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A pandemia acordará o mundo para os riscos catastróficos da mudança climática?

/ Transmissão online - via Zoom


Se o Brasil permanecer no rumo da negação da mudança climática e de rejeição do multilateralismo, perderá cada vez mais credibilidade no cenário internacional e deixará de influenciar os rumos do planeta na questão climática e em outros temas do século 21, posição que havia conquistado nas últimas décadas. “Credibilidade não se compra na prateleira. Constrói-se ao longo do tempo, passo a passo, e, quando perdida, é difícil de recuperar”, alertou a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira neste webinar realizado pela Fundação FHC e pelo CEBRI.

“O governante que não valorizar a ciência estará desguarnecido para tomar decisões fundamentais em um período de mudanças profundas. Ciência e tecnologia são a infraestrutura e a superestrutura necessárias para fazer uma transição bem sucedida para o século 21 e os que próximos que virão. Algumas nações sairão vitoriosas, outras fracassarão”, afirmou o cientista político e sociólogo Sérgio Abranches.  

Nem otimismo nem pessimismo exacerbado; pragmatismo e determinação em avançar passo a passo, com olhar no futuro. Assim os palestrantes descreveram as perspectivas de amadurecimento da agenda climática no mundo pós Covid-19.

“Diante da profunda crise econômica decorrente da pandemia, um jogo de interesses emerge: alguns países vêem a oportunidade de implementar a agenda climática como estratégia de recuperação e desenvolvimento; outros resistem e farão o que puderem para bloqueá-la. O Brasil, no momento, está no grupo preso ao passado”.

Izabella Teixeira, ambientalista, foi ministra do Meio Ambiente do Brasil.

“A humanidade não consegue se precaver de riscos sobre os quais não tem precedentes. Nenhum país estava preparado para o novo coronavírus. No caso da mudança climática, é diferente. Diversos países ou regiões já estão tendo amostras do que acontecerá caso os piores cenários do aquecimento global se confirmem.”

Sérgio Abranches, sociólogo e cientista político, é autor de “Copenhague: antes e depois” (Civilização Brasileira, 2010).

 

        Teixeira: ‘Condições para o Acordo de Paris não existem mais’

O Acordo de Paris (fechado ao final da 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em dezembro de 2015) é considerado um divisor de águas (assista a vídeo ou leia texto do debate realizado em fevereiro de 2016) porque, pela primeira vez, todos os países relevantes do planeta se alinharam e entraram em acordo sobre metas para redução das emissões de carbono. 

“Passados cinco anos, no entanto, as condições que existiam naquele momento desapareceram: o acordo EUA-China (anunciado por Obama em 2014) foi abandonado por Trump; a União Europeia vive um clima político totalmente diferente (com o Brexit e o fortalecimento do nacionalismo e do protecionismo em diversos países do bloco); até mesmo o alinhamento estratégico entre o Quai d’Orsay e o Itamaraty (serviços diplomáticos francês e brasileiro), que teve papel fundamental nas negociações, se perdeu devido à atual política externa brasileira”, explicou Teixeira.

Para complicar ainda mais, a pandemia do novo coronavírus minou, ao menos provisoriamente, boa parte da solidariedade e da cooperação internacional. “A agenda ambiental exige um multilateralismo forte e vigoroso, mas o que temos visto nos últimos meses é o predomínio dos interesses nacionais, com países fechando suas fronteiras a vizinhos, tensões, boicotes e até verdadeiros atos de pirataria”, disse.

Segundo Teixeira, o que está em jogo agora é como os países lidarão internamente com uma crise econômica de proporções inéditas e se haverá condições no plano internacional para mudar o rumo da economia global, colocando a questão climática no centro. Como exemplo, ela citou a Europa. 

“Em entrevista ao Financial Times, o presidente francês Emmanuel Macron disse que a reação à pandemia do novo coronavírus seria o ‘momento da verdade’ para a União Europeia. Defendeu a solidariedade entre os países-membros, a retomada verde da economia e uma Europa fundada no respeito ao meio ambiente e no multilateralismo. Essas boas ideias prevalecerão?”, perguntou.

