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Eleições na Argentina: o futuro do país vizinho e do Mercosul

/ auditório da Fundação FHC


O primeiro turno das eleições gerais na Argentina só se realizará em 27 de outubro, mas o revés do atual presidente Maurício Macri nas primárias de 11 de agosto resultou em uma situação descrita pelo jornalista Carlos Pagni, um dos mais respeitados do país, como “monstruosa”.

“Temos um presidente que politicamente já perdeu e ninguém mais vê como presidente, mas não pode iniciar uma transição ordenada para seu virtual sucessor. E um candidato de oposição que todos já veem como futuro presidente, mas não pode dizer o que terá de fazer para pôr ordem na grave situação econômica.”
Carlos Pagni, historiador e jornalista, é colunista dos jornais La Nación e El País.

“Todo mundo na Argentina já vê o resultado das prévias de agosto como definitivo, mas tanto o vencedor (o candidato peronista Alberto Fernández) como o derrotado (Macri, candidato à reeleição) precisam continuar em campanha, o que acaba gerando um enorme vazio de poder”, disse Pagni, escolhido pela consultoria Poliarquía como o jornalista argentino mais respeitado pelo terceiro ano consecutivo, em palestra na Fundação FHC.

Além de excluir da eleição pré-candidaturas com menos de 1,5% dos votos, as prévias argentinas, estabelecidas por lei em 2009, deveriam servir para definir o candidato mais votado dentro de cada coalizão ou partido. Neste ano, no entanto, nenhuma das nove alianças ou partidos apresentou mais de uma chapa presidencial. Ou seja, não houve concorrência interna dentro de um mesmo agrupamento político. Com isso, as primárias se transformaram numa espécie de primeiro turno antecipado.

“As primárias foram completamente distorcidas e geraram uma situação rara. Macri, que muitos suspeitavam ter poucas chances de reeleição devido ao aprofundamento da crise econômica nos últimos meses, foi derrotado de forma contundente. Mas quem será o candidato de sua coalizão? O próprio Macri”, disse Pagni. 

Em 11 de agosto, o candidato peronista Alberto Fernández (escolhido como candidato pela ex-presidente Cristina Kirchner, que disputa a vice presidência em sua chapa) obteve 47% dos votos, percentual que o deixou próximo de uma vitória já no primeiro turno, em 27 de outubro. O atual presidente teve 33% dos votos. O terceiro colocado, Roberto Lavagna, recebeu 8% dos votos. 

“(Antonio) Gramsci dizia que as transições frequentemente geram monstros e esta que estamos vivendo é especialmente monstruosa, pois coloca tanto Macri como Fernández em um dilema. O primeiro -- que, diante do fracasso de sua política econômica, só tinha o argumento de que os argentinos deveriam reelegê-lo para evitar o retorno do populismo da era Cristina -- se viu forçado a adotar medidas populistas para tentar reverter um resultado que a todos parece irreversível. O segundo -- que como candidato oposicionista propunha o abandono total da política econômica do atual governo -- precisa moderar seu discurso diante da vitória iminente, pois sabe que uma ruptura radical agravaria a situação econômica. Ambos tiveram de abandonar seus discursos de campanha, o que gera um grande mal entendido na cabeça dos eleitores na reta final da campanha”, explicou.

Concretamente, após as primárias o governo Macri trocou o ministro da Economia, congelou o preço de produtos básicos e tarifas e anunciou estímulos ao consumo, entre outras medidas que até recentemente classificava de “populistas”. Já Fernández não pode mais atacar frontalmente medidas mais ortodoxas, entre elas o próprio acordo com o FMI (assinado por Macri em 2018). “Ele sabe que as reservas que Macri está gastando para tentar manter o dólar calmo já são dele (de seu futuro governo) e que sua governabilidade começa a ser posta em risco antes mesmo de ser eleito e tomar posse”, disse o palestrante.

“A consequência dessa transição endiabrada é que o vitorioso (provavelmente Fernández) não terá tempo oportuno para  formar um gabinete e formatar suas primeiras medidas. No dia seguinte à confirmação de sua eleição (que pode ocorrer já no dia 27/10) o mercado exigirá que anuncie seu ministro da Economia e o programa de ajuste econômico. Até mesmo os representantes do FMI já vão querer iniciar um diálogo com o eleito para garantir que o acordo seja cumprido, ainda que com mudanças”, afirmou.

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      O ‘pacto’ entre Fernández e Cristina

Outro tema crucial que ronda a atual eleição é como será a relação entre o candidato do Partido Justicialista (mais conhecido como peronista) e a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), que em vez de tentar buscar ela mesma um retorno à Casa Rosada, como todos esperavam, indicou Alberto Fernández, reservando para si a vaga de vice-presidente.

