Debates
29 de abril de 2026

Os dilemas estratégicos da União Europeia em um mundo incerto e hostil

Neste webinar, José Manuel Durão Barroso, ex-primeiro-ministro de Portugal e ex-presidente da Comissão Europeia, analisou os desafios atuais do bloco no cenário internacional.

“De um lado, a Rússia, mais agressiva; de outro, os Estados Unidos mais imprevisíveis. Os europeus finalmente entenderam que não podem mais ser como ‘adolescentes geopolíticos’ e precisam ser capazes de se defender por conta própria. Na União Europeia, somos 27 países e o processo de decisão é complexo, mas nos últimos anos tem havido progressos em relação à ideia de uma autonomia europeia na área de segurança”, disse o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso, que presidiu a Comissão Europeia (2004-2014), neste webinar realizado pela Fundação FHC.

Segundo o palestrante, os presidentes norte-americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin, cada um a seu modo e por diferentes motivos, estão obrigando os líderes dos países-membros da UE a superarem suas divisões e assumirem responsabilidades nas áreas de defesa e política externa.

“O presidente Donald Trump é o grande disruptor, pode-se gostar ou não dele, mas ele mudou a gramática, os princípios e as regras da política e da comunicação política. Mudou as relações internacionais e as convenções diplomáticas. Não é só a UE que ele critica, mas também o Canadá e o Reino Unido, que são grandes parceiros dos EUA, entre outros países. Isto acaba sendo um fator de encorajamento para a UE se assumir como um player internacional relevante e maduro.”

“Como premiê de Portugal e presidente da Comissão Europeia (braço executivo da UE), estive 25 vezes com o presidente Putin. Ele é um autocrata, obviamente, mas não age por ideologia. Sente um profundo ressentimento pelo que considera uma humilhação nacional imposta à Rússia pelos Estados Unidos após a implosão da União Soviética (1991). Como não pode atacar os EUA, invadiu um país europeu e ameaça a Europa. Isso é perigoso porque uma grande potência militar em declínio, no caso com capacidade nuclear, pode recorrer a medidas de força para reafirmar seu poder”.

‘Cooperação reforçada’ para avançar mais rápido

Durão Barroso defendeu a adoção de um novo mecanismo — o sistema de cooperação reforçada — para que a UE avance mais rapidamente na construção de um sistema de defesa europeu (tanto no sentido de ter Forças Armadas bem treinadas e bem equipadas, como no sentido mais amplo, que inclui a segurança cibernética) e de uma política industrial e tecnológica que dê sustentação a esse objetivo.

“O artigo 20 do Tratado de Lisboa (2007) prevê que, quando há pelo menos nove países que querem avançar mais do que os outros em algum aspecto, eles podem fazer isso desde que seus objetivos estejam de acordo com os objetivos gerais da UE. Em matérias de política externa e defesa, é difícil conseguir unanimidade na UE. Foi difícil, por exemplo, aplicar sanções à Rússia após a invasão da Ucrânia (2022) devido à oposição do então premiê húngaro, Viktor Orbán (que deixou o poder em abril de 2026 após ser derrotado nas eleições parlamentares húngaras)”, explicou.

“Se precisamos atingir a autonomia de defesa mais rapidamente, precisamos construir o que chamamos aqui de ‘coalizão dos que querem avançar’, que no caso da defesa europeia pode incluir não apenas membros da UE, mas também o Reino Unido, a Noruega e a própria Ucrânia.”

Títulos da dívida pública destinados a investimentos militares

Além disso, ele defendeu a emissão de defence bonds como forma de possibilitar que os países europeus gastem mais com defesa sem prejudicar seus sistemas de bem-estar social: “A Europa tem um sistema de bem-estar social que é um dos melhores do mundo. Temos saúde e educação pública que funcionam, sistemas previdenciários e de apoio a desempregados. Queremos manter essa economia social de mercado, mas, para atender às novas necessidades de investimento na área de defesa, vamos ter que fazer uma recalibragem. Como fazer isso?”

“A Alemanha, por exemplo, tem uma economia forte que possibilita ao país elevar seus gastos com defesa para pelo menos 3,5% do PIB (chegando a 5% se incluirmos cibersegurança), mas outros países como França, Itália e Portugal não têm espaço fiscal. Para chegarmos a investimentos de cerca de 3,5% do PIB dos países europeus em defesa, será necessário fazer uma dívida pública europeia destinada à defesa comum do continente. Na minha visão, isso só pode ser feito por meio da emissão de títulos conhecidos como defence bonds”, disse.

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De um lado, a Rússia, mais agressiva; de outro, os Estados Unidos mais imprevisíveis. Os europeus finalmente entenderam que não podem mais ser como ‘adolescentes geopolíticos’ e precisam ser capazes de se defender por conta própria.

José Manuel Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia

Europa acorda após décadas de complacência

Ao iniciar sua exposição, Barroso fez um breve enquadramento de sua perspectiva: “Falo como português, europeu, atlanticista e globalista”. Para ele, fortalecer a União Europeia é uma necessidade estratégica. “Somos uma potência econômica e regulatória, mas não somos ainda uma potência diplomática e de defesa.”

