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Pandemias no curso da história: lições do passado para o mundo pós Covid-19

/ Transmissão online - via Zoom


Pandemias são catalisadoras de processos que já vinham ocorrendo, mas é exagero imaginar que delas surgirá um mundo inteiramente novo. Foi o que disse o embaixador Rubens Ricupero neste webinar sobre o impacto das pandemias ao longo dos séculos.

Ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e da Amazônia Legal (Governo Itamar Franco), Ricupero foi secretário-Geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e serviu como embaixador do Brasil nos Estados Unidos e nas Nações Unidas em Genebra, entre outros postos relevantes. É autor de vários livros, entre eles “A diplomacia na construção do Brasil 1750-2016”. 

Com a chegada do novo coronavírus, tem se dedicado a estudar a história das epidemias para entender suas marcas demográficas, políticas, socioeconômicas e culturais ao longo dos séculos. Também participaram da conversa o sociólogo Demétrio Magnoli, doutor em Geografia Humana pelo Departamento de Geografia da FFLCH-USP e colunista da Globo News e do jornal O Estado de S.Paulo, e o cientista político Sergio Fausto, diretor da Fundação FHC.   

Leia os principais trechos da entrevista.

Demétrio Magnoli - Diversos líderes mundiais comparam a pandemia de Covid-19 às grandes guerras mundiais. Para alguns comentaristas mais à esquerda, a atual crise levará ao fim do capitalismo. Outros mais liberais alertam para o risco de sociedades cada vez mais controladas pelo Estado, no estilo big brother. É isso mesmo, Rubens? O século 21 será dividido em a.C e d.C: antes e depois do coronavírus?

Rubens Ricupero - (risos) É verdade, Demétrio, de cada dez artigos que lemos, nove dizem que desta crise surgirá um mundo inteiramente novo. Igual não será, mas creio haver um certo exagero quando se fala em fim do capitalismo, da globalização ou no advento de uma hegemonia global chinesa. De fato, as duas Grandes Guerras do século 20 abalaram a ordem mundial vigente antes delas. Antes da Primeira Guerra (1914-1918), o mundo era dominado por impérios como Austro-Húngaro, Otomano, Czarista e Alemão, que desabaram ao final daquele conflito. O Britânico resistiu um pouco mais, mas já em declínio. A Segunda Guerra (1939-45) teve impacto ainda maior no sistema internacional. Sob a liderança dos EUA, que se consolidaram como superpotência após 1945, foram criadas diversas novas instituições que desempenharam papel essencial durante toda a segunda metade do Século 20, como a ONU, o Banco Mundial, o FMI e o GATT (depois OMC), entre outras. Toda essa estrutura já estava sob ataque antes do coronavírus. O Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, está completamente paralisado, não votou nenhuma resolução relativa à pandemia, principalmente devido ao bloqueio por parte do atual governo americano. Mas guerras são diferentes de pandemias. 

Desde o início do século 20, tivemos sete epidemias antes da atual: as gripes Espanhola (1918-19), Asiática (1957-58) e de Hong Kong (1968-69), a Aids (surgida em 1982, continua a infectar milhares até hoje), a SARS (2002-04), a MERS (2012) e a epidemia de Ebola (na África Ocidental em 2014). Algumas se espalharam pelo globo e se transformaram em pandemias.

Com duração média de 12 a 18 meses, as grandes pandemias deixaram profundas marcas demográficas, políticas, socioeconômicas e culturais ao longo dos séculos, mas nenhuma delas alterou as estruturas do mundo na época em que aconteceram. É preciso ter cautela em relação a essas previsões definitivas.
 

Veja também como foi o webinar:

China e o novo coronavírus:  desafios em um mundo interconectado


Sergio Fausto - Embaixador, o sr. tem se dedicado a ler e estudar sobre as pandemias do passado. O que nos diz essa literatura?

Ricupero - Grandes provações revelam e agravam o que já estava latente. A Peste Negra, que matou dezenas de milhões na Europa no século 14, não foi um fenômeno isolado, antes houve grandes epidemias de fomes, em parte provocadas por mudanças climáticas e por conflitos como a Guerra dos Cem Anos. O feudalismo, cujo auge ocorreu no século 12, já estava em decadência, mas durante a Peste Bubônica (outro nome para a epidemia) morreram muitos servos, que eram a base do sistema econômico da época medieval. Com a peste, a oferta de mão-de-obra se reduziu brutalmente, apressando o fim de uma era. 

