Debates
06 de maio de 2026

A China e a guerra no Irã: como Pequim vê o conflito?

Neste webinar, conversamos com o historiador Lanxin Xiang, um dos mais respeitados analistas chineses das relações entre o país asiático e o Ocidente.

Diante dos erros de cálculo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no conflito com o Irã, a China prefere manter distância e observar os desdobramentos da crise para avaliar possíveis ganhos estratégicos futuros, incluindo uma eventual participação na reconstrução do país. A análise é do historiador chinês Lanxin Xiang, professor emérito do Graduate Institute of International and Development Studies (IHEID, Genebra) e Zijiang Chair at East China Normal University. 

“Quando você vê seu competidor cometer um erro, o melhor a fazer é observar e torcer para que ele continue a errar. Por isso, Pequim está adotando uma atitude bastante contida. Aliás, o regime iraniano não está muito satisfeito com a reação (ou falta de reação) chinesa. A Rússia também está esperando para ver, e Teerã também não está gostando disso”, disse Xiang, neste webinar realizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Como entrevistadores, participaram a jornalista Cláudia Trevisan — ex-correspondente internacional em Pequim e Washington, atualmente diretora executiva do Conselho Empresarial Brasil-China — e o cientista político e diretor geral da Fundação, Sergio Fausto, Distinguished Fellow do Kellogg Institute for International Studies.

Segundo Xiang, ex-diretor do Institute of Security Policy (Xangai), um aspecto que interessa especialmente à China é se o erro estratégico de Trump no Oriente Médio afetará o resultado das eleições legislativas norte-americanas, que ocorrerão em novembro próximo e são conhecidas como midterms. Realizadas no meio do mandato presidencial, elas revelam como a população está avaliando o governo e impactam a segunda metade do mandato.

“Se Trump perder não uma, mas as duas Casas do Congresso, Pequim passará a lidar com um presidente ‘lame duck’ (pato manco) pelos próximos dois anos, e a China não quer isso. Prefere lidar com um presidente norte-americano forte, com capacidade de colocar em prática suas políticas junto ao Congresso”, afirmou o pesquisador associado ao Stimson Center (Washington).

Apesar da crescente rivalidade entre os dois países, Xiang avalia como positiva a política de Trump em relação à China em seu segundo mandato na Casa Branca, e vice-versa: “Nenhum dos lados cometeu um erro grave até o momento. A guerra no Oriente Médio é certamente disruptiva, mas até agora não vejo sinais de que irá impactar de forma mais permanente a relação entre a China e os EUA.”

A posição chinesa sobre o programa nuclear iraniano

Xiang destacou que a China mantém boas relações com a República Islâmica do Irã e possui muitos investimentos no país, mas, na questão nuclear, adota posição semelhante à dos Estados Unidos e da maior parte da comunidade internacional, contrária à proliferação nuclear.

“Apesar da parceria estratégica com Teerã, os chineses não querem que o Irã se transforme em uma potência nuclear. Por isso, Pequim participou ativamente das negociações do acordo nuclear firmado com o Irã em 2015, durante o governo Barack Obama, ao lado dos Estados Unidos, da Rússia, da França, do Reino Unido e da Alemanha, e foi uma das signatárias do pacto, abandonado unilateralmente pelos EUA em 2018, no primeiro governo Trump”, disse Xiang.

Segundo ele, por ser ela própria uma potência nuclear, a China tradicionalmente apoia mecanismos internacionais de controle da proliferação nuclear, como o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

Pequim aposta em ampliar influência na reconstrução do Irã 

Não é apenas com o Irã que a China mantém boas relações no Oriente Médio, disse o palestrante: “Isso acontece com praticamente todas as nações da região, entre elas os países do Golfo Pérsico e também Israel. Este é mais um motivo para a China adotar uma postura cautelosa e equilibrada em relação ao conflito.”

Israel participa diretamente da guerra ao lado dos Estados Unidos, e os países do Golfo estão entre os mais impactados, tanto por serem alvo de ataques de mísseis e drones iranianos quanto pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte das exportações mundiais de petróleo e gás, principal fonte de renda dessas economias.

Segundo Xiang, a China, importante importadora de petróleo e derivados, ainda não está pressionada pela redução das exportações do Oriente Médio, principalmente por possuir amplas reservas estratégicas, mas também porque tem conseguido ampliar compras de outros fornecedores, como a Rússia.

Cláudia Trevisan lembrou que, no primeiro trimestre de 2026 — antes ainda do início do conflito —, as vendas de petróleo brasileiro para a China registraram aumento de mais de 120%, chegando a US$ 7,2 bilhões, praticamente o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior. A China chegou a absorver 57% de todo o petróleo exportado pelo Brasil no período.

