Ir para o conteúdo
Logotipo do FFHC Menu mobile

/imagens/25/95/pdt_bnn_12595.jpg

Iniciativas » Debates

Pandemia e transformação digital: as mudanças na vida das pessoas e das empresas

/ Transmissão online - via Zoom


Após a pandemia do Novo Coronavírus, os hábitos e as tecnologias digitais vão fazer parte da vida das pessoas e das empresas com intensidade ainda maior do que já vinha ocorrendo anteriormente. Sairão mais fortes aqueles que souberem se adaptar e aproveitar melhor as oportunidades, seja por possuírem mais recursos financeiros e humanos ou por serem mais ágeis e criativos.

“Essa pandemia já nasce digital, pois surgiu na Província de Wuhan e logo chegou a Shenzhen, dois polos de tecnologia da China. Em seguida, o Novo Coronavírus se alastrou para a Coreia do Sul e o Japão, o norte da Itália, a Califórnia, onde fica o Silicon Valley, e o estado norte-americano de Washington, sede da Microsoft e da Amazon. Todos essas regiões estão fortemente interligadas pelo tecnologia, com intensa movimentação de pessoas, informação, serviços e produtos entre elas”, disse Pedro Doria, um dos jornalistas brasileiros que mais entende de tecnologia, neste Webinar realizado pela Fundação FHC.

 “A preferência do consumidor pelos canais digitais, tendência que já vínhamos observando, vai se consolidar e as empresas terão de melhorar rapidamente a qualidade, o desempenho e a integração desses canais, pois o cliente exigirá uma experiência semelhante à oferecida por líderes digitais como Amazon e Netflix, entre outros”, afirmou Heitor Martins, sócio-sênior da McKinsey & Company no Brasil e líder da McKinsey’s Digital Practice na América Latina.

Apesar de concordarem que haverá uma aceleração da transformação digital que já estava em curso, Doria e Martins têm visões diferentes, mas também complementares, sobre a profundidade e o alcance das mudanças nos próximos meses e anos.

       Saiba mais:

       Que respostas o Brasil deve dar aos efeitos socioeconômicos do Coronavírus?

       Doria: ‘avançar no trabalho, na educação e na medicina online’

“Vamos demorar para sair do isolamento social, seja ele mais ou menos rígido e, já que a Covid-19 nos obrigou a rever hábitos e processos, o melhor a fazer é abraçar a mudança e avançar no trabalho online, na educação a distância e na telemedicina”, disse Doria, colunista de tecnologia dos jornais O Estado de S.Paulo, O Globo e da rádio CBN.

“A tecnologia digital é preciosa para superar a pouca oferta em educação e saúde nas regiões mais remotas do Brasil. No ensino básico e, em certa medida, no médio, a presença física do professor continuará sendo importante. Mas, no momento de se preparar para o Enem e o vestibular, os jovens buscam cada vez mais conteúdo gratuito como vídeos didáticos com professores famosos e exercícios online”, disse. “No ensino superior, nada impede que um jovem do Acre se forme em direito pela USP, sem precisar bancar o alto custo de viver em São Paulo. Basta a universidade superar o tabu do ensino a distância, que ainda existe.”

A medicina remota também pode ser útil para garantir que brasileiros de todas as regiões tenham acesso a atendimento básico (ainda que essa opção não deva ser a única disponível nem algo permanente). “Um dos principais gargalos do SUS é conseguir que médicos formados nos centros urbanos aceitem se mudar para cidades pequenas e distantes. Claro que a presença do médico é necessária de tempos em tempos e fundamental em casos mais graves, mas os problemas de saúde, em sua maioria, podem ser prevenidos ou solucionados a distância”, afirmou o fundador do Canal Meio, newsletter que resume com rapidez notícias devidamente checadas logo cedo.

“As ferramentas existem, como estamos comprovando agora nesse período de isolamento social. Só é preciso consolidar novos hábitos, rever processos e melhorar a estrutura”, disse Doria.

