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O superciclo de commodities e os desafios da logística no Brasil

/ Transmissão online - via Zoom


Com a pandemia ainda descontrolada e a economia golpeada, consolida-se uma boa notícia para o Brasil: o mundo vive um novo ciclo de valorização das commodities e os preços de produtos agrícolas, carnes e metais devem permanecer altos por pelo menos dois anos. Neste momento de euforia para os exportadores brasileiros, a produção agropecuária bate recordes e o setor de logística, que nas últimas duas décadas e meia aproximadamente teve significativos investimentos privados em ferrovias e portos, está mais preparado para aproveitar a oportunidade.

Segundo três profissionais com grande conhecimento e larga experiência na área, reunidos neste webinar pela Fundação FHC, é preciso dar continuidade aos investimentos em infraestrutura e aprimorar a regulação e a governança logísticas, com foco em planejamento e gestão integrada. Outros pontos urgentes de atenção são a possibilidade de uma crise hídrica, com impactos na produção agropecuária, e a insustentabilidade da atual política ambiental brasileira, que pode levar a retaliações contra produtos brasileiros.

“Teremos pelo menos dois anos bastante positivos para o agronegócio brasileiro, se não houver problemas climáticos que prejudiquem a produção. Também o setor de minérios e metais terá bom desempenho, apesar de não ter recebido investimentos significativos no Brasil recentemente. Já os preços do petróleo, em alta no momento, devem refluir devido à capacidade de produção ociosa em países como Arábia Saudita e Irã e à transição em curso em diversos países para as fontes renováveis", disse o economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1995-98).

“Nosso desafio para tirarmos o máximo proveito deste e de futuros ciclos de commodities é completar a transição de uma logística heróica e improvisada, como a que tínhamos no passado, para uma logística bem estruturada e articulada. Para isso não bastam investimentos, é preciso aprimorar a regulação e a governança”, afirmou o engenheiro e economista Frederico Bussinger, que foi secretário executivo do Ministério dos Transportes, secretário de Transportes de SP e presidente de importantes empresas como a Companhia Docas de São Sebastião, CPTM e SPTrans.

“O Brasil está começando a ser mais eficiente em logística, sobretudo devido aos investimentos privados em ferrovias e portos realizados nas últimas décadas.Temos hoje relevante aumento da oferta logística, com reduções de custo significativas, o que nos permite aproveitar os novos ciclos de commodities com mais tranquilidade. Precisamos, no entanto, evoluir mais rapidamente e o planejamento integrado é de capital importância”, disse o engenheiro e administrador Julio Fontana Neto, presidente do Comitê Operacional da Rumo, companhia ferroviária e de logística pertencente ao Grupo Cosan.

Mendonça de Barros chamou atenção para o desafio do licenciamento ambiental, pois “muitos projetos de logística nascem sem integrar a engenharia às exigências do licenciamento e, por isso, tendem a atrasar”. Outro obstáculo, segundo o economista, é a limitação da infraestrutura de internet em áreas mais remotas do país. 

         Agenda verde pode beneficiar ou isolar o Brasil

Mendonça de Barros, fundador da MB Associados, salientou que as economias da China, dos Estados Unidos e da Europa já estão se recuperando da pandemia, com robustas políticas econômicas, fiscais e monetárias, e devem puxar o crescimento global para cerca de 6% em 2021, em comparação com uma queda superior a 3% em 2020. “Será um swing de quase 10%, o que é impressionante. Infelizmente no Brasil a recuperação econômica segue incerta, principalmente devido ao atraso na vacinação”, disse.

A recuperação mundial está se refletindo sobretudo nos preços dos alimentos, devido aos repasses de recursos para as famílias durante a pandemia, e dos minérios e metais, com a retomada da construção civil e das obras de infraestrutura. EUA e Europa também estão investindo na chamada agenda do futuro, com estímulo aos carros elétricos e energias solar e eólica, elevando os preços de metais necessários à produção de baterias elétricas, como o lítio (que teve de mais de 100% de aumento no mercado internacional). “O Brasil pode se beneficiar do interesse por esses novos metais, pois temos reservas de alguns deles, mas o investimento em novas minas foi baixo no país nos últimos anos, em parte por causa do trauma dos acidentes em Mariana e Brumadinho”, disse.

Segundo o ex-professor da FEA-USP, o maior trunfo e, ao mesmo tempo, o calcanhar de Aquiles do Brasil é a crescente preocupação mundial com o aquecimento global e a urgência de proteger o meio ambiente: “O atual governo é condescendente com atividades predatórias como o garimpo ilegal, a grilagem de terras, a derrubada de árvores e os incêndios florestais. Não adianta fazer promessas vazias em encontros internacionais: é preciso agir efetivamente contra a destruição da Amazônia. Se persistir a insanidade da política ambiental do atual governo, em breve o Brasil levará uma pancada do sistema internacional, por meio de retaliações que vão pegar forte o agronegócio e prejudicar um dos poucos setores produtivos que tem se desempenhado bem na atual crise. Quando isso for superado, existe uma avenida para crescermos”, concluiu Mendonça de Barros.

         Pensar a logística como eixo de desenvolvimento

Frederico Bussinger, que já ocupou cargos importantes nos setores público e privado e hoje atua como consultor em planejamento e gestão portuária, hidroviária e ferroviária, logística e transportes, destacou que os projetos de logística devem ser cada vez mais pensados como eixos de desenvolvimento. “Não basta criar ‘esteiras’ para transportar produtos das áreas de produção para os centros de consumo e os portos, é preciso olhar o entorno dos projetos, as dimensões ambiental e social, e desenvolver projetos estruturantes de forma integrada com as comunidades e os governos locais”, disse.

Segundo o engenheiro, a logística é um processo intermodal e multidimensional, que inclui investimentos em armazenagem e transporte, mas também regulação e gestão adequadas para garantir segurança e previsibilidade do início ao fim da cadeia. “Temos demanda, temos oferta, a logística tem se virado, mas podemos ser mais articulados e eficientes”, concluiu.

         Corredores logísticos já são realidade

Segundo Julio Fontana Neto, que como diretor presidente da Rumo Logística entre 2009 e 2019 liderou a fase pré-operacional da Malha Centro da Ferrovia Norte-Sul, gargalos logísticos sempre vão surgir (e precisam ser resolvidos), mas as ferrovias brasileiras destinadas ao transporte de carga já apresentam custos por tonelada próximos aos das ferrovias norte-americanas.

Ele também destacou como pontos positivos os ganhos de eficiência nos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR), a maior participação de outros complexos portuários como o do Maranhão e o aumento significativo da frequência dos fretes marítimos em território nacional. “Com novas ferrovias e portos mais eficientes, os corredores logísticos estão finalmente se tornando realidade. Planejar de forma integrada é de capital importância para avançarmos mais rapidamente no trinômio rapidez, custo e qualidade”, afirmou o presidente do Comitê Operacional da Rumo (Grupo Cosan).

        Saiba mais:

         O mundo de olho na Amazônia: ameaças e oportunidades para o Brasil

         Os desafios do agro brasileiro frente aos efeitos duradouros da pandemia

        O papel do setor privado na transição para uma economia de baixo carbono

       Leia também (eventos realizados antes da pandemia):

       Perspectivas do investimento estrangeiro no Brasil - Por Renato Bauman

       Investimento privado em infraestrutura no Brasil: uma visão global - Por Ricardo Threlfall (KPMG)



Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.

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