“Como a China pode se beneficiar do conflito?”, perguntou Trevisan.

“Acredito que, após o término da guerra, as relações entre a China e o Irã ficarão ainda mais próximas. A China é hoje o país mais capacitado do mundo para realizar obras de infraestrutura, e Teerã vai precisar não somente de investimentos, mas também das empresas de construção chinesas para a reconstrução do país”, respondeu Xiang.

Assista à nona temporada da série Vale a Pena Perguntar: América Latina entre China e Estados Unidos

Acredito que, após o término da guerra, as relações entre a China e o Irã ficarão ainda mais próximas. A China é hoje o país mais capacitado do mundo para realizar obras de infraestrutura, e Teerã vai precisar não somente de investimentos, mas também das empresas de construção chinesas para a reconstrução do país.

Lanxin Xiang, professor emérito do Graduate Institute of International and Development Studies

Taiwan e os efeitos geopolíticos da guerra 

Do ponto de vista geopolítico, a guerra no Oriente Médio pode beneficiar a China na questão de Taiwan — território governado autonomamente desde 1949, com sistema democrático multipartidário e economia capitalista, mas que Pequim considera parte inseparável da China e pretende reincorporar ao seu território em algum momento, preferencialmente pela via pacífica.

“Não tenho dúvidas em dizer que tanto a China como a Rússia estão se beneficiando do atual conflito. A Rússia estava sob fortes críticas, sobretudo na Europa, por violar a soberania da Ucrânia. Não há dúvida de que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é uma violação frontal à Carta das Nações Unidas. Então, esta guerra representa uma boia de salvação para a reputação russa”, disse.

“Para a China, a guerra faz com que os exercícios militares chineses no Estreito de Taiwan pareçam insignificantes, se comparados ao que os EUA estão fazendo no Oriente Médio”, completou.

“Pequim vê as guerras na Ucrânia e no Irã como uma oportunidade para retomar Taiwan pela via militar ou a atual situação favorece uma atitude mais cautelosa em relação a este tema?”, perguntou Sergio Fausto.

“Os EUA estiveram envolvidos por décadas em conflitos no Oriente Médio e na Ásia Central, como no Iraque e no Afeganistão. Isso não é novidade. Portanto, a China não precisa de uma janela de oportunidade para retomar Taiwan; pode fazer isso a qualquer momento”, respondeu Xiang.

Segundo o especialista em assuntos chineses e segurança no Leste Asiático, a prioridade em Pequim continua sendo uma reunificação pacífica entre Taiwan e a China continental.

“Por que a China usaria a força para retomar Taiwan neste momento? Qual seria a lógica por trás de uma operação militar com esse objetivo? Pequim não tem urgência para fazer isso, inclusive porque, se algum dia decidir fazê-lo, não há muito o que os EUA poderiam fazer a respeito. A capacidade militar norte-americana de ajudar Taiwan em caso de uma ação militar chinesa é muito limitada”, afirmou.

Não tenho dúvidas em dizer que tanto a China como a Rússia estão se beneficiando do atual conflito. A Rússia estava sob fortes críticas, sobretudo na Europa, por violar a soberania da Ucrânia. Não há dúvida de que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é uma violação frontal à Carta das Nações Unidas. Então, esta guerra representa uma boia de salvação para a reputação russa.

Lanxin Xiang, professor emérito do Graduate Institute of International and Development Studies

China, EUA e a disputa por influência na América Latina 

A tentativa do presidente Donald Trump de reduzir a presença chinesa na América Latina — em uma estratégia frequentemente associada à retomada da lógica da Doutrina Monroe — também foi tema do debate. Questionado sobre como Pequim vê esse movimento, Xiang afirmou que a China acompanha com preocupação a política norte-americana para a região, mas evita uma postura de confronto direto.

“Pequim certamente vê essa retomada da Doutrina Monroe de forma negativa, porque o principal objetivo é reduzir a influência chinesa na América Latina. Trump não esconde isso”, afirmou.

Segundo o historiador, a China possui interesses econômicos e estratégicos importantes em países latino-americanos, mas reconhece as limitações de sua capacidade de atuação política na região diante da influência histórica dos Estados Unidos.