       Leia também:

       O que já aprendemos sobre a pandemia? Entrevista com André Medici (Banco Mundial)

       Martins: ‘Retomada gradual precisa ser bem planejada’

Formado em Administração Pública pela FGV, com MBA na Universidade de Michigan (EUA), Heitor Martins apresentou um gráfico desenvolvido pela Mckinsey que mostra os 5 degraus que as empresas deverão escalar nos próximos meses e anos para se adaptar aos desafios e às mudanças impostas pela pandemia.

“Nos primeiros dias, todos os executivos estavam absortos em resolver urgências, como a viabilização do trabalho a distância ou a adoção de protocolos de proteção de funcionários e clientes. Em seguida, tiveram de pensar em como gerir o caixa, manter as cadeias de suprimento e distribuição. Agora, começam a planejar o retorno das atividades, que não deve ser tão rápido como foi a parada. Como as empresas voltarão a atuar com certo nível de eficiência em uma nova realidade híbrida, repleta de incertezas?”, perguntou.

Segundo Martins, a maior parte de seus clientes está saindo do estágio 2 e entrando no 3: “Essa escadinha será a sequência natural de evolução das empresas. Quanto mais esse processo for pensado e planejado, melhor serão os resultados a médio prazo.”

Para Heitor, que desde 2014 preside o MASP (Museu de Arte de São Paulo), não é possível dizer que o home office será adotado de forma mais ampla e permanente pela maioria das empresas. “Em um primeiro momento, a sensação é de surpresa e até mesmo entusiasmo porque o trabalho a distância está fluindo. Mas o metabolismo das empresas e dos negócios está em um nível muito baixo e isso é insustentável a médio prazo. Além disso, boa parte dos funcionários vive com a família em casas pequenas e é difícil conciliar o trabalho com a rotina doméstica. Muitos ficarão aliviados quando forem chamados de volta aos escritórios”, disse.

Segundo o sócio da McKinsey, uma das principais consultorias globais, será necessário fazer uma análise cuidadosa do ramo de atividade e da função para então decidir que tipo de trabalho pode continuar sendo realizado remotamente (e com que frequência) e o que deve voltar a ser presencial e centralizado.

       Doria: pandemia ressalta ‘desigualdade de acesso e uso da tecnologia’

O jornalista especializado em tecnologia salientou que a pandemia do Novo Coronavírus tem impactos diferentes na estrutura de telecomunicação, “não só física, mas humana”. 

“Somos uma Belíndia também quando o assunto é acesso e uso da tecnologia. Nos Jardins ou em Ipanema, assim como em bairros nobres de Recife ou Porto Alegre, a estrutura digital dá conta do aumento do tráfego online,  as pessoas estão se virando bem e até gostando das novidades. Estamos falando das classes média e alta, que têm emprego formal, vivem com conforto e cujos filhos estão estudando em casa nesse período”, lembrou. 

Belíndia é um país imaginário, criado por Edmar Bacha nos anos 70, para se referir ao contraste social no Brasil, entre uma parte menor parecida com a pequena Bélgica, então um dos países mais ricos do mundo, e a imensa Ìndia, à época um dos mais pobres. 

“Mas vimos nos últimos dias como muita gente menos favorecida, que trabalha informalmente e perdeu a renda, sofreu para se cadastrar para receber o auxílio emergencial do governo. Tiveram dificuldade para baixar o aplicativo ou reunir as informações necessárias, muitos precisaram se aglomerar em filas. Infelizmente, a desigualdade social, de oportunidades e condições de vida serão ainda mais realçadas”, disse Pedro.

       Empresas líderes serão favorecidas, mas há espaço para inovação e criatividade

Para Heitor Martins, as empresas líderes em cada setor — as chamadas incumbentes — têm a vantagem de ter maior fôlego financeiro para enfrentar as dificuldades e incertezas momentâneas e investir para recuperar espaço assim que o pior passar. “Os atacantes têm a desvantagem de ter sua capacidade de financiamento comprimida e correm o risco de perder vitalidade”, disse.