Nos EUA, o rumo depende, em grande parte, de quem vencer a eleição presidencial de novembro próximo, disputada entre o atual presidente, o republicano Donald Trump, e o democrata Joe Biden. Pouco depois de assumir, Trump retirou os EUA do Acordo de Paris. Se eleito, Biden deve recolocar o país na mesa de negociação climática.

A China, primeira nação atingida pelo novo coronavírus, conseguiu evitar que a pandemia saísse de controle em seu imenso e populoso território e está oferecendo ajuda a outros países no combate à Covid-19, com o objetivo de se fortalecer como nova superpotência global. Por outro lado, aprofunda-se o fosso nas relações entre Washington e Pequim. Um dos maiores poluidores do planeta, a China há alguns anos implementa uma agenda de recuperação do meio ambiente, com plantação de florestas, e investe fortemente em frotas de veículos elétricos e energia renovável (veja como foi o debate Desafios e oportunidades para a energia renovável no Brasil).

“Tanto países desenvolvidos como em desenvolvimento estão refletindo sobre a questão climática, seu modelo de desenvolvimento e sua inserção internacional. A implementação do Acordo de Paris significa trazer para a sala global quem está disposto a agir efetivamente para cortar emissões (de carbono). Sou otimista, porque tem muita coisa acontecendo, mas pragmática, pois os desafios são grandes”, concluiu Teixeira.

       Leia também:

       China e o novo coronavírus: desafios em um mundo interconectado

       A União Europeia e a América Latina frente à crise: um diálogo entre Durão Barroso e Fernando Henrique Cardoso

 

       Abranches: ‘Uma nova governança global vai se impor’

O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, que tem se dedicado há alguns anos à análise da política global na áreas de clima e sustentabilidade, iniciou sua fala com uma reflexão presente em seu novo livro: “O tempo dos governantes incidentais” (no prelo). “Existe uma correlação entre governos disfuncionais — antissistema, com tendências protecionistas, populistas e até mesmo autoritárias — e a gravidade com que a pandemia atingiu esses países”, disse.

“Governos mais funcionais, assentados, como Alemanha, Nova Zelândia e até mesmo Portugal, responderam melhor ao novo coronavírus do que EUA, Brasil, Reino Unido, Itália e Espanha (nos dois últimos casos, devido à instabilidade política crônica e ao fato de os atuais governos serem recentes e ainda frágeis). Essa correlação disfuncional se replica na questão da mudança climática, pois respostas a temas globais requerem capacidade de governança interna mais azeitada”, afirmou.

“Avançar na agenda climática exige processar de forma democrática a dinâmica interna de interesses, o que inclui a resistência de alguns setores econômicos, sociais e políticos à adoção de políticas ambientais adequadas. Por outro lado, diante da crise será fundamental fazer a junção entre política climática e o combate à desigualdade social, sem o qual a democracia não avança”, disse.

“Mudanças estruturais sempre causam medo e incerteza. A construção de uma economia com baixa emissão de carbono envolve profundas mudanças tecnológicas, nos modelos de negócio, na forma de trabalhar. As democracias são a melhor forma de balancear perdas e ganhos de forma mais benéfica para o conjunto da sociedade, mas têm dificuldade em planejar a longo prazo. A disfuncionalidade de alguns governos representa um obstáculo a mais”, disse.

“Nosso presente tem cada vez menos passado e cada vez mais futuro. Precisamos de outro tipo de perspectiva. Será um grande teste para as democracias construir respostas aos desafios emergentes, alguns deles imprevistos”, disse o palestrante.

