Debates
28 de julho de 2026

O Brasil frente ao alinhamento dos países vizinhos a Trump

Neste webinar, conversamos com o jornalista norte-americano Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, e a cientista política Marianna Albuquerque, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

O Brasil tem capacidade diplomática, política e econômica para navegar com relativa autonomia em um contexto regional e internacional polarizado e volátil, mas o desafio é grande porque a América Latina em geral e a América do Sul em particular se tornaram palco da disputa entre Estados Unidos e China e a liderança brasileira em sua vizinhança não é inquestionável, sobretudo quando predominam governos com diferentes posições políticas. 

Esta foi a principal conclusão deste webinar que reuniu o jornalista norte-americano Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, e a cientista política Marianna Albuquerque, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

“A maior vantagem de um país no século 21 não é ter aliados permanentes e, sim, preservar sua capacidade de construir diferentes parcerias. Isso o Brasil historicamente tem. É aí que podemos brilhar: não precisamos escolher um lado, mas continuar provando nossa relevância e autonomia para diferentes lados de uma ordem internacional fragmentada”, disse Marianna Albuquerque, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID-UFRJ).

“Há 25 anos estudo o Brasil e a América Latina e nunca vi um clima tão difícil e polarizado como nas Américas hoje, incluindo meu país, os Estados Unidos. A América do Sul, especificamente, é uma região livre de guerras entre Estados, mas há um esfriamento das relações bilaterais e regionais, e isso tem um custo. Não é só o constrangimento entre governos ideologicamente diferentes, mas a falta de comércio, de investimentos em infraestrutura, de coordenação nas áreas de segurança e de combate ao crime organizado”, disse Brian Winter, vice-presidente de Políticas da Americas Society e do Council of the Americas.

A grande maioria dos países sul-americanos tem hoje governos alinhados a Donald Trump. A principal exceção é o Brasil, país que os EUA veem como a última peça que falta para fechar o mapa de “governos amigos” na região. Esse quadro afetará as eleições de outubro? Os EUA buscarão interferir no processo eleitoral brasileiro? Como o resultado eleitoral afetará as relações bilaterais e regionais no próximo mandato presidencial?

Estas foram as perguntas feitas aos dois convidados, que responderam com perspectivas bem diferentes.

Alinhamento ideológico conjuntural não significa reposicionamento estratégico a longo prazo

“Quando perguntamos como o Brasil deve reagir a um alinhamento da maioria dos vizinhos sul-americanos a Donald Trump, corremos o risco de reduzir uma transformação estrutural da política internacional a uma questão regional conjuntural, de caráter político-eleitoral”, argumentou Marianna no início de sua apresentação.

Para a cientista política, um eventual alinhamento político de diversos países sul-americanos com Washington não significa necessariamente um reposicionamento estratégico completo da região. “A rivalidade estratégica entre EUA e China deixou de ser predominantemente comercial e passou a incluir outras dimensões como infraestrutura, tecnologia, minerais críticos, energia, inteligência artificial, segurança alimentar e cadeias produtivas. Neste contexto, a América do Sul deixa de ser uma região relativamente periférica e volta a ser um espaço importante de competição estratégica entre as duas superpotências”, explicou.

Segundo Marianna, mesmo que os líderes de direita sul-americanos adotem um discurso de maior alinhamento ao presidente norte-americano, a economia internacional não acompanha automaticamente as mudanças de governo. Existe uma inércia nos fluxos comerciais, nas cadeias produtivas e nos investimentos em infraestrutura e na atividade produtiva, que não se reorganizam em cada ciclo eleitoral.

“Vivemos em um mundo de sobreposição de parcerias porque os países cooperam com diferentes parceiros em diferentes áreas como comércio, tecnologia, segurança e financiamento, de acordo com seus interesses e necessidades. A meu ver, a pergunta não é tanto quem está alinhado com quem, mas quem tem margem para escolher seus alinhamentos em cada um desses nichos?”, disse.

É aí que o Brasil tem um ativo raro, que é uma vantagem comparativa em relação a nossos vizinhos: chegamos a esse cenário com um patrimônio diplomático sólido, construído ao longo de décadas: “Não estou falando apenas do Itamaraty, mas de uma capacidade institucional de participar com protagonismo de múltiplos espaços de governança internacional como a ONU, o G20, o Brics, o Mercosul e as COPs do clima e da biodiversidade, entre outros. E o país ainda lidera coalizões no Sul Global, tem um bom diálogo estratégico com a Europa, uma profunda parceria com a China e uma aproximação crescente com a Índia.”