“Num segundo momento, as empresas vencedoras poderão expandir sua participação no mercado, por meio de aquisição ou fusão de concorrentes e desafiantes em situação financeira e de mercado mais delicada. Creio que será inevitável uma readequação do ambiente produtivo pós-pandemia”, disse o consultor.

Já Pedro Doria destacou a importância de ser criativo e saber aproveitar as chances que surgem: “O setor manufatureiro ainda depende da presença de trabalhadores no chão da fábrica e vai sofrer mais. Embora já seja uma realidade, a impressão 3D ainda levará anos para se consolidar. Mas em outros setores, como o comércio varejista e o de serviços, a crise traz uma oportunidade única para as empresas ampliarem sua base virtual e quem souber ser criativo e inovador vai sair vitorioso.” 

       Daqui a 100 anos, o que dirão os historiadores?

Já na parte final do webinar, o cientista político Sergio Fausto fez uma provocação aos debatedores: “Daqui a 100 anos, o que os historiadores dirão deste momento que estamos vivendo, obviamente a partir da experiência e da perspectiva de cada um de vocês? Será um divisor de águas ou uma nuvem de poeira em meio a um processo que já vinha acontecendo?”, perguntou o diretor da Fundação FHC.

“Quando estamos no meio da crise, tudo parece especialmente dramático, mas a longo prazo creio que a pandemia será vista mais como um catalisador de transformações inevitáveis”, disse Heitor Martins.

Pedro Doria — autor de livros de história para o grande público, principalmente estudantes, entre eles “1565”, que reconstrói a história do Rio de Janeiro em seus primeiros dois séculos, e “1789”, sobre a Inconfidência Mineira — salientou a possibilidade de o Novo Coronavírus ter significativo impacto político nos próximos anos, com uma possível perda de força do que ele chamou de “populismo contemporâneo de cunho autoritário”.

Segundo o escritor, existe uma diferença importante entre o atual momento que vivemos e a década de 1920 na Europa. “Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Gripe Espanhola (1918-1920), a crise social e econômica generalizada abriu caminho para o surgimento de movimentos nacionalistas e populistas, como o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Um século depois, pode acontecer o contrário”, disse.

“Líderes populistas estão no poder em vários países, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil, entre outros. Representantes de um ludismo contemporâneo anticientífico e antitecnológico, esses governantes estão perdidos e não estão sabendo construir um discurso adequado à gravidade do momento. É cedo para afirmar, mas é possível que ocorra uma reversão desses movimentos populistas e nacionalistas”, continuou.

Ele também destacou a diferença com que China e Alemanha, segunda e quarta maiores economias do planeta, estão lidando com a crise. “A China, que é uma superpotência totalitária, obteve êxito no controle da pandemia por meio de rígida vigilância do movimento de seus cidadãos, utilizando-se para isso de um dos mais complexos e eficientes sistemas de monitoramento tecnológico do planeta”, explicou.

“Já a Alemanha, um dos exemplos mundiais de democracia liberal consolidada, optou pelo caminho da informação de qualidade, baseada em fatos e informações científicas. Angela Merkel apostou no respeito aos direitos individuais e, ao explicar tudo o que estava acontecendo de forma clara e transparente, obteve resposta por parte da sociedade alemã, que optou por ficar em casa”, continuou.

“A experiência alemã mostra que o rompimento da privacidade e dos direitos individuais não é o único caminho mesmo diante de uma ameaça do tamanho da representada pelo Novo Coronavírus. Esse embate entre as experiências chinesa e alemã será um grande tema de debate para a próxima década, com consequências de longo prazo”, concluiu.

       Veja como foi o Webinar:

      China e o Novo Coronavírus: desafios em um mundo interconectado


Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

Mais sobre Debates