A sociedade em rede no século 21: uma perspectiva retrospectiva — por Manuel Castells
Neste webinar, o sociólogo espanhol falou sobre as transformações recentes do mundo contemporâneo, marcadas por inovações tecnológicas como a inteligência artificial, pela crise da democracia, pela ascensão de regimes autocráticos e pelo recrudescimento das rivalidades geopolíticas.
“A maior ameaça para a humanidade atualmente é a concentração de poder em um grupo de tecno-oligarcas, com tal capacidade de poder financeiro, tecnológico e também político que, agora sim, temos uma classe dominante global que pretende controlar a vida no planeta em todos os seus aspectos”, disse o sociólogo espanhol Manuel Castells, neste webinar realizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso. O evento marcou os 30 anos do lançamento do livro ‘The Rise of the Network Society’ (Blackwell Publishers, Reino Unido, 1996), lançado no Brasil como ‘A sociedade em rede’ (Paz e Terra, 1999), o primeiro da trilogia Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura.
Segundo Castells, um dos maiores sociólogos dos últimos 50 anos, o mundo assiste à consolidação de uma estrutura oligopolista dominada por algumas poucas empresas que concentram capacidade tecnológica, capital financeiro e controle do mercado em grau sem precedente. No núcleo dessa estrutura, estão as chamadas Big Five: Apple, Amazon, Google, Microsoft e Meta, todas elas situadas na Costa Oeste dos EUA.
Dentro desse núcleo ou ao redor dele, estão também empresas fornecedoras de chips e desenvolvedoras de IA. Os chips são peças-chave para as novas tecnologias de comunicação e informação e a IA generativa é a principal inovação da nossa época, com implicações a todos os campos da atividade humana, inclusive militar. Entre essas empresas, estão a Nvidia, que responde pelo desenho de cerca de 80% dos chips para uso em Data Centers e Inteligência Artificial e está entre as empresas com maior cotação de mercado desde meados de 2024. Estão também a Open AI e a Anthropic, as duas principais desenvolvedoras de IA no Ocidente. Todas essas empresas também têm sua sede na Costa Oeste dos EUA.
Do mesmo ecossistema, fazem parte empresas como Tesla, SpaceX e Starlink, de Elon Musk, e Stargate, criada pela Open AI com outros sócios, e a Palantir Technologies, de Peter Thiel, ex-sócio de Elon Musk e, como ele, engajado no apoio a partidos e líderes de extrema-direita no Ocidente.
“O que acontece com o resto do mundo diante dessa fabulosa concentração de poder e tecnologia nestas multinacionais tecnológicas — que não são multinacionais, mas sim multi-americanas, porque defendem sobretudo seus próprios interesses e os interesses dos Estados Unidos, em aliança com o presidente Donald Trump?”, perguntou Castells.
“Estamos falando de tecnologias que condicionam tudo, da economia à política, do trabalho à cultura, das relações humanas à vida cotidiana, e que estão mais monopolizadas do que nunca, em toda a história da humanidade. A outrora poderosa Europa é hoje tão dependente desse conglomerado como o Brasil e os demais países em desenvolvimento. A exceção é a China, que está desenvolvendo um sistema paralelo também muito robusto. Então a situação atual é você prefere ser jantado com catchup ou com molho de soja? Porque você vai ser jantado de qualquer forma”, afirmou o palestrante, que, mais à frente, ressaltou a importância de potências médias, como o Brasil, criarem alternativas entre ser jantado pelos Estados Unidos ou pela China.
Além de “A Sociedade em Rede”, outros dois livros formam a trilogia da “Era da Informação”: ‘O poder da identidade’ (1997) e ‘Fim de milênio’ (1998), ambos publicados pela editora Paz e Terra em 1999. Traduzida para dezenas de idiomas, a obra tornou-se uma das principais interpretações das transformações econômicas, sociais, políticas e culturais produzidas pela revolução das tecnologias da informação.
‘Vivemos uma brutal expansão da teoria das sociedades em rede’
Neste encontro online com o cientista político, Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC, Manuel Castells – professor da University of Southern California (USC), professor emérito da University of California, Berkeley, e professor visitante distinto da Universidade Tsinghua, em Pequim – foi convidado a revisitar sua obra já clássica, à luz das mudanças recentes no mundo contemporâneo, impactado por inovações tecnológicas, como a IA, pela crise da democracia, a ascensão de regimes autocráticos e o recrudescimento das rivalidades geopolíticas.
