Biografia
Fernando Henrique Cardoso nasceu em 18 de junho de 1931, no Rio de Janeiro, em uma família com expressiva presença de militares. Seu avô paterno e seu pai foram generais e vários parentes seus ocuparam posições de destaque nas Forças Armadas e no governo entre os anos de 1930 e 1950. Mudou-se ainda criança com a família para São Paulo. Em 1953, casou-se com Ruth Corrêa Leite Cardoso (1930-2008), com quem teve três filhos. Na carreira acadêmica, FHC foi docente em instituições como Universidade de São Paulo, Harvard University, Princeton University, University of California, École des Hautes Études en Sciences Sociales, University of Cambridge, Université Paris-Nanterre e Universidad de Chile. Recebeu 31 títulos Honoris Causa, produziu mais de cem artigos e pesquisas acadêmicas, foi autor de mais de 40 livros e recebeu centenas de premiações e condecorações nacionais e internacionais. Na vida pública, foi senador, ministro das Relações Exteriores e da Fazenda e Presidente da República.
Curriculum-vitae completo de FHC Bibliografia completa de FHCFormado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), onde se tornou professor em 1953, Fernando Henrique Cardoso sofreu ameaças após o golpe de 1964 e decidiu exilar-se com a família no Chile e na França. Em Santiago, atuou na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e lecionou em instituições acadêmicas. Nesse período, desenvolveu, em parceria com o sociólogo Enzo Faletto, a Teoria da Dependência, que resultou na obra ‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina: Ensaio de Interpretação Sociológica’. Na França, entre meados de 1967 e julho de 1968, foi professor na Université Paris-Nanterre e acompanhou de perto o Maio de 1968, movimento de protestos estudantis e greves operárias de grande escala que provocaram uma crise política e social no país. Ainda em 1968, voltou ao Brasil e assumiu, por concurso público, a cátedra de Ciência Política da USP. Porém, em 1969, aos 38 anos, foi aposentado compulsoriamente e teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nº 5 imposto pelo regime militar. No mesmo ano, participou da criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) — importante núcleo de pesquisa e reflexão sobre a realidade brasileira — onde manteve intensa produção intelectual, com estudos sobre desenvolvimento, Estado e democratização.
A trajetória parlamentar de Fernando Henrique teve início em 1978. À época, já era um intelectual reconhecido e ativista político, embora ainda sem experiência em disputas eleitorais. Ingressou na campanha com caráter sobretudo simbólico, mais do que com expectativa concreta de vitória. Obteve a segunda maior votação e tornou-se suplente do senador Franco Montoro.
Em 1983, assumiu a vaga no Senado Federal, após a eleição do então senador Franco Montoro para o governo de São Paulo. Em 1984, no contexto da transição democrática, participou da campanha das Diretas Já e da articulação da chapa de Tancredo Neves e José Sarney ao Palácio do Planalto. No governo de Sarney, assumiu a posição de liderança do governo no Senado, onde articulou reformas para a redemocratização do país. Em 1986, FHC reelegeu-se senador por São Paulo e, entre 1987 e 1988, foi um dos relatores da Assembleia Nacional Constituinte. No fim de 1988, foi um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ao lado de Mário Covas, Franco Montoro, José Serra e outras lideranças políticas.
Em 1992, Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério das Relações Exteriores no governo de Itamar Franco. No ano seguinte, foi nomeado para o Ministério da Fazenda, em um momento em que a inflação pelo IPCA atingia 2.500% ao ano e o poder de compra da população diminuía a cada dia. À frente da pasta, reuniu um time de economistas e coordenou a formulação do Plano Real, programa de estabilização econômica que combinou medidas de ajuste fiscal, a criação da Unidade Real de Valor (URV) como unidade de transição e a introdução de uma nova moeda, o Real, em 1º de julho de 1994. O plano foi decisivo para o controle da inflação e a estabilização da economia brasileira.
Em 3 de outubro de 1994, foi eleito Presidente da República, no primeiro turno, com 54,3% dos votos. Tomou posse em 1º de janeiro de 1995 e, em 1998, foi reeleito, também em primeiro turno. Seus dois mandatos foram marcados pela continuidade da inflação baixa, pela modernização da economia e pelo fortalecimento do Estado como promotor de políticas sociais e regulador dos mercados.
Nos oitos anos de sua gestão, o Brasil avançou em diversos indicadores socioeconômicos. A inflação seguiu controlada, com taxa de inflação média anual pelo IPCA de 9,71% no primeiro mandato e 8,77% no segundo. O PIB cresceu 19,39%, a renda média subiu 41,8%, o salário mínimo foi elevado em 44,28% e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país melhorou de 0,753 para 0,789. As reformas do governo FHC impulsionaram a modernização da infraestrutura econômica, com a abertura para investimentos privados em diversos setores, a autonomia operacional do Banco Central, a elaboração da Lei de Responsabilidade Fiscal e a criação das agências reguladoras independentes.