“Essa diversidade de conexões não deve ser vista como uma contradição, mas como uma fonte de poder diplomático para o Brasil. Resumindo: os países capazes de negociar com múltiplos atores tendem a ter a sua capacidade de negociação ampliada, e a crescente fragmentação da ordem internacional aumenta o valor estratégico da autonomia brasileira”, afirmou.

Segundo Marianna, em momentos de elevada polarização regional ou internacional, como a que estamos vivendo, existe a tentação de reduzir a política externa a uma lógica de alinhamentos entre Washington e Pequim, Norte e Sul, Ocidente e Oriente. “A diplomacia brasileira é exemplo de que estas são falsas escolhas. O Brasil nunca construiu sua influência internacional como um país de alinhamento automático. Historicamente, os momentos de maior projeção internacional do Brasil coincidiram com momentos em que o país conseguiu ampliar suas opções de política externa e não reduzi-las”, disse.

A palestrante concluiu formulando duas perguntas que o Brasil tem diante de si: Como preservar sua capacidade de decisão nesse mundo que se tornou estruturalmente mais competitivo? Como ampliar sua capacidade de dialogar com diferentes polos sem comprometer sua autonomia decisória?

“Independentemente de quem seja o próximo presidente da República, não precisamos e não devemos nos alinhar automaticamente a quem quer que seja”, concluiu.

Brasil é o prêmio que os EUA e a nova direita latino-americana mais desejam

“Estamos vendo uma onda clara à direita na América Latina, onde candidatos de centro-direita ou de direita venceram doze das últimas quinze eleições presidenciais. Para Trump e a nova direita latino-americana, a grande esperança é o Brasil também virar à direita nas eleições deste ano. Afinal, é o maior e mais importante país da região e o último a realizar eleições neste ciclo eleitoral que começou em 2025”, disse Brian.

“Se o Brasil optar em outubro por eleger um presidente de direita haverá um maior alinhamento com os vizinhos e com Trump, o que pode produzir oportunidades concretas. Mas, se Lula for reeleito, como evitar um maior desgaste com os governos vizinhos que pensam diferente?”, perguntou o jornalista.

“Penso em três coisas: evitar a exacerbação, mesmo diante de provocações até rudes; jogar com sinceridade e pragmatismo em relação ao combate ao crime organizado, tema comum à maioria dos países sul-americanos, reforçando a cooperação nas áreas de inteligência e as ações de segurança coordenadas; e diversificar as parcerias. 

“A polarização político-ideológica não é culpa apenas da extrema direita ou da nova direita. Já ocorreu em outros momentos em que governos de esquerda eram majoritários na América do Sul. A novidade é que as regras de respeitar quem pensa diferente e não intervir abertamente nos processos políticos dos países vizinhos vêm sendo esquecidas nos últimos dez anos. E não há dúvida de que o presidente Donald Trump contribui bastante para criar esse clima”, disse.

“Os temas da segurança regional e do combate ao crime organizado e ao narcotráfico passaram a ser centrais para os EUA no segundo mandato de Trump. Recentemente, o governo Trump classificou o PCC como uma organização terrorista, o que abriria caminho para uma ação das forças especiais norte-americanas em território brasileiro. Existe esse risco? Como você vê essa situação?”, perguntou o cientista político Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC, a Brian Winter. 

“Até pouco tempo parecia que intervenções dos EUA na América Latina eram coisa do passado. Mas agora, com Trump abraçando a Doutrina Monroe, voltamos a um cenário de consequências imprevisíveis. O interesse de Trump na região é baseado na percepção de que ela é fundamental para sua política doméstica em duas áreas: redução do fluxo migratório ilegal e do contrabando de drogas para os EUA. Também tem a questão do acesso a petróleo, como mostra o caso venezuelano, e aos minerais críticos. Estas são as áreas que demandam maior atenção por parte dos líderes latino-americanos”, explicou.

