Entre Lula e o bolsonarismo: o voto evangélico em 2026
Em webinário da Fundação FHC, especialistas refutam a homogeneidade do eleitorado evangélico e descartam que seu voto seja determinado apenas por orientações das lideranças religiosas
A visão corrente de que o chamado “voto evangélico” é determinado de cima para baixo por líderes religiosos influentes — com presença na televisão, no rádio e, mais recentemente, nas redes sociais — encontra pouco respaldo na evidência empírica. Especialistas destacam que o comportamento eleitoral desse segmento é mais complexo, marcado por interações horizontais e por uma dinâmica interna que desafia explicações simplificadoras.
“A ideia de que o voto depende de acordos firmados entre pastores e políticos, como se as decisões viessem apenas de cima para baixo, não corresponde ao que se observa na prática”, disse a cientista política Ana Carolina Evangelista, diretora executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER), durante webinar realizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso, em 1º de abril. “Costumo dizer que as igrejas evangélicas funcionam como grupos focais permanentes: as pessoas conversam, divergem, trocam opiniões, e as lideranças também reagem às demandas e percepções que circulam entre os próprios fiéis.”
Para o historiador e antropólogo Juliano Spyer, essa leitura é mais consistente do que a imagem de um eleitorado passivamente orientado por lideranças religiosas: “Muitas vezes o debate público se concentra em pastores que aparecem na televisão ou nas redes sociais, mas uma parte expressiva da expansão evangélica no Brasil ocorre nas chamadas ‘igrejas de porta de garagem’, muito presentes nas periferias urbanas. Nesses espaços, que reúnem de 50 a 200 fiéis e frequentemente não estão subordinados às grandes denominações, o pastor tende a refletir o sentimento compartilhado pela comunidade, mais do que simplesmente impor suas preferências.”
Segundo os pesquisadores, os evangélicos — que representam cerca de 30% da população brasileira e proporção semelhante do eleitorado — não constituem um grupo homogêneo, seja em suas visões de mundo, seja em suas inclinações políticas e ideológicas. A relação desse segmento com a política tampouco é estática. Ao contrário, vem se transformando nas últimas quatro décadas e ainda demanda investigação mais aprofundada, por meio de pesquisas quantitativas e qualitativas.
“Poucas coisas são menos precisas do que falar em ‘voto evangélico’ como se fosse um bloco homogêneo. O Brasil é um país muito diverso e há presenças evangélicas em todo o território, com realidades sociais distintas, além de origens, histórias, ritos e tradições variadas”, disse Juliano Spyer, autor dos livros “Crentes” (Record) e “Povo de Deus” (Geração).
“Ainda há pouca informação disponível sobre recortes demográficos – como raça, renda, gênero e região — dentro da população evangélica nas amostras utilizadas em pesquisas eleitorais. Daí a importância de estudos quantitativos mais detalhados, que examinem de forma mais precisa o perfil religioso brasileiro e sua relação com a política, como a pesquisa que o Instituto de Estudos da Religião (ISER) deve divulgar em breve”, disse Evangelista.
“Como foi mencionado, não se trata de um quadro homogêneo nem estático, mas de um fenômeno dinâmico e complexo. Por outro lado, é inegável que temas ligados à sexualidade e à saúde reprodutiva, entre outros, mobilizam o eleitorado e criam clivagens relevantes na sociedade brasileira. Trata-se de um fenômeno que merece ser acompanhado com atenção, sem prejulgamentos ou simplificações, dada sua importância política e sociológica”, afirmou o cientista político Sergio Fausto, diretor-geral da Fundação FHC.
Como os evangélicos se tornaram foco de mobilização política
Segundo Ana Carolina Evangelista, foi a partir dos anos 1990 que o Censo do IBGE começou a registrar um crescimento mais acelerado do segmento evangélico na população brasileira. “Naquela época, o ISER realizou uma pesquisa qualitativa na cidade e na região metropolitana do Rio de Janeiro e já identificou que esse público começava a ser visto como um eleitorado relevante por políticos e partidos, sobretudo em períodos eleitorais. Em 1994, aumentou o número de candidatos evangélicos eleitos para o Congresso e, nas eleições seguintes, esse movimento se aprofundou. A partir de então, diferentes partidos passaram a olhar para as igrejas evangélicas como espaços capazes de mobilizar eleitores”, explicou a pesquisadora, que se dedica ao estudo da atuação de grupos religiosos na política.
“Foi, no entanto, na eleição de 2010 que se observou uma mobilização mais intensa das bases evangélicas em torno de pautas conservadoras, especialmente relacionadas aos direitos reprodutivos das mulheres e a temas como família e identidade de gênero. A partir de 2018, essas chamadas ‘pautas morais’ passaram a ser mobilizadas de forma recorrente pelo campo bolsonarista para ampliar sua conexão com esse grupo do eleitorado”, acrescentou.
De acordo com a pesquisadora, embora haja maior propensão a apoiar determinadas pautas conservadoras, os evangélicos compartilham preocupações presentes no conjunto da sociedade brasileira, como segurança pública, corrupção e saúde. “Com os recentes escândalos envolvendo autoridades dos três Poderes e diferentes partidos, a corrupção, que havia perdido espaço no debate público, voltou a aparecer entre as principais preocupações dos brasileiros. Resta saber em que medida os candidatos aos cargos executivos e legislativos em 2026 conseguirão dialogar com o eleitorado evangélico em torno dessas questões.”
