O contexto global e os desafios à defesa nacional
Em um cenário internacional marcado por conflitos, tensões geopolíticas e disputas tecnológicas, o webinar analisou por que a defesa nacional deve ocupar lugar central na agenda estratégica do Brasil.
A formação de uma base industrial ligada à defesa nacional precisa ser incorporada com urgência ao debate de uma agenda de desenvolvimento do país, com objetivos estratégicos claros e bem definidos de médio e longo prazo. O mundo vive uma nova fase de instabilidades e incertezas, que não é passageira e exige a superação de graves deficiências nesta área, tanto em termos de modernização e capacitação estratégica e tecnológica das Forças Armadas (FA), quanto em áreas como logística e segurança cibernética. Estas foram as conclusões deste webinar realizado pela Fundação FHC, que reuniu dois militares da reserva e um pesquisador especialista em assuntos de defesa.
“O primeiro desafio é a definição de uma grande estratégia para orientar o Ministério da Defesa e as Forças Armadas neste novo momento do mundo. Vivemos um período instável e perigoso em que o poder do mais forte voltou a ser a moeda das relações internacionais. As grandes potências, que deveriam ser os pilares da ordem internacional, são hoje agentes da corrosão dessa ordem. Por outro lado, temos a inação do Conselho de Segurança da ONU e a crise do multilateralismo”, disse o Almirante Dr. Antônio Ruy de Almeida Silva, ex-diretor da Escola de Guerra Naval e ex-pró-reitor de Pesquisa e Pós‑Graduação da Escola Superior de Guerra.
Ele se referiu aos EUA como “a potência hegemônica em lentíssima decadência”, e à Rússia como uma “potência média, mas com grande capacidade nuclear, que busca recuperar sua hegemonia na antiga zona de influência da União Soviética”. A China foi descrita como “potência econômica e militar emergente, com atuação militar restrita ao Leste da Ásia (ao menos por enquanto).”
“Quais são as principais ameaças, como o país planeja enfrentá-las, qual o nível de segurança, autonomia e independência que a sociedade brasileira deseja?”, perguntou o almirante Ruy.
Membro do Grupo de Avaliação da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (GACINT/USP), ele destacou que os Estados Unidos da América — de acordo com a nova Estratégia de Segurança Nacional definida pelo presidente Donald Trump em seu segundo mandato (iniciado em janeiro de 2025) — consideram que têm o direito de intervir, inclusive militarmente, para defender seus interesses na América Latina e têm lançado mão de uma “diplomacia coercitiva” para pressionar os países da região.
“As Forças Armadas do Brasil precisam estar preparadas para reagir rapidamente a uma tentativa de intervenção militar”, disse.
Já o engenheiro Eduardo Siqueira Brick, professor titular aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e Competitividade Industrial (UFFDEFESA), listou três desafios: a modernização e a capacitação estratégica e tecnológica das Forças Armadas; a interoperabilidade das FA — com Marinha, Exército e Aeronáutica conversando em tempo real através de sistemas compatíveis e de forma coordenada com a diplomacia e os setores de inteligência — e a criação de uma forte base industrial de defesa.
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Segurança cibernética: a vulnerabilidade do agronegócio
A segurança cibernética brasileira é caracterizada pela imaturidade técnica e pela falta de profissionais. “Estamos com a matéria atrasada”, disse o Coronel José Ricardo Souza Camelo, ex-subchefe do Centro de Defesa Cibernética do Exército (CDCiber).
“Não há consciência de quão vulneráveis somos em áreas cruciais como o agronegócio. Um ataque cibernético contra infraestruturas críticas paralisaria drones, equipamentos inteligentes e a logística de escoamento em portos e ferrovias. Não teríamos como reagir e os prejuízos econômicos seriam imediatos”, exemplificou Camelo. Ele defendeu que o aporte de R$3 bilhões anuais previstos para a área cibernética deve focar no desenvolvimento de IA soberana para proteger energia e produção nacional.