Segundo ele, a Europa viveu por décadas uma situação de relativa complacência, ancorada no guarda-chuva de segurança nuclear dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e no período posterior. Esse equilíbrio começou a se alterar gradualmente — e foi acelerado nos últimos anos. “Desde os anos 1980, sucessivos presidentes norte-americanos já pediam, nas reuniões de cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA), que a Europa investisse mais em defesa. Mas os países europeus preferiram priorizar seus sistemas de bem-estar social e mantiveram gastos inferiores a 2% do PIB.”

A mudança de cenário foi impulsionada por dois fatores principais: a nova postura dos EUA e a ação recente da Rússia. “A Europa está acordando por causa de Putin e de Trump. A invasão da Ucrânia, em particular, marcou uma ruptura. Temos hoje uma guerra no centro da Europa. Isso é motivo de grande alarme, sobretudo para países como Polônia e os Estados bálticos, que veem a ameaça russa como algo existencial.” Esses países, segundo ele, já se preparam para cenários de um conflito militar mais amplo.

Ao mesmo tempo, a relação transatlântica passa por tensões, mas continua sendo considerada essencial: “Não é do interesse europeu — nem norte-americano — enfraquecer a Otan, que tem sido uma extraordinária máquina de projeção de poder dos EUA.”

A guerra na Ucrânia também produziu mudanças estruturais relevantes no continente. Países historicamente neutros, como Finlândia e Suécia, aderiram à Otan. A Dinamarca reviu sua posição e voltou a integrar a política europeia de defesa. A Alemanha, por sua vez, promoveu uma inflexão histórica.

“A Alemanha mudou sua Constituição para permitir maior endividamento voltado à defesa. Isso seria impensável há poucos anos.” Segundo Barroso, o país deve se tornar, até o fim da década, a principal potência militar convencional da Europa — um movimento que sinaliza uma transformação profunda na postura alemã desde o pós-guerra.

Apesar dessas mudanças, o ex-presidente da Comissão Europeia destacou as limitações institucionais do bloco. “Não somos os Estados Unidos da Europa. Somos 27 países com histórias, culturas e interesses próprios. Nosso processo decisório é mais lento, mais incremental.”

Ainda assim, ele argumenta que esse modelo tem demonstrado capacidade de adaptação em momentos críticos. “A Europa é mais reativa do que proativa, mas quando decide, as coisas acontecem.”

Esse padrão se repetiu em crises anteriores, como a crise do euro (iniciada em 2009) e a pandemia, e voltou a se manifestar no atual contexto geopolítico. “Os europeus precisam de crises para avançar. Em democracias, isso é comum — e ainda mais em uma união de 27 países.”

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Acordo UE-Mercosul ganha relevância em novo contexto internacional

Para Barroso, o cenário internacional atual é marcado por uma redistribuição de poder, com a ascensão da China, o reposicionamento dos Estados Unidos e a postura assertiva da Rússia: “Sentimos que perdemos peso geopolítico.” Nesse contexto, a União Europeia busca reforçar sua inserção global também por meio de acordos estratégicos. O acordo entre UE e Mercosul, fechado no início de 2026 após mais de duas décadas de negociação, é um exemplo.

“Por que foi possível agora? Em parte por causa do Trump. Diante de um cenário de maior protecionismo, a UE precisou diversificar suas parcerias.” Segundo ele, com o multilateralismo global travado, acordos regionais tendem a ganhar mais relevância.

Barroso também abordou o papel da China, destacando a necessidade de equilíbrio. “Temos de reconhecer que há um ‘risco China’. Ao mesmo tempo, a China é fundamental para a economia global. Não somos a favor do desacoplamento.”

Para ele, a Europa deve evitar uma escolha binária entre Washington e Pequim, mantendo diálogo e cooperação sem abrir mão de seus valores. “Dizer com firmeza com o que estamos de acordo e com o que não estamos. Isso exige diplomacia, mas é possível.”

O Brasil não deve se ver apenas como líder do Sul Global, mas ocupar um lugar de destaque entre as grandes nações democráticas. É uma grande economia, um país diverso, com sociedade aberta e Estado de Direito.

José Manuel Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia

Brasil deve ocupar lugar no centro do sistema internacional

Ao tratar da relação com o Brasil, Barroso destacou afinidades históricas e políticas. “Somos democracias, com economias e sociedades abertas. Temos valores em comum.” Para ele, o Brasil pode desempenhar um papel relevante em um mundo mais fragmentado, atuando como ponte entre diferentes polos. “O Brasil não deve se ver apenas como líder do Sul Global, mas ocupar um lugar de destaque entre as grandes nações democráticas. É uma grande economia, um país diverso, com sociedade aberta e Estado de Direito. Pode ser mais afirmativo no centro do sistema internacional.”

Encerrando sua análise, Barroso defendeu a importância de uma Europa mais forte não apenas para os europeus, mas para o equilíbrio global: “Com todos os nossos defeitos, continuamos a ser um espaço de liberdade, de direitos humanos e de relativa justiça social. Uma Europa forte é importante não só para nós, mas para um mundo mais equilibrado, democrático e justo.”

Ao final do evento, o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Lafer, presidente da Fundação FHC, ressaltou a dimensão dos valores nas relações internacionais e o fato de a União Europeia e o Brasil compartilharem esses valores: “Como já disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil e outros países da América do Sul são ‘um outro Ocidente’ e, além de interesses econômicos e estratégicos, compartilham com a Europa a forma de conceber a vida em sociedade. Temos muitas afinidades que podem servir de base para uma relação mais profunda e benéfica para os sul-americanos e os europeus.”


Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.  

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