A literatura da época também mostra que houve um choque profundo na mentalidade e na psicologia do homem europeu. Dante Alighieri (1265-1321) ainda é um homem medieval e sua obra reflete isso. Mas ao lermos outros dois grandes autores italianos que nasceram poucas décadas depois, Petrarca (1304-74) e Boccaccio (1313-75), percebemos que, diferentemente de Dante, eles já não têm tantas certezas e suas obras trazem uma visão mais pessimista do mundo. Ambos perderam suas musas inspiradoras e foram duramente atingidos pela epidemia. Para Petrarca, 1328 foi o ano que marcou ‘o fim de nossas vidas e esperanças’. Comamos e bebamos porque vamos morrer, sugere Boccaccio em sua obra. O impacto da epidemia nas crenças tradicionais — a Igreja Católica, que teve papel central na Idade Média, estava desgastada — também contribuiu para o advento da Reforma protestante (iniciada pelo alemão Martinho Lutero em 1517).

Fausto - Analisemos algumas polaridades e dicotomias do presente. A pandemia acentuará o unilateralismo ou produzirá maior cooperação internacional? Aumentará o protagonismo global da China, em detrimento dos EUA? Quais tendências já existentes devem se acelerar e quais podem ser inibidas?

Ricupero - Para entender os possíveis impactos, temos de ter dimensão adequada do tempo, avaliar o curto, o médio e o longo prazo. O longo prazo é o das tendências seculares, que demoram 200, 300 anos para surgir, se desenvolver e se consolidar. O capitalismo, por exemplo, levou bem mais de um século para chegar onde chegou e se tornar o sistema econômico e produtivo dominante no Século 20. É verdade que ele está sob questionamento, principalmente devido à questão da desigualdade social, mas não é de uma hora para outra que vai ruir. 

Quanto à globalização, é um equívoco imaginar que a atual pandemia a destruirá, no máximo irá temperá-la. Esse processo foi impulsionado por um conjunto de fatores como a revolução nos transportes e na comunicação e as inovações tecnológicas digitais. Cada vez mais seres humanos de diferentes culturas podem trocar ideias, bens e serviços instantaneamente. Isso não vai acabar, pelo contrário, vai se acelerar. A essência do processo de globalização é parecida com a evolução plurissecular do capitalismo. 

O curto prazo é a conjuntura atual. Antes mesmo da eleição de Trump (2016), já percebíamos uma erosão da arquitetura internacional construída no pós-guerra. É um fenômeno que vem se acentuando. Desde o início da pandemia, a cooperação internacional tem sido insuficiente, mesmo dentro da União Europeia, fundada no multilateralismo. Os líderes europeus foram pouco solidários com seus colegas de países mais atingidos inicialmente, como Itália e Espanha. Agora discutem pacote de ajuda, mas com muita dificuldade. A ONU está paralisada. Temos no mundo hoje quatro centros de poder com capacidade de influenciar globalmente em maior ou menor medida. Os principais são os EUA, sob Trump, e a China, de Xi Jinping. Tem a Rússia, controlada por Putin, com certo grau de influência principalmente devido a seu poder militar. E a Europa, com uma grande população e forte economicamente, mas sem unidade e consistência política. Qualquer tentativa de reforçar a cooperação internacional a curto prazo depende, portanto, de uma melhora nas relações entre Washington e Pequim. Alguém acredita que Trump, se reeleito em novembro próximo, tomará alguma atitude nesse sentido? Se derrotado, muita coisa pode mudar, mas o sentimento anti-China é difuso nos EUA e inclui também líderes do Partido Democrata. A mentalidade das lideranças não mudará por um passe de mágica. Como dizia Yeats (poeta irlandês que viveu entre 1867 e 1939), ‘os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores estão repletos de uma intensidade apaixonada’.