‘O Brasil já teve a ambição de ter uma indústria de defesa nacional, mas a abandonou’
“Qual a capacidade atual da indústria nacional de defesa para produzir equipamentos, armamentos e munições cruciais para os desafios estratégicos do país?”, perguntou Brick. “Esta capacidade está muito aquém das necessidades mínimas de um país do tamanho do Brasil, rico em recursos naturais estratégicos. Ela já foi maior nos anos 1970/80, durante o regime militar, mas tem decrescido nas últimas quatro décadas. E não há ação concreta para mudar esse quadro”, disse.
“Sem um razoável grau de autonomia industrial e tecnológica, é difícil ter capacidade militar e saber como empregá-la”, alertou o pesquisador, que é membro do Conselho Consultivo do Centro de Defesa e Segurança Nacional (CEDESEN). Segundo Brick, além da capacidade operacional de combate, é essencial desenvolver uma capacidade logística de defesa baseada em ciência e tecnologia próprias.
“Uma base industrial de defesa estratégica não brota do nada, e o acesso a tecnologias críticas para a defesa do nosso espaço aéreo, marítimo e territorial é controlado no mercado internacional. A criação desta base exige esforço coletivo do governo, do setor privado e da sociedade por várias décadas. Um Brasil democrático pode e deve priorizar isso”, afirmou. Brick propôs a criação de um órgão composto por especialistas para cuidar da logística de Defesa, subordinado ao Ministério da Defesa, mas independente das três forças.
“Diante de um quadro de limitação de recursos orçamentários, qual deveria ser o orçamento de Defesa, em termos de percentual do PIB?”, perguntou Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC e mediador do debate.
“No Brasil, o gasto atual gira em torno de 1,1%, mas o piso mínimo para garantir autonomia seria de 2% do PIB, com 30% a 50% destinado a investimentos de forma sustentada”, respondeu Brick. “Quando o orçamento militar é reduzido, os investimentos são imediatamente prejudicados, pois os gastos com pessoal são inelásticos.”
Segundo dados de órgãos oficiais do Executivo e do Legislativo, com o Ministério do Planejamento e Orçamento e o Portal da Transparência, assim como do Tribunal de Contas da União (TCU), os gastos com pessoal (ativa, inativos e pensões) em 2025-26 consomem cerca de 78% a 86% do orçamento do Ministério da Defesa (estimado em R$ 142,6 bilhões). Restam apenas cerca de 13% a 15% para compra de equipamentos, manutenção e P&D.
Para mitigar a falta de recursos para investimentos, o Congresso Nacional aprovou em outubro de 2025 um regime especial de financiamento no escopo do PAC Militar, proposto pelo governo federal e pelo Ministério da Defesa. Esse aporte de R$ 5 bilhões anuais até 2031 funciona como um “piso blindado”, garantindo a continuidade de programas como o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) e o SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), preservando-os das restrições e contingenciamentos regulares do Arcabouço Fiscal.
Como exemplo de um projeto abandonado, Brick citou a Engesa, que faliu em 1993 sob uma dívida de aproximadamente US$ 600 milhões — dados baseados no passivo total declarado no processo de falência da Engesa (1993) e em estudos de economia da defesa do Laboratório de Logística de Defesa da Universidade Federal Fluminense.
“A Engesa era uma empresa 100% nacional que fabricava blindados que se tornaram ícones da indústria de defesa brasileira, como o Cascavel e o Urutu, exportados para todo o mundo. O país permitiu sua falência sob uma dívida que poderia ter sido equacionada, em função de sua importância estratégica. Atualmente, temos o projeto de veículos blindados Guarani, cujo contrato chega a US$ 4 bilhões e, embora necessário, tem a desvantagem de ser controlado por uma empresa estrangeira (a italiana Iveco). Como os componentes críticos do Guarani são importados, o Brasil sofre vetos internacionais, como o bloqueio da Alemanha à nossa exportação para as Filipinas, ocorrido recentemente”, criticou.
Até o início de 2026, cerca de 750 unidades do Guarani foram entregues, de um total previsto de 2044.
Saiba mais:
Baixe gratuitamente o livro “O Brasil diante das turbulências internacionais”, publicado pela Fundação FHC em 2025.
