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A questão racial no Brasil: como enfrentá-la?

/ auditório da Fundação FHC


“Quero discutir os impactos do racismo para o desenvolvimento do Brasil. Desenvolvimento é um direito humano. Longe de sermos um problema, nós, negros, somos parte da solução”, disse Helio Santos, professor e ativista da temática sociorracial, em encontro sobre a questão racial no Brasil, na Fundação FHC.

“No Brasil, temos o crime perfeito: um ‘racismo sem racistas’. Vivemos em um país onde vigora um silêncio retumbante em relação à escravidão e a uma pobreza antiga e cristalizada, cujas maiores vítimas são os negros”, afirmou o palestrante, que nos anos 1980 fundou e presidiu o Conselho da Comunidade Negra de São Paulo (Governo Franco Montoro).

Segundo o mestre em Finanças e doutor em Administração pela Faculdade de Economia e Administração da USP, os principais debates ideológicos do Século 20 -- liberalismo, socialismo e autoritarismo -- se mostraram incapazes de evitar que o Brasil permanecesse como um dos países mais desiguais do mundo. “Como entender um país que produz aviões, mas que nega às mães e às crianças as condições mínimas para evitar mortes por diarreia durante a infância? Não dispomos de análises críticas que expliquem um Brasil moderno sem modernidade”, disse. 

Para o palestrante, os bons fundamentos econômicos devem ser respeitados, assim como o reconhecimento histórico, a interação social, o pertencimento e a autoestima de toda a população. “Ninguém deveria ser ministro da Economia sem antes fazer um curso sobre racismo inercial, que é uma máquina de moer cidadania. Sem equidade racial, não há nação. Para atingirmos o desenvolvimento integral da sociedade brasileira, só há um caminho: radicalizar no caminho da democracia, da inclusão e da igualdade de oportunidades”, disse.

        A força do ‘feminismo negro’

Santos destacou “o feminismo negro como a principal e mais poderosa força mobilizadora que irrompe no país, pois as mulheres negras têm uma proposta para o Brasil. Chegou a hora de escutá-las”.

O ex-coordenador do Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra (criado em 1996 durante o Governo FHC) defendeu as políticas de cotas raciais. “Em 2012, o Supremo Tribunal Federal decidiu que as cotas eram constitucionais e necessárias para reduzir a desigualdade entre brancos e negros. Nada é mais desigual do que tratar todos igualmente (quando historicamente não são). É falsa a dicotomia entre políticas ‘universalizantes’ e ‘focalistas’. O desafio é universalizar com foco. O Brasil exige um programa integral de apoio à família de risco, que seja capaz de zerar a pobreza em dez anos”, defendeu.

Para o estudioso, a informalidade do mercado de trabalho, que atinge um quarto da população, principalmente os negros, requer políticas específicas e criativas. “Não vamos conseguir criar empregos para 50 milhões de brasileiros. Precisamos pensar em novos arranjos produtivos, como cooperativas e outras formas de associações que resultem em ganhos de escala”, sugeriu.

De acordo com Helio Santos, é urgente convocar a iniciativa privada para ajudar a superar a questão racial. “De maneira geral, ela tem sido omissa”, concluiu.

       José de Souza Martins: ‘Ouvir o negro, o índio, as mulheres’

“É muito difícil acabar com o racismo no Brasil, mas é necessário aprender com as vítimas para encontrar caminhos e soluções. Assumir a possibilidade de que a vítima possa ela própria definir estratégias de superação da questão racial. Temos de ouvir o interessado direto, seja o negro, o índio e também o branco pobre”, disse o sociólogo José de Souza Martins, professor titular aposentado da USP.

“Penso também nas mulheres, independentemente da cor, que são historicamente minimizadas na sociedade brasileira. Elas têm muito a dizer e a fazer”, continuou o estudioso, que recebeu o Prêmio Pesquisador Emérito do CNPq (2019).

Autor de 34 livros, entre eles “A Sociologia como Aventura” (Memórias, 2013), Martins disse ser um “contador de causos” e, durante sua fala, relatou histórias de algumas tribos indígenas brasileiras, entre elas os Kaingangs (nas regiões Sudeste e Sul) e Parkatêjê (Norte). “Ambas, em um determinado momento, decidiram expulsar, educadamente, as professoras da Funai e colocar no lugar professoras da própria tribo. Mas também se esforçaram para convencer seus jovens da necessidade de estudarem medicina, engenharia etc. Buscaram se reorganizar economicamente e politicamente e criar um projeto tribal, com base em suas tradições e valores, mas assimilando elementos da cultura branca”, contou.

“A população indígena brasileira não é isso que estão dizendo por aí. É puro preconceito imaginar que os índios não são capazes de se organizar e de agir de acordo com seus interesses. O grande geógrafo Milton Santos (1926-2001), que era negro, tinha muita relutância em relação ao senso comum sobre a questão racial e dizia que negros e índios precisam, inclusive, se apossar de aspectos da civilização branca”, afirmou.

“O negro tem de recuperar a história dos seus êxitos, não deve agir apenas defensivamente, mas se fortalecer e quebrar os bloqueios. É possível e viável reagir”, concluiu.

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Assista também ao Diálogo na Web “O que é ser progressista hoje?”, com Lilia Schwarcz, Fernando Schuler e Marco Aurélio Nogueira.

Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

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