Enfraquecimento das instituições democráticas nos EUA acontece em ritmo acelerado, alerta Anne Applebaum
Historiadora e jornalista norte-americana esteve em São Paulo para uma conversa sobre o governo Trump e seus impactos no mundo, sobretudo na Europa e no Brasil.
Em 30 de março, a Fundação Fernando Henrique Cardoso recebeu em São Paulo a historiadora e jornalista norte-americana Anne Applebaum — conhecida por seus trabalhos sobre regimes autoritários, história do comunismo e defesa da democracia — para uma conversa sobre o governo Trump e seus impactos no mundo, sobretudo na Europa e no Brasil.
Nascida nos EUA, Applebaum estudou História e Literatura na Yale University e fez pós-graduação em relações internacionais na London School of Economics. Trabalhou no jornal The Washington Post e atualmente é colunista da revista The Atlantic. De família judaica da Europa do Leste, obteve a cidadania polonesa em 2013. Casada com Radosław Sikorski, político que ocupou cargos importantes no governo polonês, vive parte do tempo na residência do casal, nos arredores de Varsóvia. Anne também passa períodos no Reino Unido e nos Estados Unidos, ligados ao seu trabalho acadêmico e jornalístico.
“Por que convidamos Anne Applebaum para estar aqui esta noite?”, perguntou o cientista político Sergio Fausto, diretor geral da Fundação FHC, na abertura do encontro. “Em primeiro lugar, porque ela é uma intelectual pública de projeção internacional, reconhecida por sua notável capacidade de interpretar os acontecimentos contemporâneos com a sensibilidade de uma jornalista bem informada e o rigor de uma historiadora de referência. Em um momento de acentuada turbulência global — talvez sem precedentes nas últimas quatro décadas — não poderia haver ocasião mais oportuna para ouvi-la”, disse Fausto.
“Em segundo lugar, porque a Fundação Fernando Henrique Cardoso e Anne Applebaum compartilham valores e preocupações fundamentais. Compartilhamos os valores da democracia liberal, um sistema que, embora imperfeito, se constrói e se aperfeiçoa continuamente. Compartilhamos, igualmente, a preocupação com o avanço das autocracias em diferentes partes do mundo. Ao longo de sua trajetória, Anne Applebaum tem demonstrado, com clareza e coragem, um compromisso constante com a defesa da democracia liberal — compromisso que também orienta a atuação da Fundação FHC”, continuou.
Selecionamos três perguntas feitas por Fausto e pela jornalista Patrícia Campos Mello, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo, à autora dos livros “Crepúsculo da Democracia: O Fascínio Sedutor do Autoritarismo” e “Autocracia S.A.: Os ditadores que querem dominar o mundo”, ambos publicados pela Editora Record.
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Patrícia Campos Mello – No final de março, o senador Flávio Bolsonaro — pré-candidato à Presidência da República pelo PL, com apoio de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro — participou da conferência Conservative Political Action Conference (CPAC) no Texas e, na ocasião, pediu que os Estados Unidos e o que chamou de ‘mundo livre’ observem as eleições brasileiras e apliquem ‘pressão diplomática’ para garantir eleições livres e justas ‘baseadas em valores de origem americana’. Quais as diferenças entre a forma como a Rússia tem buscado influenciar a política interna de outros países por anos e a maneira como os EUA, com Trump na Casa Branca, pretendem agir?
Anne Applebaum – Há décadas a Rússia conduz operações de influência e desestabilização política, principalmente na Europa. Sempre que surgem divisões baseadas em argumentos nacionalistas, Moscou procura aprofundá-las. O objetivo seria minar instituições europeias, enfraquecer a União Europeia e reduzir a coesão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Nenhum país europeu representa, sozinho, uma ameaça significativa à Rússia, mas o bloco europeu (formado por 27 países) tem uma economia 7 a 8 vezes maior do que a russa e uma população total quase três vezes superior (embora a Rússia tenha um território quatro vezes maior). A Rússia busca exercer influência na política interna de alguns países europeus, ao financiar políticos ou partidos e movimentos que se disponham a atacar a UE e realizar campanhas de desinformação na internet.
Desde o fim da Guerra Fria, pelo menos, os EUA nunca fizeram algo parecido na Europa ou em outras democracias ocidentais. O governo norte-americano não tem uma estrutura para isso, embora ela possa ser desenvolvida. Minha impressão é de que há hoje uma divisão em Washington. Algumas pessoas dentro da administração Trump querem continuar fazendo uma política externa normal e manter relações diplomáticas e comerciais com os outros países pelas vias tradicionais. Se você conversar com qualquer liderança militar norte-americana, por exemplo, ela vai defender exercícios conjuntos com os aliados dos EUA e com a OTAN.
