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Hidrogênio Verde: a descarbonização da Europa e o interesse do Brasil

/ Transmissão online - via Zoom


Com uma matriz 85% sustentável, o Brasil tem enorme potencial para ser um dos líderes da transição energética em curso no planeta e pode se tornar um grande exportador de hidrogênio verde, que até 2050 deverá responder por 20% de toda a energia consumida no mundo, gerando US$ 2,5 trilhões ao ano. “Hoje o Brasil é conhecido por ser um exportador de commodities baseadas na exploração do meio ambiente, como o minério de ferro e a soja. Mas o país tem tudo à mão para abraçar o hidrogênio verde e se tornar um destaque mundial no desenvolvimento dessa tecnologia que vai mudar o mundo”, disse Ansgar Pinkowski, gerente de Inovação e Sustentabilidade na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha no Rio de Janeiro, responsável pelo Projeto do Estudo de Mapeamento do Setor de Hidrogênio no Brasil.

A União Europeia e a Alemanha, em particular, apostam no hidrogênio verde para a descarbonização de suas economias e vêem no Brasil um fornecedor importante dessa commodity. Além de conhecer a posição alemã, o webinar tratou de discutir como o Brasil pode aproveitar o aumento da internacional pelo hidrogênio verde em seu benefício. Isso depende de políticas internas, mas também de regras claras na compra de hidrogênio verde por parte da Alemanha e outros países europeus interessados. Nas palavras de um dos participantes, exigirá transparência e racionalidade dos dois lados.

“Além de fundamental para que o Brasil cumpra as metas assumidas no Acordo de Paris (2015), o hidrogênio verde representa também uma oportunidade de desenvolvimento econômico e de reposicionamento geopolítico”, afirmou Paulo Alvarenga, CEO da Thyssenkrupp na América Latina e vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha.

“Com fontes de energia renovável que se completam — solar, eólica, biomassa e hidrelétrica —, o Brasil tem capacidade de rodar uma planta de eletrólise de forma sustentável 24 horas por dia, produzindo hidrogênio 100% verde. Agora, não adianta vender energia renovável para a Europa e depender de fontes não renováveis como as termelétricas para atender as necessidades energéticas internas. O objetivo é reduzir as emissões de carbono a nível global e a conta tem que fechar para todos”, explicou o professor da Coppe/UFRJ Jerson Kelman, ex-dirigente da ANA e da ANEEL.

“O Brasil deve almejar ser um exportador não apenas de hidrogênio verde, mas da tecnologia necessária para produzi-lo. Para atingir esse objetivo, é fundamental termos políticas públicas que fortaleçam toda essa nova cadeia tecnológica, incluindo a fabricação de eletrolisadores, a instalação de fábricas, o armazenamento e o transporte do produto de forma sustentável e segura”, disse Italo Freitas Filho, vice-presidente de Desenvolvimento de Novos Negócios da AES na América do Sul. 

Os quatro engenheiros participaram do webinar “Hidrogênio Verde: a descarbonização da Europa e o interesse do Brasil”, realizado pela Fundação FHC e pelo Consulado Geral da Alemanha em São Paulo. 

Segundo explica a BBC Brasil em reportagem de abril deste ano, o hidrogênio é o elemento químico mais abundante do universo e tem três vezes mais energia do que a gasolina. Mas, ao contrário dela, é uma fonte de energia limpa, uma vez que só libera água (H2O), na forma de vapor, e não produz dióxido de carbono (CO2). Na Terra, o hidrogênio está presente na água, junto ao oxigênio, e se combina com o carbono para formar hidrocarbonetos, como gás, carvão e petróleo. Para ser usado como combustível, precisa ser separado dos outros elementos. Até agora, os hidrocarbonetos eram usados ​​para gerar essa energia, poluindo o meio ambiente ao liberar CO2. Há alguns anos, o hidrogênio começou a ser produzido a partir de energias renováveis, ​​como solar e eólica, por meio de um processo chamado eletrólise. O resultado é o chamado hidrogênio verde, que é 100% sustentável, mas mais caro de se produzir. Muitos acreditam que ele pode oferecer uma solução ecológica para algumas das indústrias mais poluentes, incluindo a de transportes, química, siderúrgica e de geração de energia.

