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Os atentados de Paris: significados e consequências dos atos de terror

/ auditório da Fundação FHC


Os atentados de Paris e o terror islâmico - Três pensadores brasileiros tentam explicar o perigoso mundo em que vivemos

Na mesma semana em que terroristas mataram cerca de 20 pessoas, entre elas 17 turistas estrangeiros, no Museu Bardo, uma das maiores coleções de mosaicos romanos do mundo, em Túnis (Tunísia), e mais de 120 pessoas em ataques suicidas contra duas mesquitas xiitas na capital do Iêmen, a Fundação FHC reuniu na terça-feira, 17 de março, em São Paulo três pensadores brasileiros de alta relevância para debater o tema Os atentados de Paris: significados e consequências dos atos de terror.

Durante pouco mais de duas horas, o embaixador Rubens Ricupero, o filósofo Renato Janine Ribeiro e o sociólogo Bernardo Sorj, nascido no Uruguai e naturalizado brasileiro, expuseram diversas facetas do complexo fenômeno do extremismo islâmico que, nestas duas primeiras décadas do século 21, age a qualquer hora e em qualquer lugar, causando indignação, incerteza e perplexidade.

Ao iniciar o debate, Ricupero lembrou um artigo que publicou há seis anos na Revista Brasileira de Política Externa, com o título A Islamização da Agenda Internacional. “Reli o artigo e curiosamente verifiquei que ele não envelheceu em nada. Quase todos os conflitos que ensangüentavam o mundo em 2009 tinham um componente islâmico, assim como hoje. E estamos mais perdidos do que nunca”, disse o embaixador que já representou o Brasil em Washington, Roma e Genebra, foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e secretário-geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

“O poder político associado à religião faz mal à saúde na perspectiva contemporânea dos direitos humanos”, afirmou Bernardo Sorj, professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e pesquisador não-residente do Brookings Institution, em Washington. “Nós hoje, graças a séculos de guerras e de intolerância, chegamos a um momento da história em que felizmente acreditamos em direitos humanos, mas isso não é óbvio para sociedades que não viveram o que nós vivemos na Europa e nos Estados Unidos.”

Já Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia da USP, trouxe um novo elemento para o diálogo: “Temos de pensar o atentado contra os cartunistas do Charlie Hebdo, assim como outros, também no quadro dos crimes de ódio, que estão ou se expandindo ou tendo cada vez maior visibilidade. Quando aquele rapaz foi agredido com uma lâmpada fluorescente em um ataque homofóbico na avenida Paulista, ou quando um pai tem uma orelha arrancada porque estava abraçado com seu filho supostamente por serem um casal, temos o mesmo fenômeno de pessoas que preferem projetar os conflitos que têm dentro de si pra fora. A grande batalha é cultural, mental. Como reduzir esse caldo de cultura? Valorizar a cultura de paz é um dos desafios mais importantes nos dias de hoje.”

O impacto do Islã radicalizado nas relações internacionais

Desde 2001, quando ocorreram os atentados contras as torres gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, os conflitos com componente islâmico passaram a dominar as relações internacionais, substituindo a Guerra Fria e o fim do comunismo pós-queda do Muro de Berlim (1989). Para Rubens Ricupero, o problema se agravou porque, após o Onze de Setembro, os Estados Unidos, após acertarem no início, fizeram um diagnóstico equivocado sobre a natureza do fenômeno e a estratégia de reação, optando por uma via predominantemente militarizada para um problema que tem muitas complexidades e matizes.

Daquela resposta militarizada se originaram conflitos entre Estados, com as invasões do Afeganistão, que está entrando em seu 14º ano (quase três vezes a duração da Segunda Guerra Mundial), e do Iraque, a partir de 2003. Ricupero salientou que o extremismo islâmico deste início de Século 21 “têm como principais atores agentes que não são Estados, como a rede Al Qaeda, que nunca chegou a ter território, teve um santuário (o Afeganistão na época do Talibã), mas é uma multinacional do terrorismo descentralizada. Muitos movimentos se inspiram nela, mas atuam de forma autônoma, com suas próprias fontes de financiamento.”

De acordo com o embaixador, o surgimento do Estado Islâmico (ISIS) no norte do Iraque e da Síria é resultado direto daquele erro de avaliação: “O Iraque de Saddam Hussein tinham todos os males do mundo, menos o terrorismo. Era um país que não tinha nada de extremismo islâmico, mesmo porque o Partido Baath (de Saddam) era laico e Saddam mantinha o pluralismo religioso. Os norte-americanos e os britânicos conseguiram fazer com que o Iraque passasse a ser uma das fontes geradores do terrorismo no Oriente Médio.”

