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Opções do Japão em um mundo turbulento: navegando nos anos de Trump

/ auditório da Fundação FHC


“Desde o final da 2ª Guerra Mundial o Japão apostou todas as suas fichas na aliança militar com os Estados Unidos e em uma ordem internacional liberal suportada por Washington. Se os EUA desistirem desse papel, as consequências para nós serão muito sérias.”

Toshihiro Nakayama, professor de política norte-americana e política externa na Universidade Keio (Tóquio)

O Japão não tem um ‘plano B’ para sua política de segurança baseada na aliança militar com os Estados Unidos, estabelecida após a rendição dos japoneses em 1945 e que possibilitou ao arquipélago se reerguer das cinzas e viver um longo período de estabilidade política e desenvolvimento econômico. A única opção de Tóquio é um ‘plano A+’, que consiste em redobrar os esforços para garantir a continuidade da aliança estratégica com Washington. 

Foi o que disse o professor Toshihiro Nakayama, especialista em política norte-americana e relações internacionais da Universidade Keio (Tóquio), ao falar sobre os desafios decorrentes da chegada de Donald Trump à Casa Branca (2017) no seminário “Opções do Japão em um mundo turbulento: navegando no anos de Trump”, realizado na Fundação FHC, com apoio do Consulado do Japão em São Paulo.

“Ainda não sabemos se Trump, ao defender ideias bastante diferentes daquelas que fundamentaram toda a relação entre Japão e EUA por mais de sete décadas, é um ponto fora da curva ou algo que veio para ficar”, disse o pesquisador visitante do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington (EUA), e ex-assistente especial da Missão Permanente do Japão junto à ONU.


Segundo o palestrante, causaram enorme apreensão em Tóquio declarações de Trump de que, com sua eleição, “a América seria colocada em 1º lugar”, os EUA “não estariam mais dispostos a pagar a maior parte da conta” para defender aliados mundo afora e “acordos e tratados internacionais estariam comprometendo a soberania e a economia norte-americana”.

Desde o fim da 2ª Guerra, o Japão abriu mão de ter uma capacidade militar ofensiva (o que inclui o desenvolvimento de armas nucleares) em troca do compromisso dos EUA de defender o arquipélago em caso de ameaça militar. Como parte do acordo, os norte-americanos instalaram bases militares em território japonês. Atualmente, existem cerca de 50 mil militares norte-americanos baseados no Japão, a maioria deles em Okinawa, e parte significativa da população desta ilha ao sul do Japão é hostil à presença americana.

     Tóquio teme o ‘sinocentrismo’

Em relação à China, o palestrante afirmou que o Japão considera positivo o impressionante desenvolvimento econômico do país vizinho nas últimas décadas, mas teme que Pequim busque impor sua hegemonia na região da Ásia-Pacífico e, a longo prazo, vê o surgimento de uma ordem mundial em que a China tenha um papel central como prejudicial aos interesses do Japão, da região e do mundo democrático em geral. “O Japão participou ativamente da ordem internacional liberal criada no pós-guerra e colheu muitos benefícios dela. Por isso, não vemos com bons olhos a ascensão do sinocentrismo. A África, onde a China tem uma presença muito forte, começa a perceber isso. E a América Latina, mesmo estando bem longe da Ásia-Pacífico, também deveria ficar atenta”, disse. Saiba como foi o seminário “Investimentos da China na América Latina e no Brasil: panda ou dragão?”.

     ‘Trump foi um choque’

“Todos no Japão acreditavam na vitória de Hillary Clinton. Tanto que o primeiro-ministro Shinzō Abe chegou a se reunir com a candidata democrata poucas semanas antes da eleição. Quando Trump venceu, foi um choque”, relatou Nakayama. Para tentar consertar a situação, Abe fez uma inédita visita ao republicano recém-eleito em seu escritório na Trump Tower, em Nova York, antes mesmo da posse presidencial. “Desde então, Abe não tem poupado esforços em construir uma relação positiva com o presidente americano”, continuou.

Hillary era bem-vista em Tóquio, pois como secretária de Estado (Governo Obama) e durante a campanha teria indicado que adotaria uma postura mais dura em relação a Pequim do que o ex-presidente Barack Obama (2009-2017). “Obama foi um presidente comprometido com causas globais importantes como aquecimento global, direitos humanos, combate a pandemias e desarmamento, mas, na eventualidade de uma crise na região da Ásia-Pacífico, será que poderíamos confiar nele como comandante-em-chefe das Forças norte-americanas?”, disse.

Como exemplo de situações em que Obama não teria sido suficientemente enérgico, ele citou a invasão da Crimeia (território ucraniano) pela Rússia e a utilização de armas químicas contra sua própria população pelo regime sírio.