“Nestes primeiros 25 anos do século 21, houve uma brutal expansão da teoria das sociedades em rede a partir de uma nova fase de transformação digital. Nesse sentido, a principal visão da teoria se comprovou correta empiricamente: o que eram embriões nos anos 1980 e 90 agora é a vida cotidiana, a economia cotidiana, a cultura cotidiana e a política cotidiana”, disse Castells, que deu alguns exemplos dessa aceleração:
- Segundo a revista Science, 99% de toda a informação atualmente transmitida por algum meio, ou seja, não diretamente entre pessoas, ocorre em meio digital;
- Houve uma expansão exponencial das telecomunicações de alta velocidade e grande capacidade tipo 5G, fibra óptica e satélites de órbita baixa, que já somam cerca de 10 mil circulando em volta da Terra;
- Houve uma aceleração enorme da comunicação digital em termos de velocidade e capacidade de armazenamento em bases de dados. Todos os nossos dados pessoais, políticos e econômicos estão armazenados em bases de dados em diferentes países, mas de forma assimétrica. A maior parte dos dados da América Latina passa por servidores dos Estados Unidos;
- Houve redução fundamental da latência, tempo que existe entre a emissão de uma mensagem e a recepção e resposta a esta mensagem. Chegamos a uma comunicação quase em tempo real de tudo, não apenas entre os humanos, mas também de máquina a máquina;
- Houve um aumento extraordinário da capacidade de computação, com o surgimento da computação quântica, muitas vezes mais rápida que a atual. Hoje ela só existe nos EUA e na China.
“Mas a transformação mais acelerada que estamos vivenciando é a inteligência artificial (IA). A primeira vez em que se falou sobre IA foi em 1955 em um congresso na Yale University. Em 1970, foi criado o Artificial Intelligence Laboratory (AI Lab) do Massachusetts Institute of Technology (MIT). No século 21, a IA tem alcançado outros níveis, com os agentes de IA cada vez mais autônomos e realizando tarefas que antes não existiam. Eles já são capazes de substituir o trabalho humano, fazendo mais, melhor e com mais profundidade, embora ainda sob controle dos humanos”, disse.
“Em que medida a IA de última geração está transformando o conjunto das estruturas sociais? A IA não se resume aos grandes modelos de linguagem (LLMs), como o ChatGPT (OpenAI), o Gemini (Google) e o Claude (Anthropic). Ela já transformou e ampliou exponencialmente a densidade e a intensidade de redes de todos os tipos, como a financeira, militar, tecnológica, cultural e social”, continuou.
“A IA amplia as nossas capacidades, mas sob as regras que foram definidas por quem as concebeu e programou, empresas que estão sobretudo nos EUA, como já vimos, e na China, onde a IA é atualmente o centro da política de Estado do regime de Xi Jinping (presidente da República Popular da China e secretário-geral do Partido Comunista Chinês). O resto do mundo está sendo marginalizado, simplesmente não conta mais nesse novo jogo de poder”, disse. Segundo ele, a Coreia do Sul também tem uma indústria de ponta na área tecnológica, mas que não pode ser comparada à dos EUA e da China.
A China tem obtido progressos tecnológicos importantes em áreas como supercomputação quântica, robótica (12 milhões dos 20 milhões de robôs fabricados em 2025 são chineses) e IA, além de controlar a automação elétrica mundialmente. A microeletrônica – ramo da eletrônica hoje dedicado a projetar e fabricar circuitos integrados (chips) cada vez menores e mais potentes – é o calcanhar de Aquiles da indústria de tecnologia chinesa, salientou. Os Estados Unidos têm a vantagem de projetar chips sofisticados. Ambos os países, porém, dependem de Taiwan para a sua fabricação. Taiwan responde por cerca de 90% da manufatura dos chips mais sofisticados produzidos em todo o mundo.
‘Hobbes estava mais perto da realidade atual do que Rousseau’
No campo social, o fenômeno mais relevante do século 21 é a transformação das relações de poder produzida pela revolução das tecnologias de comunicação, alertou Castells, tema do livro ‘Communication Power’ (Oxford University Press, 2009) – no Brasil, ‘O Poder da Comunicação’ (Paz & Terra, 2015).
Em uma autocrítica de sua obra, Castells lembrou que, nos anos 1990 e início dos anos 2000, acreditava que a internet ampliaria a liberdade e a autonomia dos cidadãos. Como cidadãos e movimentos sociais poderiam se comunicar sem depender dos grandes meios de comunicação, surgiriam novas formas de participação democrática. Mas, segundo ele, aconteceu outra coisa: a arena digital foi capturada pela dinâmica do poder, cada vez mais concentrado.
“De fato, nas duas primeiras décadas do século 21, surgiram importantes movimentos sociais a partir da internet de forma autônoma”, disse. Alguns exemplos são a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e as Jornadas de Junho, no Brasil, em 2013. “Mas os grandes poderes políticos, econômicos e tecnológicos se deram conta da batalha fundamental da comunicação para fins políticos e ideológicos, entraram nas redes com muitos recursos e derrotaram os que lutavam por liberdade. A história mostra que Hobbes estava mais perto da realidade do que Rousseau.”
Thomas Hobbes (1588–1679), autor de ‘Leviatã’ (1651), acreditava que, sem uma autoridade capaz de impor ordem, os seres humanos tenderiam ao conflito permanente. Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) sustentava a visão mais otimista de que o ser humano é naturalmente bom, sendo a sociedade que o torna individualista e conflituoso.