Segundo Ricupero, “a barbárie do ISIS surgiu nas prisões iraquianas onde foram encerrados os militares e policiais sunitas (que apoiavam Saddam) pelas forças de ocupação americanas e pelo regime xiita que passou a governar o Iraque após a derrubada do ditador iraquiano”.

“Hoje há toda sorte de composições extremistas diferentes, como o ISIS e o Boko Haram (da Nigéria), que estão em perpétua efervescência e não têm uma só cabeça. Não adianta matar Bin Laden”, completou o embaixador.

“Depois daquele messianismo do ex-presidente George W. Bush, de acreditar na democratização dos países árabes estimulada pelos EUA, houve a grande decepção da Primavera Árabe, que foi a última ilusão do Iluminismo no Século 20”, continua. “Agora, nos tempos de Barack Obama, o Ocidente vai para o outro extremo, quer fazer apenas contenção de dano, não quer mais se meter”, afirmou.

Choque de Civilizações? 

Sobre o porquê de haver esse componente islâmico tão preponderante, o embaixador considera que, de tudo o que foi escrito nas últimas décadas, o que mais se aproxima da realidade atual é o artigo de 1993 do professor Samuel Huntington, Clash of Civilizations? (Choque de Civilizações?), publicado na revista Foreign Affairs e transformado em livro três anos depois.

“Apesar de ter ido um pouco além na tentativa de encontrar nos conflitos de cultura e de civilização a chave para explicar tudo o que vivenciamos, Huntington ofereceu insights muito interessantes para entender essa radicalização do Islã como, por exemplo, o que chama de ‘islamic ressurgence’: a ideia de que, após uma longa decadência, de séculos e séculos de dominação, inclusive pelos turcos otomanos, os árabes e também muçulmanos em outros lugares estão há mais de cem anos tentando recobrar sua dignidade e papel no mundo, em resposta também à modernização introduzida pelo Ocidente”, explicou Ricupero.

Hoje o fenômeno do Islã radical afeta quase o mundo todo. Está presente não só no Afeganistão e no Oriente Médio (em especial no Iraque e na Síria), mas também na África, na Rússia, na China, na Índia, no Paquistão, nas Filipinas e na Tailândia, entre outros. E, nas últimos anos, tem seduzido jovens de países com minoria muçulmana, em especial na Europa, que têm se alistado aos milhares para lutar nas fileiras do cada vez mais forte ISIS e da Al Qaeda. A América Latina, até o momento, se manteve em geral a salvo do extremismo islâmico, apesar do atentado à AMIA (organização judaica de Buenos Aires) em 1994.

Bernardo Sorj questionou a ideia de que o “choque de civilizações” de Samuel Huntington seja a teoria que melhor ajude a entender o perigoso mundo em que vivemos. “O ‘clash of civilizations’ é muito relativo porque o Islã fundamentalista não mata basicamente ocidentais. Milhões de muçulmanos morrem por causa do uso da religião como instrumento de luta política”, salientou o sociólogo de origem uruguaia. “O Islã jihadico é perigoso sobretudo para as próprias sociedades islâmicas.”

Sorj colocou um pouco mais de pimenta ao trazer para a mesa a oposição entre islamofóbicos e anti-islamofóbicos. “Para alguns, a radicalismo islâmico prova que há algo errado com o Islã de forma geral. Já outros tentam estabelecer uma separação entre a religião muçulmana e os atos de terrorismo cometido por grupos islâmicos. Não podemos estigmatizar o islamismo, mas acredito que a visão anti-islamofóbica não tem perspectiva histórica”, disse Bernardo.

Para o sociólogo, como diz o ditado popular, o buraco é mais embaixo. “Toda religião quando misturada com política em tempos passados teve fortes elementos autoritários, destrutivos, de desrespeito à pessoa humana. Nenhuma religião é, por natureza, orientada à democracia e aos direitos humanos. As crenças são outras”, afirmou.

A atração do jihadismo no Ocidente

Bernardo Sorj também colocou em xeque a ideia de que os milhares de jovens que viajam para o Iraque e a Síria para se juntar às fileiras do ISIS (Estado Islâmico) façam isso por se sentirem excluídos socialmente nos países ocidentais, em especial na Europa. “Esse discurso de esquerda de que esses jovens fazem parte de uma parcela excluída da população que não consegue emprego, tem dificuldade de integração, sofre racismo e, em consequência, se identifica e busca refúgio no radicalismo islâmico é política e moralmente incorreto”, defendeu.

“A pobreza, a exclusão e o racismo não produzem fundamentalismo islâmico, assim como não produzem nazismo, comunismo ou outras ideologias do tipo”, diz Sorj. Para o sociólogo, o que produz o fenômeno do jihadismo entre jovens europeus de origem muçulmana está na esfera da cultura e não se explica somente pelas condições de vida na Europa.