O governo de Fernando Henrique Cardoso instituiu e ampliou programas de transferência de renda e proteção social, entre os quais o Fundo Nacional de Assistência Social, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação, o Vale-Gás e o Programa Comunidade Solidária, entre outros. Ao final de 2002, cerca de 6,5 milhões de famílias eram atendidas por programas de transferência de renda. No mesmo período, aproximadamente 6,5 milhões de trabalhadores rurais recebiam aposentadoria e cerca de 1,5 milhão de idosos ou pessoas com deficiência eram beneficiados pelo Benefício de Prestação Continuada. Entre 1994 e 2001, a participação dos gastos sociais no orçamento federal passou de 23% para 28,3%, correspondendo a um aumento real significativo, enquanto os dispêndios na área social atingiram cerca de 3% do PIB. No período, observou-se também a redução da proporção de pessoas abaixo da linha da miséria no país.
Na área da educação, o governo de Fernando Henrique Cardoso ampliou o acesso ao ensino fundamental, alcançando taxa de matrícula próxima de 97%, e promoveu a redução do analfabetismo, de 19,7% para 12,8%. Também foram instituídos o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). Na área da saúde, destacaram-se o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a regulamentação dos medicamentos genéricos, a aprovação da Emenda Constitucional nº 29, que instituiu a vinculação de recursos para o setor, e o fortalecimento das políticas de enfrentamento ao HIV/AIDS, reconhecidas internacionalmente. Na reforma agrária, houve ampliação significativa do número de famílias assentadas em relação às décadas anteriores. No mesmo período, teve início a política de regularização de territórios quilombolas, com a primeira titulação realizada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 1995, na Comunidade Boa Vista, em Oriximiná (PA).
Na política externa, o governo de Fernando Henrique Cardoso caracterizou-se por atuação pragmática e orientada à ampliação da inserção internacional do Brasil. Houve ênfase no fortalecimento do Mercosul, na participação ativa em organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio e a Organização das Nações Unidas (ONU), e no aprofundamento das relações com os principais polos econômicos globais. A diplomacia brasileira passou a incorporar, de forma mais explícita, a defesa da democracia e dos direitos humanos como princípios orientadores.
A consolidação da democracia brasileira teve papel de destaque em seus governos, com o reconhecimento das violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura, a criação do Ministério da Defesa sob comando civil e a realização de uma transição institucional para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente eleito por voto direto a transmitir o cargo a seu sucessor eleito desde 1961. Além disso, foi o primeiro civil eleito por voto direto a completar integralmente o mandato presidencial desde Juscelino Kubitschek.
Em sua gestão, o Brasil afirmou-se como um país democrático, aberto ao mundo, com estabilidade política e econômica e consciente da sua liderança regional.
Após deixar a Presidência da República, em 2003, Fernando Henrique Cardoso manteve intensa atuação intelectual e pública. Participou de debates nacionais e internacionais sobre democracia, desenvolvimento, política internacional e os desafios contemporâneos das sociedades democráticas. Também integrou conselhos e fóruns internacionais.
Em 2004, criou o então Instituto Fernando Henrique Cardoso, hoje Fundação FHC, inspirado em organizações similares ligadas a ex-governantes europeus e americanos. “Quis que ela fosse não só um centro de memória histórica, mas também um lugar de debates sobre a democracia e o desenvolvimento. Duas causas com as quais estive envolvido desde muito cedo”, afirmava.
A Fundação FHC abriga o Centro de Memória e Pesquisa, responsável pelas atividades de preservação do patrimônio documental, pesquisa científica, formação e cooperação institucional nas áreas de gestão, organização e difusão de acervos. Encontram-se sob sua guarda arquivos pessoais de reconhecido valor histórico, compostos por documentos textuais, audiovisuais, iconográficos, sonoros, bibliográficos e objetos, que constituem importante fonte para o estudo da história política, econômica e social do Brasil nos séculos XX e XXI. O Centro também promove o acesso ao Acervo Pres. Fernando Henrique Cardoso por pesquisadores e pelo público em geral.
Com mais de 20 anos de existência, a Fundação consolidou-se como espaço de diálogo, preservação da memória e produção plural de conhecimento. Suas atividades incluem a realização de debates, exposições e ações educativas, além da produção de livros, artigos, materiais pedagógicos e conteúdos audiovisuais voltados à valorização da democracia, da cidadania e do conhecimento fundamentado.