Já a progressiva mudança do eixo de poder econômico do Ocidente para o Leste Asiático é uma tendência de médio prazo, começou nas últimas décadas do século 20 e vinha se aprofundando. Não é só a China, mas a Índia, a Coreia do Sul e outros países do Leste Asiático. É algo irreversível, a não ser que haja uma ‘guerra quente’ entre EUA e China, com consequências drásticas para o mundo todo. O mais provável é que a ascensão da Ásia ganhe nova dinâmica.

Demétrio - Segundo ambientalistas, chegou a hora de um mundo mais verde e sustentável. Como a pandemia impacta a questão ambiental? 

Ricupero - O aquecimento global, o derretimento de grandes depósitos de gelo (no Ártico e na Antártida, assim como nas cordilheiras mais altas do mundo) e o aumento do nível do mar, tudo isso são fenômenos que têm origem no modelo de desenvolvimento econômico surgido no século passado, vêm se acentuando rapidamente nas últimas décadas e terão impacto por muitos e muitos séculos. Com a redução da circulação de pessoas e das atividades econômicas durante a pandemia, vimos sinais rápidos de redução da poluição em algumas regiões, mas isso obviamente não é suficiente para mudar o curso das mudanças climáticas. Ações concretas de todos os países e de suas populações são essenciais para desacelerar e reverter o aquecimento global, mas este deve ser um compromisso permanente da humanidade, de longuíssimo prazo.

Demétrio - A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem demonstrado ser um foro eficiente de enfrentamento de uma pandemia dessas dimensões ou também falhou?

Ricupero - Entre 1987 e 1991, fui embaixador do Brasil junto a todas as organizações da ONU em Genebra, conheço bem a OMS. Aliás, o primeiro diretor geral da OMS foi um brasileiro, o médico Marcolino Candau. A OMS tem seus méritos, mas seu mandato é limitado. Monitora a evolução da pandemia, divulga informações e faz sugestões aos países, mas não tem poder para impor medidas. E depende de recursos transferidos pelos países. Trump acaba de suspender a contribuição dos EUA. Líderes mundiais sempre fazem esse tipo de chantagem. Quando estive na Unctad, os EUA pediram minha cabeça ao secretário geral da ONU. Na prática, o planeta não tem um sistema para prevenir e combater pandemias. 

Fausto - Uma das demandas que vemos hoje é de fortalecimento do Estado protetor, devido à crise econômica, a queda abrupta de renda e o aumento do desemprego. 

Ricupero - Sim, o Estado de bem-estar social é uma herança da Segunda Guerra, que acentuou a percepção de que algo precisava ser feito para proteger os mais pobres. Virou uma bandeira da social-democracia europeia, com efeitos muito positivos nas décadas seguintes. Nos últimos anos, vinha perdendo força, mas a pandemia reforçou a desigualdade social. Pode acontecer algo importante nessa área. Os países deveriam valorizar os cuidados com os mais fragilizados, os idosos, as crianças, os doentes. Muitos empregos poderiam ser criados com esse objetivo. É interessante observar que países conduzidos por mulheres, como a Alemanha e alguns países escandinavos, tiveram mais sensibilidade para enfrentar a pandemia do que os dirigidos por homens. Vejo alguns desafios centrais para os próximos anos: governança global, combate ao desemprego, redução da desigualdade e a questão ambiental. A ciência, acima de tudo, deve ser fortalecida e valorizada.

Fausto - Não podemos terminar nossa conversa sem uma avaliação sua sobre a atual política externa brasileira. O Itamaraty sempre soube navegar em mares incertos em benefício dos interesses do país. Com o comando que temos hoje no Ministério das Relações Exteriores, o que nos resta é apertar os cintos?

Ricupero - A atual política externa brasileira é um não-objeto. Como não existe um pensamento articulado, coerente, temos de julgar por fragmentos. As postagens do ‘antiministro’ em seu blog estão no campo da teologia barata, da patologia das doenças sociais e das degenerescências da mente humana. Podemos gostar ou não gostar das políticas de ministros como Paulo Guedes e Teresa Cristina, mas elas têm um rumo. No caso da Educação, do Meio Ambiente e das Relações Externas, o que vemos é puro obscurantismo e fanatismo ideológico. Não dá para conversar com essa gente e não há nenhuma perspectiva de melhora neste governo.

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Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC. 

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