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México e Brasil nos governos López Obrador e Bolsonaro

/ auditório da Fundação FHC


“Andrés Manuel López Obrador (AMLO) é um típico ‘priista’ dos anos 1960 (relativo à sigla PRI, partido que dominou a política mexicana de 1929 a 2000). Promete recriar uma época de ouro em que havia ordem e estabilidade política, não havia violência e o país crescia 7%, 8% ao ano. Mas será que é possível governar com nostalgia em pleno Século 21?”

Luis Rubio, presidente do Conselho Mexicano de Assuntos Internacionais (COMEX)

“López Obrador sonha com um retorno aos 60. Bolsonaro também foi eleito com um discurso nostálgico do regime militar (1964-1985). Diante das incertezas do presente, ambos têm o reflexo instintivo de se agarrar ao passado em vez de apostar no futuro.”

Sergio Fausto, cientista político, é superintendente executivo da Fundação FHC


O novo presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador (ou AMLO, como é conhecido em seu país), “é um político da velha guarda do princípio ao fim, centralizador, nacionalista e acima de tudo estatista”, disse o mexicano Luis Rubio, do ‘think tank’ México Evalúa-CIDAC, em palestra realizada na Fundação FHC poucos dias antes da posse ocorrida em 1º de dezembro último (leia reportagem do G1). O evento teve comentários de Sergio Fausto, superintendente executivo da Fundação FHC, e também contou a participação do embaixador mexicano no Brasil Salvador Arriola e do diplomata brasileiro Michel Arslanian Neto, diretor do Departamento de Integração Econômica Regional do Ministério das Relações Exteriores.

Algumas semanas antes, o cientista político mexicano Fernando Nieto Morales também esteve na Fundação para comentar os resultados da eleição: “A vitória arrasadora de AMLO em todo o país se explica pelo agravamento, desde o fim do regime autoritário do PRI há 18 anos, de três problemas endêmicos do México: a desigualdade social, a insegurança e a corrupção/impunidade”, disse o professor do Centro de Estudos Internacionais do Colégio do México.

“Desde que o PRI (Partido Revolucionário Institucional) perdeu a hegemonia absoluta do poder político em 2000 (com a eleição do empresário Vicente Fox, de centro), vários partidos se alternaram no poder, mas não houve verdadeira renovação das elites políticas e os legados autoritários permanecem. López Obrador foi eleito com a promessa de mudar tudo isso. Os mexicanos querem respostas rápidas e o risco de mais uma frustração é grande”, afirmou o cientista político.

        De esquerda, mas conservador

Ambos afirmaram que AMLO, embora de esquerda em termos econômicos, em questões morais é conservador. “Seu foco é o eleitor médio mexicano, católico e não progressista. Ele não é muito afeito a temas relacionados à diversidade, como os direitos das mulheres e o casamento gay”, afirmou Nieto Morales. Após ter governado a Cidade do México de 2000 a 2005, concorreu ao cargo de presidente pela primeira vez em 2006, quando perdeu por uma diferença de menos de 1% de votos. Naquele ano, o advogado e economista conservador Felipe Calderón teve 35,89% dos votos na eleição de um só turno; López Obrador, 35,31%. Houve denúncias de fraude, mas a justiça eleitoral confirmou o resultado.

AMLO voltou a concorrer em 2012, mas foi derrotado pelo também conservador Enrique Peña Nieto (39% a 32%, aproximadamente). Em 1º de julho deste ano, em sua terceira tentativa, o esquerdista finalmente saiu vitorioso com 53%. Seu movimento político, MORENA (fundado recentemente), conquistou ampla maioria no Congresso e praticamente todos os governos locais. Diante do enorme capital político obtido nas urnas, o novo chefe de Estado, frequentemente comparado ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu levar a cabo “a quarta transformação do México”. As três primeiras foram a independência (1821), a secularização (separação entre Igreja e Estado, em 1857) e a Revolução Mexicana (1910/11).

        Introspecção na política externa

Segundo Rubio, AMLO não entende a globalização, as cadeias integradas de valor e as rápidas transformações da era digital, entre outros fenômenos do Século 21. “Ele acredita em governo forte e centralizado e em um setor privado cujas decisões de investimento dependem de autorização estatal, como ocorria na década de 60. A única forma de recriar aquela época é destruir o que existe hoje, mas será que isso é factível?”, perguntou.

        O palestrante, que já foi diretor do Citibank no México e conselheiro do Secretário do Tesouro, antecipou algumas das possíveis dificuldades que o novo presidente poderá enfrentar:

- Dogmatismo vs. pragmatismo
Dogmático em seus objetivos políticos, López Obrador terá de agir com pragmatismo em relação à economia. “Ele tentará colocar em prática medidas de impacto político e social, mas precisará estar atento a seus impactos econômicos para evitar uma crise”, disse.

- Contradições na base de apoio
Segundo Rubio, AMLO foi eleito com votos da esquerda à direita. “Há desde ex-guerrilheiros, ex-trotskistas e antigos sindicalistas a profissionais liberais e senhoras da sociedade cansados de corrupção, estudantes e pessoas mais pobres. Não será fácil contentar a todos”, afirmou.

