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Saúde e Economia: ações necessárias para reduzir os danos da pandemia no Brasil

/ Transmissão online - via Zoom


“Para uma espécie animal, perder 1% de sua população durante uma epidemia é um fenômeno natural. Acontece toda hora. Mas, para seres racionais como os humanos, que têm cultura, ciência, tecnologia, é inaceitável perder até 75 milhões de indivíduos (equivalente a 1% da população mundial) para um vírus. É isso que está em jogo. Vamos deixar a pandemia do novo coronavírus cumprir seu ciclo sem tomar medidas para reduzir sua letalidade?”

Fernando Reinach, biólogo molecular, foi professor titular no Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP) e é sócio do Fundo Pitanga.

“Assim como na saúde, o Estado brasileiro não tem uma agenda consistente de redução dos efeitos socioeconômicos da pandemia. Com um Executivo errático, os demais Poderes começaram a ter ideias, mas falta um olhar para o todo. Quando vários especialistas interferem no paciente, é confusão na certa.”

Marcos Lisboa, economista, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e preside o Insper.

Discutir as ações necessárias para reduzir os danos sanitários e socioeconômicos produzidos pela Covid-19, seja na fase aguda que ainda estamos vivendo ou mais adiante, na fase crônica da enfermidade. Foi o objetivo deste webinar realizado pela Fundação FHC, que reuniu duas personalidades que estão se destacando no debate público desde a chegada da pandemia ao Brasil (no final de fevereiro). Como disse uma das centenas de pessoas que assistiram à conversa, “foram dois debates em um”.

“Epidemias são fenômenos naturais que acontecem com grande frequência entre os animais vertebrados. Um vírus é transmitido de uma espécie para outra, a transmissão cresce de maneira exponencial, parte dos infectados morre, outra parte fica imune. Quando a espécie atingida conquista a chamada imunidade de rebanho, a epidemia perde força. Este é o modo default de superar o problema”, explicou Reinach, ao abrir o evento. 

“Todo o esforço que temos visto nos países que estão lidando melhor com a pandemia vai no sentido de evitar que ela siga seu curso normal e mate milhares de pessoas em um curto espaço de tempo. São medidas clássicas: distanciamento social, mais leitos hospitalares, monitoramento da evolução da doença (o que nos tempos atuais é feito por meio de testes em larga escala), quarentena. É o que dá pra fazer enquanto não se descobre uma vacina”, continuou. Segundo o biólogo, indivíduos de outras espécies também buscam se isolar, intuitivamente, quando são atingidos por processos epidêmicos.

“No Brasil, toda a polêmica gira em torno do que estamos efetivamente fazendo para escapar do caminho biológico natural, seja por meio de ações das autoridades responsáveis ou por nossas próprias atitudes individuais e coletivas. O pior cenário possível é um processo epidêmico acelerado e muito duro em termos de casos graves e mortes”, disse.

Reinach é um dos idealizadores de um programa pioneiro de testes na cidade de São Paulo, que visa aferir qual o percentual de habitantes da cidade que já teria tido contato com o vírus e desenvolvido imunidade. Leia seu artigo “5,2% de infectados é um número grande ou pequeno?”, publicado em 18 de maio, no qual o especialista expõe os resultados da primeira fase do projeto, realizado em seis dos distritos paulistanos mais afetados nos meses de março e abril.

“Nesse inquérito sorológico, visitamos alguns domicílios aleatoriamente, colhemos sangue dos moradores e analisamos o material. A conclusão é que cerca de 5% dos testados já tinham anticorpos (com a margem de erro, esse percentual pode variar de 3% a 7%). Parece pouco, mas é mais demorado e difícil chegar de 0% a 5% do que de 5% a 100%”, explicou. 

O projeto — realizado por cientistas da USP, Unifesp, em parceria com IBOPE Inteligência, Instituto Semeia e Grupo Fleury, sob a supervisão de Fernando Reinach — está sendo ampliado para outras regiões da capital e cidades do estado e do país. A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) divulgou os resultados da terceira fase de pesquisa de prevalência do novo coronavírus no Rio Grande do Sul, que tem servido de base para o governo gaúcho planejar a estratégia de combate ao coronavírus e a flexibilização progressiva do distanciamento social.