Xiang citou o caso da Venezuela, país com o qual Pequim manteve estreita relação durante o governo de Nicolás Maduro, capturado por forças especiais norte-americanas em janeiro de 2026 e levado para os Estados Unidos. “A China sempre teve boas relações com o regime chavista, mas a captura de Maduro parece ter tido apoio de pessoas de dentro do próprio regime e não havia muito o que Pequim poderia fazer”, disse. Segundo ele, Cuba também é vista em Pequim como um possível foco de instabilidade futura.

Apesar das tensões geopolíticas, Xiang avalia que ainda há espaço para acomodação entre Washington e Pequim na América Latina. “Trump é um líder aberto a negociações e acordos diversos. Não é impossível imaginar algum tipo de entendimento envolvendo a presença chinesa na região”, afirmou. “Um confronto direto não interessa a ninguém: nem à China, nem aos Estados Unidos, nem aos países latino-americanos.”

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Desafios para a América Latina em meio ao choque entre as grandes potências – com Andrés Velasco

Um mundo dividido em esferas de influência 

Ao discutir a crescente divisão geopolítica do mundo, Fausto questionou se Pequim aceitaria uma lógica de “esferas de influência”, na qual a China exerceria predominância na Ásia, e os EUA manteriam hegemonia sobre o Ocidente e a América Latina.

Segundo Xiang, há setores do establishment chinês que defendem essa lógica, mas ela enfrenta obstáculos importantes do ponto de vista estratégico. “Algumas pessoas argumentam que os EUA deveriam tolerar uma posição dominante da China na Ásia, enquanto Pequim adotaria uma postura mais distante em relação ao Ocidente”, explicou.

O historiador ponderou, porém, que assumir liderança regional plena significaria também arcar com custos elevados de segurança e projeção militar. “Isso implicaria exercer uma espécie de papel policial na Ásia-Pacífico, construir bases militares e assumir responsabilidades estratégicas permanentes. Não acredito que Pequim tenha interesse nisso neste momento.”

Ele lembrou ainda que a China já enfrenta tensões regionais significativas, envolvendo Japão, Taiwan e o Mar do Sul da China, o que torna improvável uma estratégia de hegemonia aberta no curto prazo.

Ao comentar a política externa chinesa, Xiang rejeitou também a ideia de que Pequim esteja buscando construir alianças formais nos moldes ocidentais. “Eu evitaria usar o termo ‘aliança’, porque alianças implicam compromissos automáticos entre países. A China prefere desenvolver relações pragmáticas”, afirmou.

Segundo ele, Pequim busca atualmente melhorar suas relações com a União Europeia, deterioradas nos últimos anos em razão da Guerra da Ucrânia e das tensões ideológicas entre democracias liberais e regimes autoritários. “Durante o governo Biden, muitos países europeus passaram a olhar a relação com a China sob a ótica democracia versus autocracia. Mas a volta de Trump e sua postura imprevisível em relação aos aliados europeus estão levando diversos líderes europeus a reavaliar essa posição e tentar uma reaproximação com Pequim”, disse.

Como Pequim vê as eleições no Brasil

Na parte final do encontro, Trevisan perguntou se, sob a perspectiva chinesa, o resultado das eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026 teria impacto relevante sobre a relação bilateral — especialmente diante da possibilidade de uma disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um candidato do campo da direita, alinhado politicamente a Donald Trump.

Xiang respondeu que governos de esquerda tendem historicamente a manter relações mais próximas com Pequim, mas avaliou que a política externa chinesa tem se tornado cada vez mais pragmática e menos orientada por afinidades ideológicas.

“Em princípio, líderes de esquerda costumam ser vistos de maneira mais favorável pela China, e o presidente Lula é considerado um velho amigo de Pequim”, afirmou. “Naturalmente, a China ficaria confortável com sua reeleição.”

O historiador ressaltou, porém, que as mudanças promovidas por Trump na política internacional alteraram parte dessa lógica tradicional. “Trump já não atua a partir de divisões ideológicas clássicas, e isso também modifica a forma como a China se relaciona com outros países”, disse.

Como exemplo, Xiang citou a Argentina do presidente Javier Milei, que durante a campanha eleitoral adotou discurso fortemente crítico à China, mas depois buscou preservar relações econômicas e diplomáticas com Pequim.

“Milei criticava duramente a China antes de assumir o governo, mas, ao chegar ao poder, procurou manter boas relações com Pequim. Por isso, não acredito que a China ficará especialmente preocupada caso um candidato de direita vença as eleições brasileiras”, afirmou.

Segundo Xiang, independentemente do resultado eleitoral, a tendência é de continuidade da importância estratégica do Brasil para a China, especialmente em setores como energia, infraestrutura, mineração, agronegócio e transição energética.


Otávio Dias é editor na Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.   

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