- Poder absoluto e ausência de contrapesos
Embora reúna amplo apoio político na sociedade, no Parlamento e nos governos estaduais para tocar adiante seus projetos neste início de governo, a falta de contrapesos políticos e institucionais pode se tornar um problema. “Se tentar se impor ao setor privado, aos sindicatos e aos meios de comunicação, tratando-os como inimigos, a médio prazo as resistências tendem a crescer e a se agravar”, disse.

- Distanciamento dos EUA e desinteresse por política externa
Para Rubio, o novo presidente acredita que a melhor política externa é uma boa política interna. “Em relação aos Estados Unidos, há uma busca permanente de distância e uso recorrente da palavra respeito. Embora diga que pretende estreitar laços com a América Latina, não o vejo ativo na região. AMLO deve ser um presidente introspectivo, que viajará pouco”, afirmou.

        México e Brasil: rumos opostos?

“É fato que militares de alta patente ocuparão posições chave no novo governo e que a equipe econômica de Bolsonaro (liderada pelo futuro ministro Paulo Guedes) é liberal. Não sei o que vai acontecer, mas não será uma simples volta ao passado (repetição dos embates entre militares nacionalistas e ministros liberais na área econômica)”, disse Sergio Fausto, superintendente executivo da Fundação FHC, ressaltando que o governo de AMLO será mais nacional-estatista que o de Bolsonaro.

O cientista político lembrou que os novos chefes de Estado têm perfis bem distintos: “Bolsonaro é um capitão reformado que não teve uma trajetória militar brilhante e, na política, até recentemente era uma figura menor (embora exerça seu sétimo mandato como deputado federal). Já AMLO é uma velha liderança da esquerda mexicana, com sólida formação em ciência política e amplo domínio da retórica e do imaginário político em seu país.”

Ambos deverão enfrentar dificuldades, mas o futuro presidente do Brasil não terá, ao menos de partida, condições de governabilidade tão favoráveis como as de seu colega mexicano, principalmente devido à fragmentação partidária e à crise do chamado presidencialismo de coalizão. “Transitaremos daquele modelo aparentemente esgotado para um presidencialismo de coação? É apenas uma hipótese, mas é possível”, disse Fausto. “Por outro lado, no Brasil há mais pesos e contrapesos (ao poder do presidente), o que pode ser uma desvantagem mas também uma vantagem, no sentido de evitar uma crise maior”, concluiu. 

       Rivalidade histórica

Tanto o embaixador mexicano Salvador Arriola como o diplomata brasileiro Michel Arslanian Neto, do Departamento de Integração Regional do Ministério das Relações Exteriores, defenderam que os governos AMLO e Bolsonaro se esforcem para deixar definitivamente para trás um distanciamento histórico entre os dois maiores países latino-americanos. “Creio que o impulso principal (para uma maior aproximação entre Brasil e México) virá dos setores privados de ambos os países”, disse Arriola. “É verdade que, no passado, houve uma competição diplomática em torno de quem teria um papel hegemônico na região, mas isso já foi superado com a crescente convergência econômica”, disse Arslanian Neto.

Arriola defendeu que Brasil e México avancem lado a lado em relação ao cumprimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU). “Reduzir a pobreza e a desigualdade e proteger os direitos humanos são desafios mútuos, assim como avançar em relação ao cumprimento das metas do Acordo de Paris (sobre a mudança do clima). Para que isso seja possível, é fundamental que ambos os governos, apesar das diferenças, mantenham um bom diálogo no cenário multilateral”, disse.

       Perto de um acordo histórico?

Arslanian Neto, que dirige o Departamento de Integração Econômica Regional do Itamaraty, propôs um esforço para concluir o mais rapidamente possível a atualização do acordo de cooperação econômica entre Brasil e México, firmado em 2002. “O desafio é ampliar e aprofundar as preferências tarifárias, mas incluir também temas contemporâneos, como meio ambiente, questões trabalhistas, redução de burocracia nas fronteiras, aproximação regulatória e digitalização de processos. Acabamos de assinar um novo acordo com o Chile que cobre todas essa questões”, disse. Com os países da ALADI (Associação Latino-Americana de Integração), caso do México, os membros do Mercosul podem fazer acordos bilaterais sem obrigação de que os demais participem do mesmo acordo. 

“Não estamos distantes da conclusão de um novo acordo de importância histórica, que levaria a relação a um patamar muito superior”, ressaltou o diplomata brasileiro, que também defendeu uma aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico (formada por México, Colômbia, Peru e Chile). “A consolidação desse espaço de integração regional seria uma plataforma para o relacionamento de toda a região com a Ásia e o resto do Pacífico”, disse.

Outro tema importante na relação bilateral nos próximos anos serão os esforços regionais para encontrar uma solução pacífica para a crise na Venezuela.

“Não há dúvida de que as relações pessoais importam, mas, seja qual for o futuro dos governos López Obrador e Bolsonaro, as relações de médio e longo prazo entre os dois países são prioritárias e devem ser levadas em consideração por ambos”, afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao final do evento.

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Assista ao Diálogo na Web Vamos falar de democracia em 2019, com Matias Spektor, professor de relações internacionais da FGV, e Jaime Spitzcovsky, jornalista especializado em questões internacionais.

Otávio Dias, jornalista, é especializado em política e assuntos internacionais. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.

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