A terceira frente é a segurança tecnológica, talvez a mais sensível no longo prazo. “Todos os dados cruciais de uma empresa estão nas nuvens, e essas infraestruturas são, em sua maioria, controladas por grandes empresas de tecnologia — sobretudo norte-americanas”, observou. A dependência se estende aos próprios governos, cujas informações estratégicas também estão armazenadas em infraestruturas externas. “No campo da inteligência artificial, os Estados Unidos e a China concentram a liderança global. Se decidirem deixar outros países de fora, pouco se pode fazer”, alertou, destacando o grau de vulnerabilidade envolvido.

Leia: América Latina, o Não Alinhamento Ativo e a disputa entre os EUA e a China, artigo escrito pelo embaixador chileno Jorge Heine para a série Conexão América Latina.

Andrés Velasco em palestra na Fundação FHC. Ao fundo, Sergio Fausto – Foto: Vinicius Doti

Três desafios para a América Latina

Esse novo contexto redefine também os dilemas estratégicos da América Latina. O primeiro deles é diplomático: como se posicionar em um mundo polarizado. Alinhar-se automaticamente a uma das grandes potências pode parecer uma solução, mas traz riscos. “Ser amigo de um predador não é muito seguro”, disse Velasco. Por outro lado, a neutralidade absoluta é difícil de sustentar — e também tem custos. A escolha envolve não apenas interesses econômicos, mas também valores políticos e institucionais, como o compromisso com a democracia e os direitos humanos.

Velasco chamou atenção para o papel de fóruns como os BRICS como espaço de articulação entre países emergentes. Em seguida, fez uma ressalva: “Se os BRICS se transformarem em uma aliança política, isso seria um erro”. Segundo ele, o grupo hoje funciona mais como um instrumento de influência — especialmente de China e Rússia — do que como uma plataforma efetiva de cooperação econômica, tecnológica ou financeira.

A questão, portanto, não é apenas a qual bloco pertencer, mas como evitar alinhamentos automáticos e preservar margem de manobra. “Podemos ter mais de um amigo”, afirmou. No caso latino-americano, isso é particularmente relevante: a principal parceria comercial da região– hoje concentrada na China – não deve implicar alinhamento político automático.

O segundo desafio dos países latino-americanos diz respeito à própria capacidade de garantir segurança — em sentido amplo — sem cair em soluções ineficientes. Isso inclui desde infraestrutura crítica, como satélites e sistemas de pagamento, até a necessidade de reduzir dependências externas de forma pragmática, equilibrando eficiência e resiliência.

O terceiro desafio é interno – e, segundo o economista, o mais preocupante. “A América Latina vai mal em produtividade e inovação, e dados recentes do Banco Mundial apontam para um desempenho econômico medíocre. Países como Brasil e México crescem menos que economias desenvolvidas, contrariando a lógica de convergência”, alertou.

Segundo Velasco, a região permanece distante da fronteira tecnológica e cresce pouco porque não consegue sustentar ganhos de eficiência. Uma das razões centrais está na fraca conexão entre universidades e setor produtivo. “O crescimento econômico depende de ecossistemas dinâmicos de inovação, nos quais conhecimento acadêmico e iniciativa privada se retroalimentam, com um Estado que regule adequadamente, mas permita que as empresas operem com liberdade”, afirmou.

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Diversificação e pragmatismo como estratégia

Diante de tantas incertezas que afetam o mundo e também a região – futuro político dos Estados Unidos, possíveis conflitos geopolíticos, pressões inflacionárias com risco de estagflação, fragilidades no mercado de crédito privado e dúvidas sobre a sustentabilidade das avaliações das grandes empresas de tecnologia –, a recomendação é de prudência e diversificação. 

“Como não sabemos o que vai acontecer, devemos atuar prudentemente.” Isso implica ampliar parcerias, fortalecer vínculos regionais e evitar dependências excessivas. “Relações com a Europa — com destaque para o acordo Mercosul-UE —, maior integração latino-americana e aproximação com países como a Índia aparecem como caminhos promissores.” “Se um de meus sócios se comporta mal, devo procurar outros sócios”, resumiu.

O Consenso de Londres: uma nova agenda

É nesse contexto que surge uma das principais novidades discutidas no seminário: o chamado Consenso de Londres, ainda em formulação. Inspirado, em parte, no debate europeu recente, o conceito busca atualizar as bases da política econômica internacional três décadas após o Consenso de Washington, formulado no início dos anos 1990.

A nova abordagem reconhece que estabilidade macroeconômica continua sendo condição necessária, mas não suficiente. Em um mundo mais incerto, o Estado precisa assumir também um papel de “assegurador”, capaz de atuar de forma contracíclica e mitigar riscos sistêmicos. Ao mesmo tempo, reforça-se a importância de preservar a autonomia dos bancos centrais e evitar níveis excessivos de endividamento público.

Mais do que um conjunto fechado de prescrições, o Consenso de Londres sinaliza uma mudança de paradigma: a necessidade de equilibrar eficiência econômica com resiliência estratégica. No caso europeu, isso já se traduz em iniciativas para coordenar o poder de compra público e estimular o desenvolvimento de tecnologias próprias, reduzindo vulnerabilidades.

Para a América Latina, a lição é clara. Se economias avançadas já se mobilizam para enfrentar esses desafios, a região não pode permanecer inerte. Em um mundo em que a segurança — física, econômica e tecnológica — redefine prioridades, será necessário agir com mais coordenação, pragmatismo e ambição. Caso contrário, o risco é repetir um padrão conhecido: assistir, mais uma vez, às transformações globais sem protagonismo — e arcar com seus custos.

Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. 

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