Ciclo ‘O Brasil na visão das lideranças públicas’: com Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda
Neste debate, Haddad falou sobre os principais desafios econômicos e políticos do país. Ele também compartilhou experiências de sua trajetória no governo federal nos últimos anos.
O Brasil vive um quadro de fragmentação política, institucional e até mesmo na gestão pública — com falta de articulação entre ministérios e outros órgãos do governo federal, assim como entre a União, os Estados e os municípios — que dificulta que o país avance em áreas fundamentais para o seu desenvolvimento, como transição ecológica, tecnologia e inovação (incluindo inteligência artificial), aumento da produtividade e reindustrialização verde.
O alerta foi feito pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (2023-2026) durante palestra do ciclo “O Brasil na visão das lideranças públicas”, na Fundação Fernando Henrique Cardoso, em 7 de abril de 2026.
“Temos muita fragmentação no país. Isso gera muito desperdício. Um plano de desenvolvimento para o Brasil exigiria uma combinação de esforços não apenas entre os ministérios e outros órgãos do governo federal, mas também entre a União, os Estados e municípios, e os demais Poderes, principalmente o Legislativo”, disse Haddad, que também foi ministro da Educação (2005-2012) e prefeito de São Paulo (2013-2016).
Segundo o ex-ministro — que foi candidato a presidente da República pelo Partido dos Trabalhadores em 2018 —, a fragmentação ocorre dentro do próprio governo federal. Como exemplo, ele relatou as dificuldades de implantar o Plano de Transformação Ecológica, concebido pelo Ministério da Fazenda durante sua gestão.

“O Brasil tem vocação natural para fazer da transição ecológica um eixo de desenvolvimento sustentável, mas isso exige articulação interministerial e federativa. O Estado brasileiro, porém, não está estruturado dessa forma. Por exemplo: o Ministério das Minas e Energia dialoga com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para dar respostas adequadas a desafios como a definição de um mapa do caminho para reduzir o uso e a produção de combustíveis fósseis, os investimentos em biocombustíveis do futuro e a exploração das reservas de terras raras com valor agregado? O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima está no mesmo diapasão?”, perguntou.
Haddad criticou o que ele chamou de “feudalização”: “Um ministro se acha dono de determinado assunto, outro se acha dono de outro assunto e um terceiro, de outro assunto ainda, quando na realidade todos estão interligados. Despende-se muita energia para articular interesses diferentes para atingir um objetivo que deveria ser de todos.”
A falta de articulação se estende ao sistema federativo: “Será que a União tem canais adequados de diálogo com os Estados e os municípios para forjar uma visão de futuro que nos permita um desenvolvimento mais auspicioso, robusto e sustentável?”
A dificuldade de construir consensos estratégicos
Em seguida, o ministro questionou se o Congresso Nacional está consciente dos grandes desafios que o país enfrenta e das oportunidades que podem ser perdidas se projetos fundamentais não forem debatidos da maneira adequada. “O Parlamento deixou caducar a medida provisória que criava o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter e abriria caminho para a entrada de um caminhão de dinheiro para investimentos em data centers no país”, lembrou.
Haddad também defendeu a necessidade de construir maior convergência política em torno de projetos estratégicos para o país, inclusive com participação das oposições. “Como fazer com que as oposições deixem de lado as disputas políticas e colaborem com projetos de interesse nacional? Uma das formas é apresentar propostas com forte apelo e apoio social, como foi o caso da Reforma Tributária (promulgada em dezembro de 2023). É preciso unir as forças do país em torno de um projeto de futuro. É possível, mas exige engenharia política.”
Haddad não fez referência explícita à crise de credibilidade que atinge o Supremo Tribunal Federal, mas destacou a necessidade de repensar as instituições da República, no sentido de torná-las mais transparentes e próximas da sociedade, além de melhorar as relações entre os Poderes. “As instituições estão funcionando, assim como as investigações relativas aos escândalos do momento. Torço para que avancem para que possamos virar essa página. Também temos um problema a ser endereçado nas relações institucionais.”
‘Se não vier com populismo, o Brasil tem jeito’
Após fazer um balanço de sua atuação no Ministério da Fazenda, em que, segundo ele, buscou “equilibrar o fiscal e o social”, Haddad defendeu que o Brasil tem tudo para dar um salto de qualidade, mas que o futuro do país dependerá dos rumos da política. Na avaliação do ex-ministro, as eleições gerais de outubro próximo serão decisivas.
“Estou otimista com o Brasil. Fizemos uma reforma tributária que entra em vigor em 2027 e tem uma transição que vai até 2032. Foi a reforma econômica mais importante desde o Plano Real (1994). Se tivermos um próximo governo que aja com responsabilidade, chegaremos à próxima década com uma boa situação de estabilidade. O que estou dizendo não é dissonante do que investidores brasileiros e externos estão dizendo sobre o país. Se eles entenderem que a rota atual é pra valer, boa parte desses investimentos será antecipada, e o Brasil vai crescer com maior vigor”, disse.
“Eliminando os ruídos do momento, que são fortes e às vezes nos desanimam, o Brasil está em boas condições de dar um salto de qualidade. A política é que vai dizer se vamos aproveitar essa janela ou se vamos praticar o esporte nacional predileto, que é o de perder as chances que se abrem. Se não vier com populismo e radicalismo, o Brasil tem jeito”, concluiu ao final de sua apresentação.

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O desafio da esquerda
Já na fase de perguntas, Sergio Fausto, diretor-geral da Fundação FHC, apresentou uma questão da cientista política Marta Arretche enviada por escrito: “No começo do atual mandato, o presidente Lula prometeu construir um país que combinasse justiça e bem-estar social com crescimento econômico e desenvolvimento sustentável. O governo tem aspectos positivos e negativos, mas parece que esse sonho perde energia. Por que o campo progressista está tendo dificuldade de articular o sonho de um futuro melhor?”