Leia o artigo “América Latina, o Alinhamento Não-Ativo e a disputa entre EUA e China”, da coleção Conexão América Latina.
O primeiro desafio é a definição de uma grande estratégia para orientar o Ministério da Defesa e as Forças Armadas neste novo momento do mundo. Vivemos um período instável e perigoso em que o poder do mais forte voltou a ser a moeda das relações internacionais. As grandes potências, que deveriam ser os pilares da ordem internacional, são hoje agentes da corrosão dessa ordem.
Almirante Dr. Antônio Ruy de Almeida Silva
Parcerias estratégicas e o futuro tecnológico
Além do PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), parceria com a França iniciada em 2008, e do projeto dos caças F-39 Gripen, com a Suécia, os especialistas destacaram a urgência de o Brasil estruturar um sistema de defesa antiaérea em camadas, que garanta a soberania do espaço aéreo.
Esse modelo de “defesa em profundidade” utiliza diferentes tecnologias para interceptar ameaças em variadas altitudes: a baixa altitude (até 3 km) para proteção imediata de tropas contra drones e helicópteros; a média altitude (até 15 km), onde o país possui uma lacuna histórica a ser preenchida; e a alta altitude, para a proteção estratégica de grandes centros urbanos e infraestruturas críticas contra mísseis de longo alcance e bombardeiros. Sem a integração dessas camadas, o país permanece vulnerável a ataques.
Segundo o almirante Ruy, o PROSUB — que prevê a construção de quatro submarinos convencionais e o primeiro submarino nuclear brasileiro — é fundamental para proteger a Amazônia Azul, nome dado à Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil, uma área oceânica de aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados (quase o tamanho da nossa Amazônia terrestre). “O submarino nuclear garantirá a capacidade real de dissuasão em águas profundas, mas, para proteger toda a extensão da Amazônia Azul, precisaríamos de pelo menos três unidades, o que exigiria ainda mais investimentos”, disse.
“O PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) nasceu de uma parceria de transferência de tecnologia firmada com a França em 2008, envolvendo a empresa estatal francesa Naval Group. Orçado em R$ 40 bilhões — valor total estimado para o ciclo de vida do programa (2008-2034), conforme dados do Ministério da Defesa e relatórios de acompanhamento do TCU —, o programa já concluiu a fase de construção dos seus quatro submarinos convencionais da Classe Riachuelo, com as últimas unidades em fase final de testes e incorporação à Marinha até o início de 2026. Agora, o foco total volta-se para o primeiro submarino de propulsão nuclear brasileiro, o Álvaro Alberto, cuja conclusão é prevista para a década de 2030.”
Já o programa Gripen, com 36 unidades contratadas, foi citado como exemplo de sucesso na transferência de tecnologia sueca para a Embraer, permitindo ao Brasil deter o conhecimento da aviação supersônica.
O almirante Ruy defendeu a diversificação de parcerias, citando a Europa (França, Alemanha e Suécia), a Índia e a cooperação no Atlântico Sul com a África, evitando alinhamentos formais automáticos.
“Um país não tem amigos ou inimigos eternos. O fundamental é ter foco e vontade férrea para resolvermos nossos próprios problemas”, concluiu Eduardo Brick.
Encerrando o debate, Sergio Fausto enfatizou que, embora o Brasil tenha avançado nas últimas décadas em áreas como estabilização e modernização da economia e diminuição da desigualdade social, o país falhou em manter e atualizar uma base industrial mínima de defesa.
“Nos últimos 40 anos de sucessivos governos democráticos, houve conquistas fundamentais como o Plano Real, sem o qual não poderíamos planejar investimentos a longo prazo, e políticas sociais como Bolsa Família e SUS, entre outras. Falhamos, no entanto, em incorporar o desenvolvimento de uma base industrial de defesa ao centro da agenda de desenvolvimento do país. É urgente uma concertação nacional para estabelecer objetivos de longo prazo nesta área, superando as divisões políticas de curto prazo que hoje consomem o país”, finalizou o diretor da Fundação FHC.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.