           ‘Não há plano B para o planeta T’

“Ao firmar o Acordo de Paris no final de 2015, a maioria dos países se comprometeu com a meta de estancar o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius. Isso só pode ser alcançado se mudarmos radicalmente nossa forma de produção e consumo de energia. Não é mais possível buscar fontes energéticas no fundo da terra ou do mar, utilizar petróleo, gás e carvão para suprir nossas necessidades energéticas e lançar gás carbônico, subproduto desse consumo, na atmosfera. O hidrogênio verde, obtido por meio da separação do hidrogênio do oxigênio a partir da água, é o caminho para fazer essa transição energética fundamental”, disse Pinkowski. (Veja como foi o debate “Mudança Climática: Paris foi um divisor de águas?”, realizado na sede Fundação em São Paulo em fevereiro de 2016).

“Não há plano B para o planeta Terra”, concordou Alvarenga. Segundo o executivo brasileiro, apenas para substituir o hidrogênio cinza hoje produzido no mundo a partir de hidrocarbonetos (96% do mercado) pelo hidrogênio verde, seria preciso instalar 800 gigawatts de capacidade de eletrólise (separação do hidrogênio do oxigênio a partir da água). Como medida de comparação, todo o parque energético brasileiro tem hoje cerca de 200 gigawatts de capacidade de produção, incluindo as diversas matrizes energéticas disponíveis no país. “A Thyssenkrupp, uma das empresas líderes mundiais nessa nova tecnologia, tem hoje apenas 10 gigawatts de capacidade instalada para produzir hidrogênio verde. Até 2050 pretendemos ter 3.300 gigawatts para garantir energia sustentável para nossos clientes. É um mercado com um potencial gigantesco”, afirmou.         

         Alemanha sai na frente ao financiar a transição

A Alemanha, principal economia europeia e a quarta maior do mundo, destinou 9 bilhões de euros para elevar significativamente a participação do hidrogênio verde no fornecimento de energia nos próximos anos. Desse total, 2 bilhões de euros devem ser utilizados para estimular a transição em outros países. “O melhor que o governo alemão pode fazer para impulsionar esse novo mercado a nível global é realizar leilões internacionais para fornecimento de hidrogênio verde a longo prazo. Os países que fizerem as propostas mais vantajosas levam o contrato. Não há dúvida de que seria uma grande oportunidade para o Brasil, mas não só para nós”, disse Kelman. 

“A Alemanha criou uma fundação cuja missão será justamente gerar competição entre os países por meio da realização de leilões de energia limpa”, explicou Pinkowski, segundo o qual os 2 bilhões de euros serão usados para amortizar a diferença de custo do hidrogênio verde (produzido a partir da água) e do hidrogênio cinza (a partir de combustíveis fósseis) na fase de transição. “Não investiremos diretamente em fábricas, mas buscaremos incentivar a eficiência da produção mundo afora com o objetivo de acelerar a necessária mudança energética”, explicou Pinkowski.

“O Brasil tem tudo para se beneficiar dessa grande oportunidade. Mas não pode cometer erros do passado, como quando desperdiçou o potencial de exportação de etanol para a Europa”, disse  Alvarenga.

“O Brasil tem tudo para se beneficiar dessa grande oportunidade. Mas não pode cometer erros do passado, como quando desperdiçou o potencial de exportação de etanol para a Europa”, disse Alvarenga, depois de listar as razões pelas quais acredita no potencial do Brasil como fornecedor de hidrogênio verde:  ser uma importante economia do mundo democrático, com um sistema regulatório que demanda melhorias mas é um bom ponto de partida; por possuir enorme potencial de geração de energia renovável, sobretudo no Nordeste, cuja costa está próxima da Europa; ter um importante mercado consumidor interno que pode ajudar a alavancar a produção e o consumo de hidrogênio verde.

