‘Cenas da Redemocratização’: Brasil está mais desenvolvido, mas vive crise democrática e institucional
O debate marcou o lançamento do projeto que reúne 126 gravações do programa ‘Vamos Sair da Crise’, exibido na TV Gazeta de São Paulo no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, em meio à redemocratização do país.
“Para ter futuro, é preciso ter memória. As gerações mais novas não sabem o que foi a ditadura militar brasileira. A democracia reconquistada há 40 anos é um valor fundamental. O que diferencia os homens e as mulheres públicas é quem tem apreço pela democracia e quem não tem”, disse o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, no lançamento do projeto Cenas da Redemocratização, em 23 de fevereiro na Fundação Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo.
O projeto “Cenas da Redemocratização” — idealizado e coordenado pelo jornalista Alexandre Machado — recuperou, digitalizou e catalogou 126 gravações em fitas VHS do programa “Vamos Sair da Crise”, dirigido e apresentado por Machado na TV Gazeta de São Paulo, no final dos anos 1980 e início da década de 1990.

Foto: Vinicius Doti
“Para quem gosta de política, esse material é uma Disneylândia, uma verdadeira festa. São entrevistas históricas, quase inéditas, que contam a história de uma época, como uma fala do deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em que ele conta que, após uma conversa com o então presidente José Sarney (1985-1990), desistiu de bancar a inclusão do parlamentarismo na Constituição Federal de 1988, e acabou se arrependendo”, disse Machado, ao apresentar o projeto.
“Qual é a importância desse projeto para a Fundação FHC? Uma de suas missões é se constituir com um Centro de Memória e Pesquisa sobre a história do Brasil, com ênfase no período em que FHC teve papel relevante como intelectual e político. O ex-presidente já afirmou que a luta pela volta da democracia foi a causa de sua geração. O programa ‘Vamos Sair da Crise’, agora recuperado e disponível para consulta gratuita no site da Fundação, retrata exatamente esse período da redemocratização do Brasil”, disse o cientista político Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC.
“Na virada dos anos 1980 para os 90, vivíamos enormes dificuldades, com hiperinflação e indicadores sociais muito piores do que temos hoje. Por meio da política, do debate e de muito trabalho, conseguimos superar aquele momento e construir um país mais desenvolvido e democrático. O Brasil hoje está melhor? Sem dúvida. Mas as esperanças minguaram. O que explica esse aparente paradoxo? Como recuperar a esperança na democracia?”, perguntou Fausto, no início do evento.
Democracia brasileira emite sinais preocupantes de decadência, diz Gabeira
“Nossa democracia é uma conquista maravilhosa, mas estou muito preocupado com as instituições democráticas brasileiras, que apresentam sinais alarmantes de decadência”, disse o escritor e jornalista Fernando Gabeira, que atuou na luta armada contra o regime militar no final dos anos 1960, viveu no exílio de 1970 a 1979 (promulgação da Lei da Anistia), foi candidato a presidente da República pelo Partido Verde nas eleições de 1989, deputado federal de 1995 a 2011 e, desde então, se dedica exclusivamente ao jornalismo.
O alto custo das eleições financiadas pelos cofres públicos, a distância entre eleitos e eleitores, o déficit de entrega de serviços públicos de qualidade por parte do Estado, o crescente domínio do Congresso sobre o Orçamento por meio das emendas parlamentares e o protagonismo do Supremo Tribunal Federal são alguns dos sinais preocupantes citados por Gabeira, assim como a insegurança pública.
“Ao deter a tentativa de golpe e coibir as ameaças democráticas dos últimos anos, o Supremo teve papel importante. Mas, de uns tempos para cá, parece viver um processo de ganância (pelo poder). É difícil segurar esse processo de desgaste do Supremo junto à opinião pública. Quem nos salvará dos nossos salvadores?”, perguntou Gabeira.
“Qual será a resposta das eleições gerais deste ano à crise institucional que vivemos? Se quisermos manter nossa democracia de pé, vamos ter que encontrar maneiras de recuperar as nossas instituições”, concluiu.
Esquerda precisa dialogar com a direita democrática para vencer a extrema direita, diz Cantanhêde
“O maior problema do nosso país continua a ser a desigualdade social. Em seguida, vem a crise política decorrente de um sistema que precisa ser repensado. Vivemos uma decadência da política e dos quadros políticos em geral. Não é um problema só do Brasil, mas do mundo todo”, afirmou a jornalista Eliane Cantanhêde, que cobre política em Brasília desde os anos 1970, quando se formou em jornalismo pela UnB.
Cantanhêde lembrou que, quando ela começou a trabalhar em redações aos 19 anos de idade, a maioria dos jornalistas eram homens, mais velhos e tinham fontes sobretudo junto à oposição ao regime militar, ou seja, políticos mais à esquerda do espectro ideológico:
“Havia um vazio na cobertura jornalística com um viés mais à direita. O que é que as autoridades e lideranças políticas ligadas ao regime militar estavam articulando? Decidi fazer algo diferente: ‘Já que a cobertura mais à esquerda está congestionada, vou tentar abrir caminho pela direita’, pensei. Apostei minhas fichas na construção de uma relação com os militares, que mandavam no Brasil na época. Com menos de 30 anos, me tornei a primeira jornalista a ter o telefone direto e acesso à casa do General Golbery do Couto e Silva”, contou.
O general Golbery foi chefe da Casa Civil dos presidentes Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985) e teve papel importante no processo gradual de abertura política. “O Golbery me abriu as portas para o presidente Geisel e os bastidores do regime. Já naquela época, compreendi que as esquerdas sozinhas não tinham força para levar a cabo um processo de redemocratização. Para colocar fim à ditadura, elas necessitavam do apoio de setores da centro-direita e da direita. Foi a abertura de uma dissidência dentro do regime militar que tornou possível a eleição de Tancredo Neves à Presidência da República pelo Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985”, disse.
“Vivemos hoje uma situação parecida. A extrema direita vem forte nas próximas eleições. Para enfrentá-la, a esquerda precisa dialogar com a centro-direita e a direita democrática. Se ficar isolada no Congresso, a esquerda perde. Se optar por fazer campanha sozinha em 2026, corre risco de ser derrotada nas urnas”, alertou a colunista do jornal O Estado de S.Paulo.
“A grande sacada política de 2022 foi a aliança de Lula com Geraldo Alckmin, que está aqui na minha frente. Foi ela que possibilitou a vitória. Em um país polarizado, é preciso juntar forças”, concluiu Cantanhêde.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.