“Levando em conta essas transformações que você tão bem descreveu, que espaço ainda existe para fazer política democrática?”, perguntou o cientista político Sergio Fausto.
“Temos que observar o que está acontecendo concretamente. O que está ocorrendo é que a maior parte das sociedades no mundo está se deslocando rapidamente não à direita, mas à extrema direita, apoiada justamente em todos os poderes que acabo de descrever”, respondeu Castells.
“A diferença entre esta extrema direita que está surgindo com força em todo o mundo e a direita tradicional é que ela tem base popular, uma das principais características do fascismo no século 20. Para mim, o trumpismo e o bolsonarismo são variantes modernas do fascismo. O bolsonarismo tem base popular e há o risco de ele voltar ao poder no Brasil, o que é muito preocupante”, continuou.
Castells afirmou que o Brasil é hoje um bastião de resistência democrática na América do Sul, assim como o México, na América do Norte, e a Espanha, na Europa. “Vemos hoje campanhas orquestradas para eliminar pessoalmente, psicologicamente e politicamente os líderes dos poucos países que se opõem a essa nova configuração de poder”, alertou.
“Como resistir aos tecno-oligarcas, a Trump e a extrema-direita que existe em nossas sociedades?”, perguntou o sociólogo. “Há possibilidades de resistência, há embriões, mas é preciso ter clareza de onde estamos e da urgência de inventar novas capacidades tecnológicas, por um lado, e novas formas políticas e ideológicas que não sejam uma repetição das ideias que tínhamos no século 20 porque o mundo mudou muito mais rapidamente do que nossa maneira de pensar.”
“Os partidos progressistas que atuam politicamente de formas mais tradicionais terão cada vez menos força. A única maneira, creio, de deter essa onda de extrema direita é reconstruir os tecidos sociais e as resistências a partir do local e de movimentos específicos. E, a partir daí, ir crescendo.”
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A diferença entre esta extrema direita que está surgindo com força em todo o mundo e a direita tradicional é que ela tem base popular, uma das principais características do fascismo no século 20. Para mim, o trumpismo e o bolsonarismo são variantes modernas do fascismo. O bolsonarismo tem base popular e há o risco de ele voltar ao poder no Brasil, o que é muito preocupante.
Manuel Castells, sociólogo espanhol
‘Europa e Brasil devem buscar maior autonomia tecnológica’
Segundo o sociólogo espanhol, as ameaças à soberania e à democracia são reais tanto na Europa como no Brasil e é preciso agir para tentar conter esse processo. “Alguns pensam que, porque somos (os espanhóis) parte da União Europeia, estamos protegidos. Não, de forma nenhuma. Se não fizermos parte desse mundo tecnológico e não tivermos a capacidade política de gerir essa transição, não estaremos protegidos diante dos EUA e da China.”
Castells citou o estudo ‘European Alternative for Digital Sovereignty’, publicado em 2025 e que tem como uma de suas principais autoras a tecnóloga e economista italiana Francesca Bria. O trabalho sustenta que a Europa se tornou excessivamente dependente de tecnologias críticas desenvolvidas nos EUA e na China, colocando em risco sua soberania digital e tecnológica. Elaborado pelo Centre for European Policy Studies, o relatório teve ampla circulação e impacto na Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, em Bruxelas.
A ideia central defendida por Bria é que a UE:
- depende de empresas norte-americanas para computação em nuvem (Microsoft, Amazon, Google);
- depende de chips projetados e fabricados fora da Europa;
- perdeu capacidade de desenvolver plataformas digitais próprias; e
- está ficando para trás na corrida da inteligência artificial generativa.
Por isso, ela afirma que a Europa corre o risco de se tornar uma “colônia digital” (digital colony) dos Estados Unidos e da China se não reconstruir uma base tecnológica própria.
Castells defendeu que o Brasil avance na regulação da IA e das plataformas digitais, como pretende o governo Lula, por enquanto sem sucesso.
“Como dizia meu grande amigo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil não é um país pobre, é um país injusto. De fato, o Brasil tem muitas possibilidades econômicas, um alto nível de profissionais educados e uma sociedade diversa e vibrante. Um governo comprometido com causas progressistas, como a defesa da democracia, dos direitos humanos e de uma maior justiça social, tem que entrar fundo na batalha da IA. Isso significa que, sim, o Brasil deve regular a IA e as plataformas digitais, mas não é possível regular o que não se conhece e não se domina.”
“Já é relativamente tarde para criar uma alternativa real a esse oligopólio da tecnologia digital que descrevi anteriormente, mas é necessário criar instrumentos para tentar contê-lo e neutralizá-lo, ou pelo menos tentar negociar algumas compensações e salvaguardas à atual dependência tecnológica europeia das empresas norte-americanas. Em relação à China, o caminho é o de encontrar formas de cooperação, mas sempre buscando preservar a autonomia”, concluiu.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.