Assista aos minidocs da série Ponto a Ponto, realizados em parceria com o ISER:
– Empreendedorismo, religião e democracia
– Mulheres evangélicas e democracia
Resistência ao direcionamento do voto nas igrejas
Segundo Juliano Spyer — colunista da Folha de S.Paulo, onde escreve sobre cristianismo, cultura popular e mídias digitais —, há indícios de resistência entre os próprios fiéis quando a política passa a ocupar espaço excessivo nos cultos. “Segundo pesquisa de Victor Alberto Bueno Coelho, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), baseada em dados do Barômetro das Américas, a exposição direta a discursos políticos nos cultos não é generalizada e encontra resistência entre muitos fiéis”, disse.
Levantamentos recentes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia — Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) indicam que apenas cerca de um terço das lideranças evangélicas manifestam apoio eleitoral nas igrejas e que aproximadamente 75% dos fiéis desaprovam campanhas políticas durante os cultos.
“Hoje, o pastor precisa considerar cuidadosamente os efeitos dessa postura, pois pode acabar enfraquecendo os vínculos com os frequentadores da igreja”, acrescentou Spyer, que também chamou a atenção para a diversidade interna do universo evangélico. “Estamos falando de diferentes tradições protestantes – como luteranos e batistas — além de correntes pentecostais e neopentecostais. Trata-se de um segmento bastante diverso da sociedade brasileira, que pode convergir em torno de determinadas pautas, algumas mais antigas, como a oposição ao aborto, e outras mais recentes, como o debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.”
Para Evangelista, pesquisas indicam que existe de fato uma recusa entre muitos fiéis quando a política invade o espaço do culto, tradicionalmente associado à convivência religiosa e comunitária. “Isso, porém, não significa necessariamente que o comportamento eleitoral tenha mudado de forma significativa. Diversos levantamentos sugerem que permanece relevante, entre evangélicos, a tendência de apoio a candidatos de oposição ao PT.”
A cientista política lembra que, em 2018, ocorreu uma combinação de fatores políticos e morais que contribuíram para a vitória de Jair Bolsonaro. “Houve, de um lado, um forte rechaço ao PT, associado a escândalos de corrupção após anos à frente do governo federal. De outro, difundiu-se entre parte do eleitorado a percepção de uma espécie de ‘corrupção moral’ ligada a temas da esfera privada. Essa combinação teve peso importante na mobilização política daquele momento.”
Em 2022, os evangélicos voltaram a apoiar majoritariamente o presidente Jair Bolsonaro, candidato à reeleição. Como o sistema eleitoral brasileiro não registra a religião dos eleitores, as estimativas disponíveis baseiam-se em pesquisas de opinião, que apontaram ampla vantagem de Bolsonaro nesse segmento – cerca de dois terços do eleitorado evangélico —, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva teve melhor desempenho entre os católicos. No resultado final, Lula venceu o segundo turno por margem estreita, com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.
Sergio Fausto observou que, apesar das tentativas recentes do governo Lula de se aproximar desse segmento – seja por meio de políticas sociais que beneficiam camadas populares, seja por iniciativas específicas de diálogo com lideranças religiosas —, esse movimento ainda não se refletiu de forma clara em maior apoio eleitoral. “Por que esses esforços não têm produzido, até agora, um aumento mais visível do apoio à reeleição do presidente entre evangélicos?”, questionou.
Evangelista respondeu que pesquisas de opinião apontam para um ambiente mais amplo de desconfiança em relação ao sistema político. “Existe uma percepção difusa de suspeita que atinge diferentes instituições: Judiciário, Congresso e governo. Embora as denúncias de corrupção envolvam vários partidos, no meio evangélico ainda persiste uma associação forte entre corrupção e PT. Além disso, quando um candidato é identificado com a esquerda, tende a surgir resistência em parte desse eleitorado. Em outras palavras, permanece uma distância política significativa entre muitos evangélicos e partidos desse campo.”
Veja como foram os debates:
– Evangélicos na política: representatividade e poder
– Os evangélicos na sociedade e na política: efeitos e significados de uma influência crescente
Pré-candidato, Flávio Bolsonaro ainda é visto com desconfiança entre evangélicos
Spyer acrescentou que ainda não está claro se o grau de mobilização observado em eleições recentes se repetirá no próximo pleito. “Não sabemos se aquela grande mobilização vista em 2018 ou mesmo em 2022 vai se repetir agora. Flávio Bolsonaro, frequentemente apontado como possível herdeiro político do pai, tem buscado se aproximar do universo evangélico, mas não demonstra grande familiaridade com essa tradição religiosa.”
Um exemplo foi sua recente ida ao rio Jordão, no Oriente Médio – considerado sagrado pelos cristãos por ter sido, segundo a tradição bíblica, o local do batismo de Jesus —, para participar de uma cerimônia de batismo. O próprio Jair Bolsonaro também foi batizado no mesmo local, em 2016, durante viagem a Israel. No caso mais recente, porém, a divulgação do episódio em selfies e vídeos nas redes sociais gerou críticas de alguns fiéis, que consideraram inadequada a exposição do gesto religioso.
Segundo o antropólogo, também chama atenção a ausência, até agora, de manifestações explícitas de apoio por parte de figuras influentes do campo evangélico. “Não vejo, neste momento, a mesma energia nas igrejas que se observou nas eleições de 2018 ou de 2022. Ainda assim, caso haja um segundo turno envolvendo o PT, é provável que uma parcela majoritária desse eleitorado volte a se inclinar contra o partido, como ocorreu em disputas recentes.”
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.