Mas existem pessoas radicais que hoje dão as cartas na Casa Branca e querem mudar tudo. O Departamento de Estado (equivalente ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil), por exemplo, está completamente isolado da diplomacia de Trump. Todas as negociações em que os EUA estão envolvidos no momento — seja para tentar encerrar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a guerra em Gaza ou, agora, a guerra contra o Irã — estão sendo conduzidas por Jared Kushner ou Steve Witkoff, que são empresários do ramo imobiliário, ou por outros enviados de Trump que são pessoas fora do sistema. Com frequência sem pedir informações e subsídios para a CIA, o Pentágono e mesmo o Departamento de Estado. Ou seja, Trump está tentando fazer avançar sua própria política externa contornando as instituições tradicionais da diplomacia norte-americana. Por isso, o governo tem cometido tantos erros, o que explica a decisão de entrar em guerra contra o Irã.
Veja como foi a conversa anterior com Anne Applebaum, realizada em 9 de fevereiro de 2021, pouco depois da posse de Joe Biden na Casa Branca.
Sergio Fausto – A aliança das chamadas Big Techs com Trump representa uma ameaça ao Brasil, no caso de o país decidir levar adiante a regulação das plataformas digitais, como o presidente Lula, candidato à reeleição, já demonstrou a intenção de fazer?
Applebaum – Os donos das grandes empresas de tecnologia do Silicon Valley nunca entenderam muito de política. Em geral, mantinham distância da vida política ou tinham uma proximidade um pouco maior com os democratas. Mas, com a vitória de Trump em novembro de 2024, vários deles viram uma oportunidade de pressionar por uma agenda de não regulação, além de atrair grandes investimentos do governo norte-americano. Existem hoje conflitos de interesse ou mesmo suspeitas de corrupção envolvendo setores do governo e do empresariado em uma escala nunca vista anteriormente na história norte-americana. E isso tudo está acontecendo muito rápido. Por fim, há também uma parte dessa comunidade de tecnologia que é abertamente antidemocrática e tem uma agenda iliberal.
Não há dúvida de que eles gostariam de impor essa agenda antirregulação a outros países. Certamente na UE, que é a única instituição atualmente com poder e condições de regular as Big Techs. Por isso, assim como Putin, Elon Musk apoiou a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita alemão. Provavelmente eles também têm essa agenda aqui no Brasil. Sempre que virem a possibilidade de uma ameaça regulatória real, tentarão achar um jeito de impedir isso. No passado, eles não tinham o governo norte-americano do lado deles. Agora têm.
Campos Mello – Em que momento a democracia norte-americana cruzará o ponto de não retorno, se as atuais ameaças de Trump e do movimento MAGA forem levadas adiante?
Applebaum – É difícil afirmar se existe um ponto de não retorno, até porque quem acompanha a política de perto sabe que ela costuma evoluir em ciclos. Na Hungria, por exemplo, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán governa continuamente desde 2010, instituições democráticas como o Parlamento, o Judiciário e parte da mídia independente foram gradualmente colocadas sob influência do governo. Ainda assim, sinais de reação começam a aparecer, e uma oposição mais organizada tenta gradualmente desafiar o domínio de Orbán e do partido Fidesz.
A diferença entre os Estados Unidos e a Hungria é que o enfraquecimento das instituições democráticas está ocorrendo em ritmo mais acelerado. Em seu primeiro ano, a atual administração de Donald Trump entrou em confronto com diversas instituições do sistema político americano — do Judiciário à burocracia federal e à imprensa — em uma velocidade e em uma escala que muitos analistas consideram sem precedentes na história política norte-americana.
Já começam a surgir algumas reações, como os recentes protestos em diversas partes do país e decisões de tribunais inferiores que contestam atos do governo federal. A Suprema Corte costuma agir com mais cautela e demora, mas também começa a proferir decisões que desagradam Donald Trump, como no caso recente relacionado às tarifas comerciais.
Em novembro, teremos as midterm elections, realizadas no meio do mandato presidencial. Nelas são renovadas toda a Câmara dos Representantes, cerca de um terço do Senado, além de diversos cargos estaduais, como governadores. Nos EUA, não há um órgão eleitoral nacional, o que tem vantagens e desvantagens, mas o fato é que é muito difícil controlar o resultado das eleições nos estados. Na prática, são 50 eleições diferentes. Existe uma tentativa de mudar as regras do jogo a nível federal para tornar mais difícil o comparecimento às urnas de parte da população supostamente inclinada a votar majoritariamente no Partido Democrata. Também há tentativas de redesenhar os distritos eleitorais para favorecer candidatos republicanos, como foi feito recentemente no Texas, mas parece que o resultado pode ser diferente do que o previsto.
Enfim, é difícil prever o que vai acontecer, mas, se os republicanos saírem vitoriosos das eleições de novembro próximo e conquistarem a Casa dos Representantes e o Senado, é possível que um futuro candidato democrata, se eleito, enfrente dificuldades até mesmo para tomar posse. Por isso, é importante que o Partido Democrata garanta pelo menos a maioria na Câmara, o que colocaria um limite às intenções de Trump na segunda metade de seu mandato.
Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.





