Ir para o conteúdo
Logotipo do FFHC Menu mobile

/imagens/24/60/pdt_bnn_12460.jpg

Iniciativas » Debates

América Latina e União Europeia: História entrelaçada, mas e o futuro?

/ auditório da Fundação FHC


Apesar dos laços históricos e culturais de mais de cinco séculos, a Europa não sabe bem o que quer da América Latina e a América Latina também não sabe bem o que quer da Europa nesta altura do Século 21. “A AL é uma região formada por 20 países, e a União Europeia é um bloco econômico e político com 27 membros. Chegar a posições comuns é complicado. Daí a necessidade de pensar e renovar essa relação a partir de uma perspectiva global. Isso pode calibrar melhor as demandas e expectativas e facilitar o entendimento”, disse o historiador hispano-argentino Carlos Malamud, pesquisador do Real Instituto Elcano (Madri), neste debate na Fundação FHC. 

O ponto de partida seria o peso e a presença dessas duas regiões no mundo. Os países latino-americanos são importantes exportadores de commodities e fizeram, recentemente, esforços significativos para reduzir a pobreza e a desigualdade, mas ainda têm uma presença aquém do desejado no comércio global. A UE, por sua vez, reúne algumas das principais potências econômicas do planeta, como Alemanha e França, mas enfrenta um longo período de baixo crescimento e desemprego, divisões e problemas internos e está atrás de EUA, China e outros países asiáticos na disputa pela liderança tecnológica.

“Quase 90% das trocas comerciais impulsionadas pela globalização ocorrem na Ásia, América do Norte e Europa e a AL ainda tem papel marginal nesse processo. O Acordo Mercosul-UE (já concluído, mas dependente de ratificação por todos os países envolvidos) pode ajudar muito tanto a AL como a Europa a se posicionarem melhor (no competitivo mercado global)”, afirmou o palestrante, que lembrou que a UE já tem acordos de diferentes tipos com a maioria dos países latino-americanos, incluindo México, Chile, Colômbia e Peru, assim como com várias nações asiáticas que integram a Aliança do Pacífico. “O Mercosul está atrasado e no momento possui acordos em vigor com poucos países, entre eles Egito e Israel. É muito importante para o Mercosul que o acordo com a UE se traduza em resultados concretos o quanto antes”, disse.

      Saiba mais:

      FHC e Enrique Iglesias: O lugar da América Latina em um mundo em transformação

      FHC e Durão Barroso: Para onde vai a Europa?

      ‘América Latina poderia ter papel mais relevante no mundo’     

Segundo Malamud, os países da AL (que não formam um bloco) têm sido bastante presentes em questões fundamentais para o planeta como mudança climática e migração, mas não costumam se envolver em questões geopolíticas importantes. Como exemplo, ele citou a anexação da Crimeia (região da Ucrânia) pela Rússia em 2014, criticada por EUA e Europa e não reconhecida pela ONU. “EUA e UE já têm por certo que a AL não costuma se posicionar nesses assuntos.Mas os países latino-americanos podem e devem fazer mais parte do mundo”, defendeu.

O historiador também falou da crescente rivalidade entre EUA e China que, segundo ele, tende a se estender e afetar outras partes do globo. “Trata-se de uma grande oportunidade para a UE e a AL, não no sentido de tomar partido (de um ou outro lado), mas sim de definir e defender valores comuns. Também na área tecnológica as duas regiões podem ganhar se cooperarem mais”, afirmou.

       A questão venezuelana

Por fim, Malamud estacou a atuação do Grupo de Lima na crise da Venezuela. venezuelana.  em curso. “Os 12 países do grupo entenderam que a crise já havia ido longe demais e começava a se tornar um problema regional e decidiram aumentar a pressão sobre o governo Maduro, denunciando violações aos direitos humanos e exigindo diálogo. Ainda que os resultados esperados ainda não tenham se concretizado, essa ação conjunta é importante. Sem o Grupo de Lima, a UE dificilmente teria adotado posição crítica tão firme em relação ao regime ditatorial venezuelano”, concluiu.