Na resposta, Haddad afirmou que a esquerda enfrenta hoje dificuldades para formular um horizonte mobilizador. “A esquerda quer transformar a realidade, e isso é mais desafiador do que assumir uma posição conservadora ou mesmo reacionária. Porque é fácil defender um passado ilusório, que não existiu. Quando alguém diz ‘bons tempos quando’, em geral é uma mentira”, afirmou.
Segundo ele, os grandes modelos políticos e econômicos que inspiraram projetos de transformação social ao longo do século 20 perderam capacidade de mobilização. “Aquilo que despertava muita esperança para a esquerda — seja o comunismo, a social-democracia ou o nacional-desenvolvimentismo — foi colocado em xeque no final do século 20. Essas experiências perderam tração do ponto de vista da imaginação utópica.”
Para Haddad, parte da esquerda também incorporou a ideia de que não haveria mais alternativas estruturais ao modelo consolidado após a Guerra Fria. “Caímos um pouco na ladainha do fim da história. Teve muita gente que ficou viúva daquelas ideias e modelos”, disse, em referência à tese do cientista político norte-americano Francis Fukuyama, segundo a qual, após o colapso da União Soviética, em 1991, a democracia liberal e a economia de mercado teriam se consolidado como horizonte final das sociedades contemporâneas.
O medo restringe a capacidade de ambição. Se não enfrentarmos o espantalho do futuro, não vamos sair do lugar. Não podemos ter receio de disputar o futuro com a extrema direita.
Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda
O ex-ministro avaliou ainda que a ascensão da extrema direita em vários países produziu um ambiente político defensivo, que dificulta a formulação de agendas mais ambiciosas. “Se o futuro é ameaçador, isso faz com que a esquerda muitas vezes prefira fincar posição para manter o que já tem. Por isso, alguns dizem: ‘Se ficar assim, está bom, porque pode piorar’.”
Na avaliação dele, há hoje duas forças principais restringindo a capacidade de imaginação política do campo progressista: o fim das utopias do século 20 e o medo do que pode vir pela frente. “O medo restringe a capacidade de ambição. Se não enfrentarmos o espantalho do futuro, não vamos sair do lugar. Não podemos ter receio de disputar o futuro com a extrema direita”, afirmou.
Haddad também associou esse ambiente à deterioração do debate público e ao avanço de forças políticas que, segundo ele, colocam em risco consensos democráticos básicos. “Durante cerca de 30 anos, o Brasil teve forças políticas competitivas, mas que se reconheciam mutuamente como legítimas. Isso dava mais liberdade para formular projetos ambiciosos, porque havia a percepção de que, se um governo errasse, o país continuaria sendo dirigido por gente séria”, disse.
“A extrema direita atrapalha muito. Esse tipo de ameaça civilizacional nos inibe a pensar grande.”
Disputa por São Paulo
Questionado sobre sua pré-candidatura ao governo de São Paulo em 2026, Haddad afirmou que inicialmente resistiu à ideia porque estava concentrado no debate nacional. Segundo ele, o presidente Lula insistiu na necessidade de uma candidatura competitiva no estado.
“Eu estava com a cabeça no plano nacional e resisti um pouco a mudar a chave, mas o presidente insistiu que era preciso ter um candidato forte em São Paulo”, afirmou.
O ex-ministro disse ter encontrado um cenário mais problemático do que imaginava ao começar a estudar a atual administração estadual. “Não tinha expectativa de encontrar o quadro que encontrei. Vi muitos problemas que imaginei que já estivessem resolvidos ou encaminhados.”
Segundo Haddad, ele passou as primeiras semanas conversando com especialistas e ex-integrantes de diferentes governos paulistas para construir um diagnóstico mais amplo da atual situação do estado. “Conversei com gente da educação, da saúde, das finanças, da segurança pública e da infraestrutura. Procurei também pessoas que participaram dos governos Doria, Serra e Alckmin para entender o que está acontecendo em São Paulo.”
O ex-ministro afirmou que pretende fazer uma campanha baseada em diagnóstico técnico e debate programático. “Se vou criticar o governador Tarcísio de Freitas (candidato à reeleição), preciso saber exatamente o que dizer. Não vou criticar sem saber, porque isso não é do meu feitio.”
De acordo com Haddad, há insatisfação em relação a diferentes áreas da administração estadual: “Há grande insatisfação nas Polícias e Civil, no magistério e entre os prefeitos. Na segurança pública, por exemplo, foram feitas mudanças estruturais que vão dar trabalho para reverter.”
Ele afirmou ainda que pretende “qualificar o debate eleitoral” e discutir os problemas do estado em profundidade ao longo da campanha. “O cidadão é soberano para decidir, mas, enquanto estiver respirando, vou continuar lutando pelas causas que considero valorosas.”
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Meios e fins da política
Ao encerrar o encontro, o presidente da Fundação FHC, Celso Lafer, destacou o caráter conceitual e estratégico da exposição de Haddad, especialmente no que se refere à relação entre objetivos políticos e instrumentos de governo. “Foi uma reflexão aprofundada sobre os desafios do Brasil. Governar é escolher, e essas escolhas nunca são simples.”
Segundo Lafer, a apresentação evidenciou uma preocupação constante com a dimensão da justiça social e com a construção de políticas públicas orientadas por objetivos de longo prazo. “Chama atenção a dimensão de justiça que perpassa sua visão das políticas públicas. Você apresentou uma forma de correlacionar meios e fins”, concluiu.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.