Para Freitas Filho, o custo de produção de energia renovável, sobretudo da eólica e da solar, vem caindo a cada ano e essa redução está prestes a chegar à eletrólise: “A AES vê o hidrogênio verde como um grande desafio, pois toda a cadeia de suprimentos, produção e distribuição precisa ser ajustada para que esse combustível verde se torne uma realidade e chegue no volume necessário e com preço competitivo ao consumidor final.”

“Vivemos o início de uma revolução energética e o Brasil, por ter sol, vento e água abundantes, está em uma situação privilegiada. Também é possível usar biomassa, como o etanol, para produzir hidrogênio verde, mas isso só é sustentável se não prejudicar o cultivo de alimentos e não resultar em aumento da área plantada em biomas ameaçados como a Amazônia e o Cerrado”, disse Pinkowski. Outro ponto de atenção é o transporte do hidrogênio verde, que, se for realizado em navios movidos a hidrocarboneto, acaba contribuindo para a poluição atmosférica.

       Diferentes tons de verde

“No processo de produção do hidrogênio verde, existem diferentes tons de verde. Quais desses tons são aceitáveis e quais não são? Precisaremos de um pacto de racionalidade e de muita transparência para termos êxito nessa transição”, disse Kelman. O ex-presidente da Sabesp também alertou para o fato de a produção de hidrogênio verde exigir muita água, o que é um desafio mesmo em um país com recursos hídricos abundantes como o Brasil. “Não é um problema insolúvel, mas que exige atenção”, disse.

“O ideal é que o hidrogênio verde seja livre de pegada de carbono do começo ao fim da cadeia de produção, distribuição e consumo. Sabemos, no entanto, que o amadurecimento das diversas tecnologias necessárias leva um tempo. É o caso, por exemplo, dos navios movidos a amônia verde, que ainda levarão um tempo para se tornar realidade. A Alemanha usará sua força econômica e tecnológica para viabilizar isso”, disse Pinkowski.

“Quem são os potenciais competidores do Brasil neste novo mercado de hidrogênio verde?”, perguntou Sergio Fausto, diretor da Fundação FHC e moderador do evento. “Os países que têm mais potencial são aqueles com boa capacidade de produzir energia solar e eólica e que têm acesso mais fácil aos principais centros de maior consumo energético. O Brasil e a Colômbia, por exemplo, podem se beneficiar da venda de  hidrogênio verde para o mercado europeu, que está logo ali do outro lado do Atlântico. No Pacífico, o Chile e a Austrália têm facilidade de acessar o mercado asiático, em especial a China, o Japão e a Coreia do Sul. Argentina, Marrocos e Arábia Saudita também têm potencial de aproveitar esse novo mercado”, respondeu Italo Freitas Filho.

“Vamos precisar de todos os países em condições de participar e de todas as tecnologias possíveis para desenvolver esse mercado na velocidade e no volume necessários. A competição é positiva para maximizar os resultados, não para excluir nenhum potencial produtor”, concluiu Alvarenga.

       Saiba mais:

Veja como foi o debate “Desafios e oportunidades para as energias renováveis no Brasil”, realizado em novembro de 2019 na sede da Fundação FHC em São Paulo.

Assista o trailer do documentário Amazônia Sociedade Anônima, de Estevão Ciavatta, que acaba de receber o prêmio One World Media Awards na categoria Impacto Ambiental.

Conheça 10 podcasts brasileiros sobre temas ambientais. 

 

       Leia também:

Mudanças na lei de licenciamento ambiental: é preciso aprofundar o debate

O mundo de olho na Amazônia: desafios e oportunidades para o Brasil

O papel do setor privado na transição para uma economia de baixo carbono

 

Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. 

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