“Nos últimos meses, o Grupo de Lima tem refletido principalmente a posição dos EUA sob liderança de Donald Trump no que diz respeito à Venezuela. Embora a maioria dos países da UE (e o Parlamento europeu) tenham seguido o Grupo de Lima e os EUA no reconhecimento do oposicionista Juan Guaidó (presidente da Assembleia Nacional da Venezuela) como presidente interino da Venezuela, a Europa tem tido uma posição mais construtiva na busca de soluções para o impasse político no país. Aliou-se ao Uruguai e ao México para criar um grupo que busca impulsionar as negociações entre governo e oposição. O Brasil também deveria ter papel mais relevante do que está tendo”, disse Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e Washington (1999-2004) e representante permanente do Brasil junto à Associação Latino Americana de Integração (ALADI).

Barbosa demonstrou preocupação com o recente envio de militares chineses para a Venezuela: “Se for verdade e tiver efeito (no sentido de fortalecer o governo Maduro), isso contradiz a visão de que a China não pretende se chocar com os EUA em questões de segurança na região”, afirmou.

O presidente do IRICE (Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior) concordou que tanto a AL perdeu importância para a Europa como vice-versa e disse que esse processo deve continuar. “A partir do início do Século 14, a Europa teve enorme influência política, cultural, comercial e econômica na região depois conhecida como América Latina. No Século 20, a influência dos EUA cresceu exponencialmente. Vivemos agora o início de uma nova época, em que a cooperação da China com os países latino-americanos está evoluindo muito. A China já é o principal parceiro comercial do Brasil. Também a UE busca maior aproximação com a China. Com a mudança do eixo de poder econômico, comercial e tecnológico do Atlântico para o Pacífico, as prioridades são outras, os valores também começam a mudar. Essa tendência vai se aprofundar”, disse.

    Leia também:

    Investimentos da China na América Latina e no Brasil: panda ou dragão?

    Aprendendo a viver com a rivalidade estratégica entre EUA e China

     Divisões internas na UE e na América Latina

Esse processo é agravado pelos problemas internos vividos pela Europa (estagnação econômica, desemprego, Brexit, emergência de movimentos populistas, crise migratória) e pela AL (desigualdade social persistente, fragmentação econômica e política muito forte, insegurança e crescente influência do crime organizado, corrupção). “Ambas as regiões enfrentam grandes desafios internos, o que dificulta que foquem na melhoria de suas relações e em definir posições comuns sobre grandes temas globais”, afirmou o autor do livro "Um diplomata a serviço do Estado" (Editora FGV, 2018).

Apesar de sua visão realista sobre o declínio das relações UE-AL, o embaixador ressaltou a importância do recém-concluído acordo Mercosul-UE. “Depois de cerca de 20 anos de negociação, finalmente chegamos a um acordo justo e equilibrado, que no entanto ainda depende de ratificação pelos envolvidos. É essencial que esse processo seja concluído o quanto antes. Diante da crescente disputa comercial e tecnológica entre EUA e China, o Mercosul e a União Europeia têm muito a ganhar ao reforçar os laços, aumentar o comércio e a cooperação”, concluiu.

      Investimentos e valores comuns

“É verdade que nas últimas décadas houve um declínio da relevância da AL para a UE e vice-versa, mas o comércio entre as duas regiões está aumentando e o investimento europeu na América Latina continua sendo muito significativo. O acordo com o Mercosul é muito importante para trazer mais dinamismo”, lembrou  Claudia Gintersdorfer, chefe da delegação da UE no Brasil.

“É fato que a AL tem perdido espaço no processo de globalização e que a UE não é a maior vencedora na corrida pelo domínio tecnológico mundial. Mas continuamos no jogo. UE e AL têm grandes afinidades históricas e culturais e um conjunto de crenças e valores comuns, como defesa da democracia e dos direitos humanos, questão climática e outros. Há base sólida para uma maior coordenação política em temas globais e também na área comercial e econômica”, disse o cientista político Sergio Fausto, superintendente executivo da Fundação FHC, ao final deste encontro, fruto de parceria com o grupo dos Cônsules da UE, com apoio da Embaixada da Espanha no Brasil.

     Veja também como foram os debates:

     Europa: uma visão de dentro e uma visão de fora

     Os desafios da política externa brasileira. Por Aloysio Nunes Ferreira

    Assista ao Diálogo na Web Antiglobalismo e direitos humanos: democracia em risco?, com Flávia Piovesan e Demétrio Magnoli.


Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

Mais sobre Debates