Venezuela: um chavismo ajustado à tutela americana?
Neste webinar, conversamos com a historiadora e socióloga venezuelana Margarita López Maya e com o ex-diplomata de carreira dos Estados Unidos Ricardo Zúñiga, sócio-fundador da Dinámica Americas.
Após o “3 de janeiro” — como os venezuelanos se referem à captura do ditador Nicolás Maduro por tropas de elite norte-americanas no início deste ano —, “a primeira sensação da maioria da população foi de um grande alívio e, imediatamente depois, de um banho de água fria”, disse a historiadora Margarita López Maya, que vive em Caracas, neste webinar realizado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso em 26 de janeiro de 2026.
“Passadas algumas semanas, vivemos uma sensação estranha de volta à realidade porque a vida continua sob um regime autoritário que não foi desmantelado. Ainda resta uma cautelosa esperança de que teremos uma transição democrática, mas as pessoas têm medo de se expressar e preferem ficar caladas porque o aparato repressivo continua intacto. Assim que o sol se põe, a cidade de Caracas fica vazia. Ninguém se atreve a sair à noite”, disse López.
Segundo a cientista social, “as informações sobre o que está de fato acontecendo no país são fragmentadas e incompletas e, para tentar obter uma visão mais ampla, é preciso navegar por várias fontes com muita cautela”.
‘Governo Trump não tem estratégia clara para a Venezuela’
Já em Washington D.C, a versão oficial é a de que a captura de Maduro foi uma operação militar impecável e que os EUA têm absoluto controle sobre o que acontece em Caracas, mas a realidade é que não há uma estratégia clara mesmo dentro do governo Trump, onde há diferentes visões sobre como os EUA devem atuar na Venezuela.
“O presidente Donald Trump não costuma se preocupar com detalhes e seu entendimento sobre o que acontece em Caracas se baseia no que seus assessores, sobretudo o secretário de Estado, Marco Rubio, relatam a ele. ‘Não se preocupe, senhor presidente, está tudo sob controle’, é o que supostamente Rubio tem dito a Trump nas últimas semanas. A realidade é que tem havido improvisação desde o primeiro dia”, disse Ricardo Zúñiga, que foi funcionário do serviço diplomático norte-americano durante 30 anos e atuou como conselheiro sênior em questões relacionadas à América Latina, Caribe e Canadá no Conselho de Segurança Nacional (governo Obama).
A prioridade de Trump é controlar a indústria petrolífera venezuelana; depois, garantir que haja estabilidade em Caracas; e, só em terceiro lugar, apoiar uma evolução democrática no país, disse o sócio-fundador da Dinámica Americas, consultoria sediada em Washington especializada em América Latina.
Mas, segundo Zúñiga, as grandes empresas petrolíferas norte-americanas não estão dispostas a realizar vultosos investimentos a longo prazo na Venezuela enquanto não houver clareza sobre os rumos políticos do país.
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“Trump deseja o petróleo venezuelano, mas mais importante do que um negócio específico é o fato de que a Venezuela havia se transformado em um foco de perturbação aos interesses estratégicos dos EUA na região. Para desafiar Washington, Maduro se aproximou da China, da Rússia, do Irã e de Cuba. Se os EUA não resolvessem o problema da Venezuela, seria uma forte indicação de que o país não tem mais capacidade hegemônica neste novo mundo que está se construindo”, disse López.
“Se a situação na Venezuela sair de controle, Trump estaria disposto a enviar tropas para o país?”, perguntou Fausto. “A operação especial foi um sucesso inegável, mas a situação na Venezuela é dinâmica e não sabemos o que vai acontecer a médio prazo. Trump, no entanto, sabe que a maioria dos norte-americanos resiste ao envolvimento dos EUA em aventuras militares de longa duração. Por isso, a ideia é que Washington tenha uma presença mínima no país”, respondeu Zúñiga.