O novo coronavírus também expôs a fragilidade dos organismos multilaterais, que já estavam em crise há alguns anos. A própria Organização Mundial da Saúde demorou para declarar a pandemia global e tem sido acusada de ter sido complacente com a tentativa da China de esconder no início a gravidade do surto epidêmico que eclodiu naquele país entre o final de 2019 e o início de 2020. “Uma nova governança global vai se impor. Será baseada em um multilateralismo renovado ou no isolacionismo proposto por líderes como Trump e Bolsonaro?”, perguntou.

      Saiba mais:

      Covid-19 e a Recessão Geopolítica - por Ian Bremmer

      Como morrem as democracias? - por Steven Levitsky

 

       Teixeira: ‘Brasil desembarcou do século 21’

Segundo a ex-ministra do Meio Ambiente, o Brasil havia conquistado protagonismo nas diversas conferências promovidas pela ONU para definir uma estratégia de combate ao aquecimento global, culminando com o Acordo de Paris, mas a chegada de Jair Bolsonaro ao Planalto colocou em xeque esse legado. “Estamos jogando fora nossas vantagens, sendo a Amazônia a joia da coroa. Enquanto ambientalistas de todo o mundo discutem o uso de blockchain para controlar as queimadas e o desmatamento na Amazônia, aqui discute-se soberania nacional como se fazia nos anos 1970”, disse.

“No momento, vivemos um grau elevadíssimo de entropia. A sociedade brasileira precisa entender que a agenda climática se tornou essencial em qualquer projeto de desenvolvimento econômico com redução da desigualdade social. Não é trivial fazer isso sem uma liderança ousada e contemporânea. Hoje, definitivamente não temos isso”, afirmou.

Apesar das críticas, a ambientalista acredita que o país possa recuperar seu papel de interlocutor diferenciado na questão climática. “Em primeiro lugar, temos de ter uma política séria de compliance em relação à Amazônia. Em segundo, recuperar a independência e o profissionalismo da nossa diplomacia, uma das melhores do mundo. A política externa do Brasil hoje deriva para o nada”, concluiu.

       Abranches: ‘Ciência e tecnologia são as chaves do futuro’

“Trump, Orbán (primeiro-ministro da Hungria) e Bolsonaro são os cupins da democracia. Roem a arquitetura democrática por dentro. É o que (o chanceler) Ernesto Araújo está reproduzindo no Itamaraty. O Brasil não tem força militar nem poder econômico, mas tinha soft power, por ser o país mais megadiverso do planeta e uma grande e jovem democracia. A destruição desse patrimônio ameaça a chance de sermos uma potência biotecnológica e bioindustrial”, afirmou o cientista político (leia o artigo “Amazônia 4.0: Definindo uma Terceira Via para a Amazônia, escrito pelos cientistas Carlos e Ismael Nobre, para a revista Futuribles em Português, publicada pela Fundação FHC).

Para Abranches, o papel da ciência e tecnologia na boa governança vai ficar cada vez maior e definirá quem terá êxito e quem fracassará nas próximas décadas. “O Brasil, se mantido o rumo atual, caminha em direção ao fracasso. Precisamos tomar decisões rápidas para mudar esse curso”, disse.

      Sergio Fausto: ‘Brasil deve retomar legado progressista’

Na conclusão do debate, o mediador Sergio Fausto, cientista político e diretor da Fundação FHC, defendeu que o país recupere o legado progressista que vinha sendo construído desde a Constituição de 1988 para enfrentar à altura os novos desafios que surgem. 

“Já mostramos ser capazes de responder a grandes desafios como a epidemia de Aids nos anos 1980-90. A distribuição gratuita de remédios contra o vírus HIV para toda a população infectada salvou e continua salvando milhares de vidas e é um exemplo para o mundo. Para transformá-la em política de Estado, foi necessário organizar as comunidades médica e científica, vencer a resistência conservadora na sociedade, no Congresso e no governo, além de acenar com a quebra de patentes da poderosa indústria farmacêutica mundial. Fizemos isso em plena democracia, amparados na ciência, com determinação e sem subserviência. É um legado que deve servir de parâmetro”, disse Fausto.    

Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. É editor de conteúdo da Fundação FHC.

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