“O Brasil não foi capaz de organizar testes em larga escala, como fez a Alemanha e a Coreia do Sul, para identificar os infectados e isolá-los a tempo de reduzir a velocidade de infecção. Para avaliarmos o quão distantes estamos do platô da epidemia, a alternativa é ampliar pesquisas como as que estão sendo feitas em São Paulo e no Rio Grande do Sul”, concluiu o cientista. Perguntado se ele pensava que a vacina chegaria antes da imunização por rebanho se completar no Brasil, Reinach respondeu que a hipótese inversa lhe parece mais provável. 

          Saiba mais:

           Ciência, saúde e políticas públicas: quais as iniciativas necessárias no Brasil?

           Pandemias no curso da História - Por Rubens Ricupero.


          ‘Crise vai ser longa; falta coordenação também na economia’

Marcos Lisboa, Ph.D. em Economia pela Universidade da Pensilvânia, disse que a reação do governo federal na área econômica foi “atabalhoada, sem uma correta avaliação técnica da viabilidade e eficácia das medidas propostas, assim como de seus impactos a médio e longo prazo”. “O governo deu início a uma sucessão mal articulada de políticas de crédito e ajuda emergencial, mas como garantir que essa ajuda não saia do controle e de fato chegue aos indivíduos e empresas que realmente necessitam?”, perguntou. 

Como exemplo, ele citou a demora em fazer o auxílio chegar aos trabalhadores informais, que perderam toda a renda de uma hora para outra: “Muitos tiveram de se aglomerar na frente de agências bancárias para solicitar o auxílio e boa parte deles não receberam os recursos até hoje.”

Na área de crédito, é essencial socorrer pequenas e médias empresas e os setores econômicos mais duramente atingidos, mas “a pressão sobre os bancos no sentido de distribuir crédito indiscriminadamente pode resultar em uma crise bancária lá na frente, se não forem tomados os cuidados necessários”. “É inevitável que alguns negócios sumam, mas outros vão surgir e muitos vão mudar. A pandemia não deve servir de desculpa para dar dinheiro a empresas que já não iam bem ou não estavam sabendo se adaptar (aos novos tempos)”, disse.

Segundo o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a percepção inicial de que a crise seria curta e as medidas de socorro seriam transitórias se mostrou equivocada: “Não basta garantir uma ponte. No meio de uma crise dessas proporções, o aumento do endividamento público é inevitável, mas não pode sair do controle e resultar em gastos permanentes, tornando o futuro ainda mais incerto”, continuou.

Diante da hesitação do Executivo federal, o Legislativo e o Judiciário decidiram propor medidas que, por virem de vários direções sem uma visão consolidada, resultam em mais confusão. “A reação estatal à Covid-19 agrava a percepção de que país não tem um Norte na economia. Se já existia uma tendência de fuga de investidores, ela deve se acentuar”, disse.

O palestrante também cobrou mais empenho de estados e municípios em cortar custos permanentes: “Diversos deles estão em situação falimentar. É certo que precisam de ajuda agora, mas, se não houver um plano de ajuste, seus problemas fiscais vão se agravar ainda mais”, disse. Como medidas de contrapartida, ele citou o cumprimento do teto salarial do setor público, o fim das promoções automáticas, a aprovação de reformas da previdência locais, a venda de estatais ineficientes e a melhoria da qualidade dos serviços públicos. 

“Não basta o governo federal exigir congelamento de reajustes salariais por um ano e meio. É muito tímido. O governo federal tem a obrigação de coordenar a resposta econômica à crise em todo o país. Ou o setor público terminará por decretar a falência da sociedade brasileira”, concluiu.

            Leia também:

            Que respostas o Brasil deve dar aos efeitos socioeconômicos do coronavírus?

             Pandemia e transformação digital: as mudanças na vida das pessoas e das empresas.


Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

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