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A cabeça do eleitor a seis meses da eleição

/ Transmissão online - via Zoom


Uma campanha acirrada, com diferença apertada de votos nas urnas e risco de ter os seus resultados contestados, se o atual presidente vier a ser derrotado. É o que sinaliza a situação política que o Brasil atravessa a menos de seis meses do primeiro turno do pleito presidencial. Não há razão para alarmismo, mas a cautela se justifica, alertaram Esther Solano – socióloga de origem espanhola radicada no Brasil, doutora em Ciências Sociais pela Universidad Complutense de Madrid e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – e Mauricio Moura – economista, presidente do Instituto IDEIA e pesquisador da George Washington University (EUA). Os dois participaram no dia 26 do webinar “A cabeça do eleitor a seis meses da eleição”, encontro promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso, com mediação de Sergio Fausto.

Moura, que se debruça sobre pesquisas e resultados eleitorais pelo menos desde 2014, aponta as características gerais que marcam esta eleição de 2022. “Reeleição é recall”, explica. “É o momento que o eleitor, de maneira bem explícita, aprova ou rejeita os quatro anos anteriores.” Por isso, o desempenho recente de quem está no poder acaba sendo decisivo. Com base nessa premissa, Moura compara as performances dos quatro presidentes que buscaram a reeleição – Fernando Henrique, Lula, Dilma e agora Bolsonaro – e conclui que o atual presidente é o que larga em pior condição. Tem popularidade inferior e rejeição superior aos seus antecessores.

Entra, portanto, em desvantagem no que Moura classifica como uma “batalha de rejeições”, decisiva para o resultado eleitoral. De um lado 40% do eleitorado repudiam o “petismo”. De outro, um grupo ainda maior, hoje próximo de 60%, rechaça Bolsonaro. Se quiser vencer a eleição, o atual presidente precisa reduzir significativamente a sua rejeição e insuflar o antipetismo.

Embora com taxas elevadas de rejeição, os dois candidatos, somados, contam com a intenção de voto de mais da metade do eleitorado, o que fica claro mesmo nas perguntas espontâneas. Em nenhum pleito anterior, a preferência pelos dois principais candidatos foi tão alta. Pela primeira vez, observa Moura, a disputa ocorre entre um presidente e um ex-presidente, e existe um grau maior de engajamento de ambos os lados”. O percentual de eleitores que mostra intenção de votar em um candidato alternativo a Bolsonaro e Lula vem diminuindo nas pesquisas, e com isso se reduz a chance da chamada terceira via. 

       O indeciso vai decidir

Além da “batalha das rejeições”, importa a luta por reduzir o absenteísmo, que vem crescendo a cada eleição. Mobilizar para si o voto de quem está inclinado a não votar pode ser decisivo numa eleição apertada. Para isso, é preciso ter palanques fortes nos Estados. Com base em dados de eleições anteriores, Moura mostrou que a abstenção no segundo turno das eleições presidenciais tende a ser maior onde a eleição para governador é decidida no primeiro turno.

O grupo de eleitores decisivos, porém, é o de indecisos. Moura chamou a atenção para um contingente entre 5% e 10% do eleitorado que votou em Dilma em 2014 e em Bolsonaro em 2018 e hoje se mostra inclinado a votar em Lula. É um eleitor de perfil metropolitano, concentrado em grandes centros urbanos do Sudeste. Para Esther Solano, esse eleitor indeciso pende para o candidato do PT porque vê no ex-presidente um político mais atento à situação econômica dos mais pobres. Por outro lado, tem ressalvas ao PT em relação à chamada “agenda moral”. Nas palavras de Solano, não se sente “acolhido no campo petista”. Embora receba bem o sinal dado por Lula na indicação de Geraldo Alckmin como seu vice – uma guinada que busca atrair o voto conservador – a desconfiança permanece. 

Além das questões morais, a socióloga identifica outra barreira na adesão do eleitorado de menor renda dos grandes centros urbanos ao ex-presidente. Lula se dirige aos pobres, ao passo que a maioria desse eleitorado se vê como “empreendedor” e não como beneficiário de políticas públicas, em particular os programas de transferência de renda.

       A eleição entre dois campos passionais

Pela primeira vez desde 1989, em eleições presidenciais, o PT enfrenta um adversário com uma militância engajada. Segundo Moura, o máximo que o ex-presidente pode almejar, nas mídias sociais, é reduzir a vantagem de Bolsonaro, cuja máquina de propaganda nas principais plataformas e serviços de mensagem está muito bem estruturada. Apesar dessa vantagem, o atual presidente tem pontos vulneráveis. Solano destacou três deles: a percepção de que agiu de modo irresponsável e desumano na pandemia, a agressividade percebida como excessiva em seus discursos e atitudes e a constatação de que as condições sociais do país pioraram nos últimos quatro anos. Para enfrentar a narrativa baseada nesses pontos, o bolsonarismo já articula o seu contradiscurso. Segundo a socióloga, é frequente os bolsonaristas argumentarem que a pandemia e a crise econômica, agravada pela guerra na Ucrânia, vieram de fora e que Bolsonaro foi impedido de agir como queria. 

Já o ex-presidente Lula tem três pontos de vulnerabilidade: a associação entre petismo e ataque aos valores cristãos, a má lembrança da economia na administração de Dilma Rousseff e o estigma da corrupção. Solano vê no primeiro ponto o mais perigoso para Lula. Entende, por isso, que a recente declaração do ex-presidente sobre o aborto, se vier a se repetir, pode custar votos preciosos ao candidato do PT. O efeito das acusações de corrupção ao candidato e ao partido teriam sido limitadas pelo desencanto com o juiz Sergio Moro e as dúvidas em relação à Operação Lava Jato.  

Para Moura, Bolsonaro pode reduzir a sua rejeição, com a vantagem de ser o presidente em exercício, e ter o poder da caneta. Mas esse protagonismo traz em si uma desvantagem também. “É no presidente que o eleitor descarrega suas frustrações. E não é só no Brasil. A frustração do eleitor foi decisiva nos Estados Unidos na eleição de Donald Trump e, quatro anos depois, na de Biden.” Nas eleições recentes na América Latina (no Chile, na Costa Rica e, segundo indicam as pesquisas, na Colômbia também), a oposição tem prevalecido.  

Em que pese a “batalha das rejeições”, Solano e Moura concordam que a bipolaridade está irremediavelmente cristalizada. “O que quebraria esta situação é algo quase impossível”, diz Moura, “Lula ou Bolsonaro desistir de se candidatar.” Para Esther, estamos diante de um paradoxo da polarização: muitos eleitores compreendem que seria importante o surgimento de uma nova candidatura, mas ao mesmo tempo se sentem seduzidos pela polarização. “É algo libidinal”, define Esther.

Ainda assim, é importante a busca pelo eleitor “de centro”. “As duas candidaturas já se consolidaram nos polos. Agora terão que mirar no centro. E esta calibragem é muito complexa”, diz Esther. “Se os dois ficarem discursando apenas para suas bases, para os já convertidos, terão dificuldades. Ninguém ganha eleição radicalizando”, afirmou Moura.

Se isso é verdade, ambos mostraram grande preocupação com os desdobramentos de uma eleição muito acirrada. Com ataques à urna eletrônica e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o bolsonarismo criou um clima de desconfiança que ninguém é capaz de prever onde pode chegar”, concluiu Moura. 
 

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Márcio Pinheiro é jornalista com passagens pelo O Estado de S. Paulo, Zero Hora e Jornal do Brasil 

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