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A ameaça da crise global de alimentos: dimensões, riscos e possíveis respostas

/ Transmissão online - via Zoom


O mundo vive três crises simultaneamente: a crise climática, resultante do aquecimento global; a crise energética, provocada sobretudo pela guerra na Ucrânia; e a crise de insegurança alimentar, consequência da ameaça de interrupção do fornecimento de grãos pela Ucrânia e de fertilizantes pela Rússia e pela alta da inflação em diversos países do mundo. 

“Vencer essas três crises requer mais coordenação multilateral. A insegurança alimentar do planeta atinge principalmente as populações mais vulneráveis. A solução não é fechar o mercado interno, como tentaram fazer recentemente países produtores de alimentos como a Argentina, a Indonésia e a Índia, mas aumentar a produção, coordenar melhor o mercado internacional de commodities e apoiar os mais vulneráveis”, disse o engenheiro agrônomo Marcos Jank, que trabalhou durante dez anos com temas internacionais do agronegócio na Europa, nos EUA e na Ásia e atualmente é professor do Insper.

“Assistimos a um acoplamento da crise resultante da transição climática com a crise geopolítica global, provocada pela crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China e, agora, pela invasão da Ucrânia. Vemos também um acoplamento entre as questões energética e alimentar, pois a Rússia tem utilizado a ameaça de interromper o fornecimento de energia, fertilizantes e alimentos como uma arma de guerra”, disse Ana Yang, diretora executiva do Chatham House Sustainability Accelerator, baseada em Londres.

“Gostei da escolha da palavra segurança no título deste evento. O conceito de segurança cidadã é um dos pilares da Constituição de 1988, mas foi meio abandonado recentemente e trocado por uma certa obsessão por defesa. É o nível de segurança completo de um país que dará o perfil de sua soberania”, disse o general de Exército da Reserva Sérgio Etchegoyen, que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e chefe do Estado Maior do Exército.

O webinar “A ameaça da crise global de alimentos: dimensões, riscos e possíveis respostas” foi uma parceria entre a Fundação FHC e o Centro Soberania e Clima.

       Inflação combinada com estagnação: quadro volátil aumenta insegurança

Não bastasse a pandemia, que paralisou o mundo durante boa parte de 2020 e continua tendo impactos socioeconômicos até hoje, na sequência veio a guerra na Ucrânia, que está acelerando as mudanças na geopolítica global, ao pôr a Rússia e a OTAN em atrito e aproximar Moscou de Pequim, aguçando ainda mais a rivalidade entre os Estados Unidos e a China.

“A esse quadro já bastante complexo, com efeitos prolongados no tempo, soma-se, de imediato, o recrudescimento da inflação no mundo e a crescente incerteza sobre se o aumento de juros para combatê-la levará ou não diversos países, entre eles os Estados Unidos, à recessão. São fenômenos inesperados que se sucedem e impactam diretamente a oferta e a demanda de alimentos e energia. Com novidades a cada semana, simplesmente não sabemos o que vai acontecer com os preços dessas commodities a curto e médio prazo”, disse Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global. Essa incerteza com relação aos preços, se prolongada, pode afetar negativamente as decisões sobre o plantio das próximas safras, dificultando o aumento da oferta global de alimentos.  

“Os preços e os custos estão altos e a inflação generalizada pode levar a uma recessão global, derrubando os preços das commodities, o que seria muito ruim para os países produtores de alimentos, entre eles o Brasil. Vivemos uma era de alta incerteza e volatilidade, que deve ser enfrentada com mais cooperação multilateral, não com protecionismo”, afirmou.

Segundo Jank, o caminho para enfrentar a insegurança alimentar é aumentar a produção e o comércio. “Os grandes exportadores agrícolas devem se unir para convencer o mundo a não tomar medidas erradas, ou seja, é preciso abrir o mercado de commodities e torná-lo mais eficiente, não fechar”, disse.

“As crises climática, energética e alimentar não são problemas nacionais, mas que ultrapassam fronteiras e atingem a todos. Nesse contexto bastante desafiador, quais são as boas políticas públicas nacionais e internacionais? É preciso mais coordenação entre os países e global. Estamos errando na questão multilateral, a pandemia deixou isso muito claro”, continuou Jank.

       População que já era vulnerável é a mais ameaçada pela alta dos alimentos

Ana Yang, diretora da Chatham House — instituição criada após a Primeira Guerra Mundial com o objetivo de promover a paz por meio do diálogo — salientou que os países do Norte da África, da África Subsaariana e do Oriente Médio são os mais afetados pela atual crise alimentar, por dependerem em grande parte da importação de alimentos para alimentar sua população.

“Nesses países, as famílias mais pobres chegam a destinar 40% dos recursos disponíveis para comprar alimentos. Esta população que já era vulnerável está ficando ainda mais vulnerável. Além da instabilidade política, a insegurança alimentar pode levar a um aumento da imigração rumo às nações mais desenvolvidas. Como os países europeus vão reagir?”, alertou.