Segundo o ex-diplomata, é possível que os EUA, embalados pelo êxito da operação na Venezuela, decidam realizar ações militares pontuais em outros países da América Latina, como Cuba (o sonho do secretário Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, é derrubar o regime estabelecido por Fidel Castro, no poder desde 1959), México (sob o argumento de que é preciso desmantelar os cartéis que contrabandeiam drogas para os EUA) e o Panamá (para retomar o controle sobre o Canal do Panamá, que conecta o Oceano Atlântico ao Pacífico).
“Os EUA têm capacidade militar para realizar ataques bem sucedidos a Cuba, por exemplo, mas garantir que uma ação contra o regime cubano se converta em um avanço geopolítico estratégico sustentável a médio prazo é outra coisa”, disse.
Vivemos uma sensação estranha de volta à realidade porque a vida continua sob um regime autoritário que não foi desmantelado. Ainda resta uma cautelosa esperança de que teremos uma transição democrática, mas as pessoas têm medo de se expressar e preferem ficar caladas porque o aparato repressivo continua intacto.
Margarita López Maya, historiadora e cientista social venezuelana
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López lembrou que, na eleição presidencial de 28 de julho de 2024, dois terços dos eleitores venezuelanos votaram em Edmundo González, candidato pouco conhecido indicado por María Corina Machado, principal líder da oposição ao chavismo, depois que ela foi impedida de disputar. A eleição, no entanto, foi fraudada por Maduro, com a chancela do Conselho Nacional Eleitoral, do Tribunal Supremo de Justiça e da Assembleia Nacional da Venezuela, todos dominados pelo regime.
“Se os venezuelanos exilados no exterior tivessem podido votar, a oposição teria vencido com 80% dos votos. Para os cidadãos venezuelanos, é fundamental que haja uma transição democrática. Mesmo golpeada por uma brutal repressão, a sociedade civil continua a lutar, da maneira que pode, pela libertação dos presos políticos e o retorno da democracia”, disse a cientista social.
Segundo López, sem a participação de María Corina Machado, não há como fazer uma transição democrática na Venezuela. “Ela é quem tem capital político no país devido à vitória inquestionável de 2024. Após o 3 de janeiro, o governo Trump a deixou de lado e preferiu trabalhar com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que não tem legitimidade para presidir o país. Nos últimos dias, María Corina tem buscado um diálogo com Trump. Sem que ela seja ouvida, não pode haver caminho democrático na Venezuela”, afirmou.
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O Brasil diante das turbulências internacionais
Papel do Brasil deve ser de apoio à sociedade civil venezuelana
“Qual deve ser o papel do Brasil neste novo contexto?”, perguntou o cientista político Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC, aos convidados.
Para López, Brasil e Colômbia foram os países da América do Sul mais prejudicados pela invasão norte-americana: “São países que deveriam ter alguma capacidade de influência regional, mas foram simplesmente ignorados pelos EUA. Creio que agora poderiam ter um papel importante em uma articulação política em prol da democracia, tornando-se porta-vozes da sociedade venezuelana, que deseja uma transição democrática.”
A historiadora fez ressalvas à nota do presidente Lula na qual ele classificou as ações dos EUA em 3 de janeiro como uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. “A soberania popular já havia sido violada após a vergonhosa fraude eleitoral de 2024. E a soberania territorial também estava ameaçada pela presença de um grande número de agentes russos, cubanos, iranianos e chineses, além de integrantes das guerrilhas colombianas e do grupo terrorista islâmico Hezbollah (ligado ao Irã), em território venezuelano, com a anuência do regime Maduro”, disse.
“Minha sugestão para o Brasil é uma só: defender o caminho democrático como a única saída para a crise venezuelana e apoiar as forças democráticas do país. Não haverá estabilidade política, econômica e social se não houver liberdade, respeito e justiça”, disse López.
“O Brasil deve reconstruir sua capacidade diplomática atualmente em xeque na região para influenciar positivamente o futuro da Venezuela. Isso não quer dizer bater de frente com Trump, mas apoiar as forças democráticas, estabelecer canais de contato com os militares venezuelanos e, assim, contribuir para criar as condições propícias para um governo legítimo e não autoritário na Venezuela”, disse o ex-diplomata norte-americano.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.