      Negociações com a Coreia do Norte

Segundo o especialista japonês, Trump também é visto por Tóquio como “potencialmente mais enérgico” diante de uma eventual ameaça de segurança na Ásia-Pacífico. “Infelizmente, na mais recente crise envolvendo o lançamento de mísseis norte-coreanos, a reação dele não foi a esperada, mas estamos acompanhando de perto (as conversas entre os EUA e a Coreia do Norte) e buscando transmitir nossas preocupações à Casa Branca”, disse.

     ‘Nuclearização fora de questão’

Nakayama disse que, para Tóquio, um eventual acordo entre Washington e Pyongyang deve resultar na completa desnuclearização da Coreia do Norte e trazer uma solução à ameaça que os mísseis norte-coreanos significam para o território japonês.

Ele descartou, no entanto, a possibilidade de o Japão, único país do mundo que já foi alvo de ataques nucleares, em Hiroshima e Nagasaki (1945), decidir se tornar nuclear  (“hipoteticamente poderíamos desenvolver a bomba em cerca de dois anos, mas nossa Constituição não permite e a população é firmemente contra”) ou, no extremo oposto, se declarar uma nação 100% pacífica, desmilitarizada e neutra, o que implicaria em abrir mão da aliança militar com os EUA (“seria uma irresponsabilidade”).

O palestrante também não acredita no êxito da aposta da Coreia do Sul de jogar um papel de equilíbrio entre a China e os Estados Unidos na região da Ásia-Pacífico. “O Japão não acredita que seja viável buscar uma equidistância entre os dois países e tentar manipular essa situação em proveito próprio. Insisto: nossa única opção é o compromisso já existente com os EUA”, disse.

     Sobrevivendo à era Trump

Segundo o professor, o caminho para “sobreviver à era Trump” exige não só o aprofundamento da aliança com os EUA, como aproximação com outros países democráticos da Ásia-Pacífico, entre eles Austrália e Índia, e maior engajamento em questões regionais e globais e nas principais instituições multilaterais e de governança global. “Existe, no entanto, limites para essas alternativas, pois dificilmente a Índia, por exemplo, intercederia a favor do Japão na eventualidade de um confronto na região do Pacífico. E, embora o Japão, assim como o Brasil, tenha interesse em ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, a China vetaria qualquer iniciativa nesse sentido”, disse. 

Ele também citou a importância do fechamento de um acordo comercial com a União Europeia (em avançado processo de negociação) e de manter viva a Parceria Transpacífica (Trans-Pacific Partnership, TPP), apesar da decisão de Trump de abandonar o tratado negociado por Obama. “Quem sabe em 2021, após as próximas eleições norte-americanas, os EUA decidem retornar ao TPP?”, concluiu.

    O avanço global da China

Em outubro passado, a Fundação FHC recebeu outro convidado japonês, Tommo Marukawa, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Tóquio, para falar sobre o tema “A expansão econômica da China e seu impacto na economia global”. O palestrante citou duas tendências simultâneas que se intensificarão nos próximos anos: não só o volume de produtos comercializados pela China globalmente já supera o total comercializado pelos EUA, como cada vez mais países comercializam com os chineses do que com os norte-americanos.

“Enquanto os Estados Unidos (sob Trump) se tornam mais protecionistas, a China aproveita o vácuo para se posicionar como líder do comércio global”, disse Marukawa. No início dos anos 2000 mais de 50% dos produtos chineses eram destinados às sete maiores economias do mundo (G7); este percentual caiu para 40%. No mesmo período, as exportações chinesas para economias emergentes saltaram de menos de 20% para mais de 40%. As importações do mundo emergente para a China representam hoje mais de 60% do total de produtos importados pelo país asiático. Veja gráficos na seção Conteúdos Relacionados à direita desta página).

O autor de diversos livros sobre a ascensão da China, entre eles “O Sonho Chinês: o Capitalismo de Massa Muda o Mundo” (Chinese Dream: Mass Capitalism Changes the World, Chikuma Shinsho, 2013) destacou a evolução chinesa em ciência e tecnologia de ponta. “Existe muita inteligência sendo desenvolvida no país e em grande volume”, disse o palestrante, para quem a ascensão global da China é irreversível e inevitavelmente levará a um aumento das tensões com os EUA. “Sempre que uma nova potência desponta e encurta a distância em relação a uma mais antiga, crescem os atritos. A questão é se, a médio ou longo prazo, será possível evitar algum tipo de conflito militar (envolvendo Washington e Pequim, ainda que indiretamente)”, disse.

Saiba mais:

Aprendendo a viver com a rivalidade estratégia entre China e EUA

O Ocidente deve temer a Rússia?

50 anos do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares 

Assista ao Diálogo na Web “Vamos falar de democracia em 2019”, com o professor da FGV Matias Spektor e o jornalista Jaime Spitzcovsky.

Otávio Dias, jornalista, é especializado em política e assuntos internacionais. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.

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