“A coordenação internacional é o caminho para lidarmos com temas como as crises climática, energética, alimentar e mesmo migratória, mas na política interna dos países o que vemos, com frequência, é uma tendência de fortalecimento de discursos nacionalistas e protecionistas”, disse Yang.

No plano internacional, as perspectivas de retomada do multilateralismo para resolver questões globais também não são promissoras: “O que vemos é uma tendência de fragmentação, com dois ou três blocos disputando poder, um liderado pelos EUA e pela Europa, o outro capitaneado pela China e possivelmente pela Rússia e, talvez, um terceiro bloco que tentará jogar em ambos os times.”

“Vivemos uma fase de incertezas, mas a principal causa da insegurança alimentar é a falta de renda das populações mais pobres nos países em desenvolvimento. O mundo precisa se articular para apoiar os mais vulneráveis, transferindo renda para aqueles que não estão conseguindo comer e criando empregos nos países mais vulneráveis. Para atingir esse objetivo, é fundamental resgatar o papel de instituições multilaterais como a ONU, a FAO, a OMS e também a OMC, que regula o comércio internacional”, disse Marcos Jank.

       Brasil é provedor de paz, alimentos e energia, e deve cuidar da Amazônia

O Brasil é visto pelo mundo como um país pacífico e que tem muito a contribuir para a estabilidade da América do Sul e do planeta. Já é um dos maiores produtores de alimentos e pode se tornar um grande exportador de energia renovável. Tem bons cientistas e uma diplomacia respeitada. Mas, para ocupar o espaço que merece no mundo, precisa enfrentar a questão ambiental pra valer, sobretudo no que diz respeito à preservação da Amazônia. 

“A comunidade internacional olha para nós como um país provedor de paz, estabilidade, alimentos e energia. Não é pouco e é uma grande responsabilidade. Há muito espaço para nos desenvolvermos ainda mais e darmos uma contribuição essencial para a segurança mundial”, disse o general Sergio Etchegoyen, presidente do conselho de administração do Centro Soberania e Clima. 

A atual incapacidade de gerenciar a questão ambiental é o que está nos impedindo de ocupar esse espaço privilegiado, alerta o general. “O problema da Amazônia, que representa 60% do nosso território, é a ausência do Estado brasileiro. É preciso reforçar as agências de controle ambiental e exercer, de fato, o poder de polícia para combater o desmatamento ilegal, a criminalidade e o tráfico. Se perdermos o controle da região e das fronteiras agrícolas próximas à Amazônia para o crime organizado, nosso futuro estará sob risco”, afirmou. 

“O Brasil não realizará seu potencial como nação pela boa vontade dos outros países, mas pela sua própria capacidade de resolver seus problemas internos e defender seus interesses externamente. Já nos mostramos capazes de negociar com o mundo todo, mas hoje temos um déficit nessa área, causado sobretudo pela questão da Amazônia”, continuou.

“Como uma brasileira que vive e trabalha no exterior há muitos anos, vejo um enorme potencial para o Brasil nesta nova ordem geopolítica que está em construção. Podemos trabalhar com os diferentes blocos que ditarão os rumos do planeta nas próximas décadas. Ninguém duvida de nossa capacidade, mas no momento temos um problema de reputação na área ambiental”, disse Ana Yang.

Segundo a diretora executiva do Chatham House Sustainability Accelerator, diversos países europeus estão querendo se reaproximar do Brasil para discutir questões relacionadas ao meio ambiente e também à segurança alimentar e energética, mas estão aguardando o resultado das eleições presidenciais de outubro, que definirão os rumos do país nos próximos quatro anos.

“Não há dúvida de que a agricultura e a pecuária brasileira têm um papel fundamental para garantir a segurança alimentar do planeta, mas, se não enfrentarmos pra valer o aumento da criminalidade na Amazônia, em grande parte responsável pela destruição da floresta, nosso agronegócio será cada vez mais visto como um vilão e o país poderá sofrer retaliações”, disse Marcos Jank.

“É o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia, como foi feito entre 2004 e 2012, quando houve uma queda de 80% no desmatamento ilegal, que definirá o papel que o Brasil terá no mundo nos próximos anos e décadas. Mesmo tendo uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, não seremos reconhecidos como uma potência ambiental se a Amazônia continuar a ser destruída no ritmo atual”,  concluiu o especialista em temas relacionados ao agronegócio.

Leia o artigo “Projeto Amazônia 4.0: Definindo uma Terceira Via para a Amazônia”, escrito por Ismael Nobre e Carlos Nobre a pedido da Fundação FHC.

Saiba mais:

Os desafios da transição energética no Brasil

Hidrogênio verde: a descarbonização da Europa e a oportunidade para o Brasil

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Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. 

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