Um Brasil mais conservador: qual a profundidade e a extensão deste fenômeno?
Neste debate, Felipe Nunes e Esther Solano analisam o paradoxo do eleitor brasileiro, conservador nos costumes, mas defensor da democracia, e a ascensão do neoconservadorismo no país.
O Brasil tem uma população majoritariamente conservadora no que diz respeito aos costumes, mas com ideias divergentes sobre como a riqueza deve ser gerada e distribuída. Ao mesmo tempo em que manifesta frustração com o funcionamento da democracia, o brasileiro continua a apoiá-la como o melhor sistema de governo. Este é o paradoxo central do eleitor atual.
É um erro tratar conservadorismo, direita e extrema direita como se fossem sinônimos.
Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest e professor da FGV EESP
“É um erro tratar conservadorismo, direita e extrema direita como se fossem sinônimos”, afirmou o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest e professor da FGV EESP, durante webinar realizado pela Fundação FHC. Para Nunes, apenas 3% dos eleitores brasileiros podem ser classificados como de extrema direita. O que os distingue não é apenas o voto, mas uma disposição autoritária — a crença de que uma ditadura pode ser preferível à democracia.
O risco de confundir esse “conservadorismo difuso” com o “autoritarismo organizado” é o de errar tanto no diagnóstico quanto no tratamento do fenômeno, alertou o autor do recém-lançado “Brasil no Espelho: uma reflexão sobre um novo país” (Editora Globo, 2025).
O Neoconservadorismo em Cinco Vetores
A socióloga Esther Solano, que se dedica há anos a pesquisas qualitativas sobre as “novas direitas”, descreve a ascensão de um neoconservadorismo brasileiro impulsionado por cinco vetores principais. O fenômeno se manifesta no “pentecostalismo pop”, na “cultura do agro” e nos reflexos da plataformização do trabalho na subjetividade política.
Além disso, Solano aponta uma nova clivagem geracional e de gênero: enquanto as adolescentes se tornam cada vez mais progressistas, os meninos caminham para um conservadorismo reacionário. Surge também um “novo feminismo de direita”, que concilia o empoderamento financeiro com a preservação de valores tradicionais. “Esses vetores são extremamente eficientes no ecossistema digital, onde a direita hoje atua com muito mais influência”, explicou a professora da Unifesp.
Esses diferentes vetores do neoconservadorismo estão muito presentes no ecossistema digital, onde a direita é cada vez mais influente e eficiente.
Esther Solano, doutora em Ciências Sociais pela Universidad Complutense de Madrid e professora adjunta de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
A Maioria Silenciosa e o Apoio à Democracia
Dados da Quaest reforçam essa distinção: 53% dos brasileiros se autodenominam conservadores, mas esse grupo é heterogêneo. Ele inclui 27% de cristãos, 13% ligados ao universo agro e 7% de liberais. Mesmo nas classes D e E, que historicamente compõem a base do presidente Lula, os valores conservadores são predominantes.
Nunes observa que, embora a direita represente 35% do eleitorado, o núcleo duro autoritário é minúsculo (3%). O problema, segundo ele, foi a convivência tática da direita democrática com a ala autoritária durante os anos Bolsonaro. “Os embates entre conservadorismo e progressismo, entre petismo e antipetismo, entre direita e esquerda são movimentos salutares em uma democracia. O desafio é aprender a lidar com os intolerantes da maneira institucionalmente adequada”, disse Nunes.
Para o cientista político, existem pontos de convergência que podem unir conservadores e progressistas: o desejo por um Estado que entregue educação, saúde e segurança; o combate aos privilégios das elites estatais; e a proteção da família e da fé.
“Algo que unifica a todos é o orgulho nacional: os brasileiros amam seu país, o clima, a cultura, até mesmo o jeitinho brasileiro é visto positivamente como uma forma de sobrevivência. E tem uma música, o ‘hino’ sertanejo Evidências, que todo brasileiro gosta”, brincou Nunes.
O Mundo Digital e as Novas Identidades
A influência da direita no ambiente digital explica-se por uma articulação sofisticada. Nas igrejas neopentecostais, a teologia da prosperidade ressoa com o espírito empreendedor e meritocrático de uma rede de pastores, cantores gospel e coaches. No agro, a valorização da cultura do interior cria uma cena “pop” que atrai não apenas produtores, mas toda uma cadeia de serviços urbana.
A principal novidade, porém, vem dos minigrupos de pesquisa com adolescentes. Solano descreve um cenário de desamparo emocional entre jovens homens que, ao se sentirem desconectados das novas dinâmicas de gênero, encontram acolhimento em comunidades de direita radical.
No campo feminino, a figura de Michelle Bolsonaro simboliza o novo feminismo de direita. “Ele promete o pacote completo: ser uma mulher empoderada e dona do próprio dinheiro, sem abrir mão de ser mãe de família e mulher de fé”, disse Solano. Curiosamente, esse público apoia pautas como o fim da escala 6×1, não por ideologia de esquerda, mas pelo desejo pragmático de passar mais tempo com a família.
O Caminho para 2026: O Peso dos Independentes
Com o cenário eleitoral se aproximando, Nunes aponta que os 10% de eleitores “independentes” serão o fiel da balança. Esse grupo é ambivalente: apoia a democracia e programas de redistribuição de renda, mas é resistente a cotas raciais e crítico ao que considera excessos do STF.
Geograficamente, a disputa será decidida em centros estratégicos como a Grande São Paulo, a Zona da Mata Mineira (especialmente Juiz de Fora), as regiões metropolitanas de Belo Horizonte e a Baixada Fluminense.
No momento, as pesquisas quantitativas indicam um empate técnico entre o presidente Lula (provável candidato à reeleição pelo PT) e Flávio Bolsonaro (pré-candidato do PL indicado pelo pai).
Nas pesquisas qualitativas, o que chama atenção é uma percepção de “apagamento” e “distanciamento do povo” do atual governo — o chamado governo “mais ou menos”. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tem tido sucesso em se vender como uma face mais moderada e independente da família, herdando o capital político do pai sem carregar, por ora, o mesmo desgaste de radicalismo.
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Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.