“Fernández é produto de uma decisão misteriosa da ex-presidente, que parece ter sido motivada por uma combinação de fatores. Primeiro, Cristina (alvo de processos de corrupção) pode ter se sentido desgastada emocionalmente para enfrentar uma batalha dura. Segundo, pode ter tido a consciência de que a Argentina terá pela frente tempos complicados e que seria difícil governar sem trair suas próprias ideias, pois teria de abrir mão de coisas que ela considera como importantes conquistas biográficas, entre elas a rejeição a qualquer acordo com o FMI e a reformas (previstas no acordo)”, disse.

“Creio existir um pacto entre eles. Como presidente, Fernández buscará reduzir os problemas pessoais dela, inclusive judiciais. Já Cristina o deixará adotar, na Casa Rosada, uma orientação mais moderada e palatável ao mercado”, disse. 

Assim que (e se) a vitória se confirmar, Fernández deve reconhecer os desequilíbrios da economia argentina, como o déficit fiscal e a enorme dívida, propor um acordo econômico e social para colocar um freio na corrida inflacionária entre preços e salários e renegociar o acordo com o FMI, ganhando assim um pouco de fôlego. “O problema é que essa estratégia talvez pudesse ter funcionado em maio (quando Cristina abriu mão de sua própria candidatura em prol de Fernández), mas agora talvez já seja tarde demais, pois a economia piorou muito desde então”, afirmou.

Após o êxito nas prévias de agosto, Fernández ensaia uma aproximação com os governadores peronistas e representantes de sindicatos ligados ao peronismo, que, segundo o colunista, também desejam reduzir a influência da ex-presidente. “Ele se apresenta como aquele que pode oferecer um esquema de poder compartido que não elimine, mas diminua o peso de Cristina”, disse Pagni.

“Portanto, o principal problema que Fernández enfrentará não virá da esquerda, de Cristina ou do grupo de jovens apoiadores em torno dela. O mais provável é que prefiram não se envolver diretamente e, caso o novo governo não tenha sucesso, não poderá dizer que fracassou por causa das ideias de Cristina. Ou seja, agirão como os espectadores do circo frente aos saltos do trapezista. Se cair, problema dele”, afirmou. 

      O risco da polarização

Os maiores obstáculos serão o trauma do mercado financeiro internacional em relação à Argentina (“os investidores estrangeiros acreditaram no sucesso do governo Macri, investiram fortemente no país e perderam fortunas”) e a desilusão da opinião pública, que pode rapidamente perder confiança no governo diante das dificuldades que o novo presidente inevitavelmente enfrentará. 

“Como o Brasil, a Argentina é hoje uma sociedade polarizada. As pessoas votam em um candidato para impedir a vitória (ou a continuação) daquele que é visto como seu oposto. No momento em que o adversário sai de cena, o vitorioso corre o risco de perder rapidamente o apoio daqueles que o elegeram, principalmente se tiver que adotar medidas que não os agradem”, disse.

      O tamanho da futura oposição (hoje governo) 

Pagni também chamou atenção para a composição do futuro Congresso, pois no dia 27 os eleitores renovarão metade da Câmara e um terço do Senado. “Qual será a força dos partidos que hoje apoiam Macri? A coalizão Cambiemos se manterá unida mesmo apeada do poder? Que tipo de oposição terá o governo Fernández?”, perguntou. 

Segundo o palestrante, o tamanho da oposição será “determinante para o surgimento ou não de um novo poder hegemônico” e, paradoxalmente, pode ajudar o futuro presidente peronista a “aprovar reformas pró-mercado”.

A composição do novo Congresso também deve ter repercussão no Conselho da Magistratura, que tem influência sobre os os juízes: “Já se nota uma tendência de alguns juízes a encerrar rapidamente alguns processos envolvendo os Kirchner e deslanchar inquéritos contra Macri.”

     E como fica a relação com o Brasil e o Mercosul?

Diferentemente da história recente nas relações entre Brasil e Argentina, quando houve um certo alinhamento ideológico entre os governos do PT e o casal Kirchner e, posteriormente, entre Macri, Temer e Bolsonaro, a provável vitória de Fernández não encontrará um governo amigável no Brasil, principal sócio do Mercosul.

“O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, já disse que Fernández é uma boneca baboushka que, em seu interior, contêm bonecas de Cristina, Lula e Chávez”, lembrou Pagni.

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Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

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