“Dito isso, não creio que haja uma ação militar no Brasil (incursão de forças especiais americanas para combate ao crime organizado). Por um motivo pragmático: tem outros países da América Latina que estão na frente da fila de Trump. Entre os que podem sofrer uma tentativa de mudança de regime, Cuba está em primeiro lugar. Vejo como muito provável a tentativa de Trump de intervir em Cuba para compensar a falta de resultados no Irã. Já no México existe uma possibilidade real de uma ação militar unilateral dos EUA contra os cartéis mexicanos”, continuou.

Mas Brian não descartou uma tentativa de Trump de interferir no processo eleitoral brasileiro, não somente durante a campanha, mas também ao não reconhecer uma possível vitória do presidente Lula. “Desde o ano passado, com o primeiro tarifaço e as medidas contra a Justiça brasileira, Trump já tenta influenciar o cenário político-eleitoral brasileiro. A primeira tentativa não foi muito bem-sucedida, mas agora tem este novo tarifaço, baseado supostamente em aspectos mais técnicos. E podem vir mais coisas”, alertou. 

“Existem pessoas dentro do governo Trump que desejam criar as condições para não reconhecer o resultado eleitoral no Brasil. Como também há pessoas que estão preocupadas com as relações de longo prazo com o país. Precisamos ver qual será o grau de pragmatismo de Trump. Qual grupo ele vai ouvir? O fato é que a falta de compreensão sobre o  Brasil em Washington hoje não tem limites”, respondeu. 

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Índia e Brasil podem ser parceiros cada vez mais relevantes

“Que parcerias deveriam ser prioritárias na relação do Brasil com outros países, sobretudo a Índia?”, perguntou Fausto a Marianna Albuquerque.

“O setor para o qual o Brasil vai ter que olhar com muita atenção, independentemente de qual seja o próximo governo, é o da transição energética. O Brasil tem uma posição dual, por ser um importante produtor de petróleo e, ao mesmo tempo, ser líder em energias renováveis e nas discussões sobre a crise climática. Como lidar com a exploração do petróleo, que é um ativo importante para o Brasil, mas também consolidar sua liderança na oferta de energias renováveis e no enfrentamento das mudanças do clima? Fazer esse equilíbrio será um desafio para o país”, disse a professora.

“Quanto à Índia, o governo Narendra Modi tem como meta fazer do país a terceira maior economia do mundo. Para atingir esse objetivo, o país asiático, ainda dependente do carvão, vai precisar de fontes de energia, tanto petróleo e derivados como renováveis. Os principais fornecedores de petróleo da Índia são hoje a Rússia e os países do Golfo Pérsico, envolvidos em guerras. A China ocupa posição central no fornecimento de equipamentos para a transição energética, como painéis solares e baterias, mas as relações estratégicas entre Nova Délhi e Pequim permanecem marcadas por tensões. Nesse contexto desconfortável e incerto, o Brasil surge como um parceiro capaz de oferecer recursos energéticos, tanto petróleo quanto fontes renováveis, além de estabelecer novas formas de cooperação com os indianos.”

Segundo a professora, Nova Délhi e Brasília também têm visões semelhantes sobre a governança e a regulação do espaço digital e querem garantir que empresas nacionais tenham maior participação nos mercados ligados às novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial, dentro de seus respectivos territórios.

“Tanto o Brasil como a Índia defendem que as plataformas digitais e as grandes empresas de tecnologia devem estar submetidas às legislações dos respectivos países, e que a regulação não reflita apenas os interesses das Big Techs. Existe uma convergência entre Índia, Brasil e a União Europeia no que diz respeito à regulação do espaço digital”, disse.

Por sua vez, Brian abordou o tema da regulação digital a partir de uma pergunta sobre o Pix. “Por que o governo Trump incluiu o Pix como uma das razões para as recentes sanções impostas ao Brasil? Os EUA sabem que o Pix é intocável no país. Creio que a intenção é impedir ou dificultar a adoção do Pix ou de um sistema parecido em outros países latino-americanos ou mesmo da África e do Oriente Médio. Acontece algo parecido com as grandes empresas de tecnologia. Elas reconhecem que, se o Brasil tiver sucesso em regular as plataformas, isso pode ser seguido por outros países em desenvolvimento. Daí a ênfase da Casa Branca nesse tema. É um sinal da importância do Brasil”, disse Brian Winter.



Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.   

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