“Temos uma diáspora que vive em um contexto até muito favorável, pois os desempregados recebem uma ajuda de 1.800 euros por mês, o que não é a mesma coisa que viver na pobreza no Egito, por exemplo. Uma ideologia que se forma num contexto determinado atinge uma diáspora que se identifica com ela no contexto de um processo de globalização e de comunicação via internet”, afirmou. Ele lembra também que 20% dos jihadistas europeus são cristãos convertidos ao Islã.

Renato Janine Ribeiro seguiu uma linha de raciocínio similar. “O grande problema do mundo em termos de política é que vivemos em um mundo em que as pessoas se sentem desencontradas, especialmente os mais jovens. Diante disso, soluções que digam a verdade sem um esforço mental são as mais bem-vistas. O esforço mental é o mais difícil, o mais trabalhoso”, diz o filósofo.

“O combate a essa propaganda extremista deve ser pela mente das pessoas, daí a importância de se valorizar a cultura de paz”, propôs Renato.

Sorj concordou que há uma crise de identidade: “A Europa não produz hoje um sentido de futuro, um sentimento de comunidade. Estive recentemente na França e as pessoas dizem ‘que saudade da primeira semana pós-Charlie, quando sentimos que éramos novamente a França’.”

Renato Janine também fez um paralelo entre a guerra ao terrorismo tal como idealizada e colocada em prática pelos EUA e a guerra às drogas nas últimas décadas. “As duas guerras norte-americanas pós-queda do Muro de Berlim compartilham uma característica: elas são extraterritoriais”,disse.

“A guerra às drogas foi e é um fracasso tão grande que existe hoje uma campanha, da qual o presidente Fernando Henrique Cardoso aqui presente é um dos líderes mundiais, pela descriminalização das drogas leves. E o Uruguai se tornou pioneiro ao romper um acordo tácito de que nenhum país descriminalizaria as drogas. Esse combate fracassou porque não atinge a questão cultural, do porquê as pessoas procuram as drogas, assim como a lei da oferta e da procura intrínseca ao regime capitalista”, afirmou.

Um desagravo ao jornal Charlie Hebdo

Durante sua fala, Renato Janine fez questão de homenagear os chargistas do jornal francês Charlie Hebdo mortos no atentado à redação do jornal em Paris em janeiro deste ano. “Vivi na França entre 1972 e 1976 e minha formação deve muito a esse jornal de caráter anárquico. Não reconheço a caricatura que dele é feita pelos fanáticos islamistas que assassinaram uma parte substancial de sua redação nem a forma como a imprensa brasileira o representou”, disse.

“Os terroristas conseguiram vender o peixe de um jornal anti-islâmico, preconceituoso, talvez pró-Israel, o que não é verdade. Como um desagravo ao jornal e uma homenagem aos assassinados, é preciso restabelecer a verdade da diversidade da redação do Charlie”, afirmou.

Segundo o filósofo, desde que surgiu nos anos 1960, na esteira da guerra pela independência da Argélia, com tudo o que ela impactou na França, e após o célebre movimento de maio de 68 naquele país, o Charlie Hebdo esteve muito associado a um pensamento cultural e comportamental de caráter libertário. “Charlie esteve no quadro da mudança explicitado em frases como ‘É proibido proibir’ e ‘Quanto mais eu faço amor, mais eu tenho vontade de fazer a revolução’, assim como na defesa de causas como o direito ao aborto e a ecologia nos anos 70”, explicou.

“Mas a redação sempre foi dividida, havia brigas ásperas e embates internos, sempre houve muita divergência interna que permitisse dizer claramente o que Charlie quer”, disse Renato Janine Ribeiro.

Finalmente, Bernardo Sorj fez questão de lembrar a rica tradição da charge política existente na França. “Há um século atrás, católicos franceses entraram na Justiça contra charges que criticavam o papa e os cardeais. E perderam. A decisão foi de que, no mundo das ideias, não existem blasfêmias. Blasfêmia é para quem acredita nelas”, disse.

O sociólogo aproveitou para alfinetar o teólogo brasileiro Leonardo Boff, que, no artigo Eu não sou Charlie, Je ne suis pas Charlie, criticou o jornal Charlie Hebdo por, com suas charges, ofender a crença de milhões de pessoas. “É curioso que, depois, o próprio Boff escreveu um artigo dizendo que a religião de milhões de brasileiros é o futebol. Então, baseado no que ele disse, não se pode criticar o Flamengo, o Corinthians ou a seleção brasileira?”, cutucou. “Todo mundo tem o direito de acreditar no que quiser, mas os outros também podem criticar ou tirar sarro. Isso é liberdade, isso é democracia.”

Otávio Dias é jornalista especializado em política internacional. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do portal estadao.com.br e editor-chefe do Brasil Post

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