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Limites ecológicos do crescimento: desenvolvimento sustentável e inclusivo

/ auditório da Fundação FHC


Os conceitos em economia devem ser atualizados para que possam atender às necessidades de desenvolvimento das sociedades e, ao mesmo tempo, respeitar os limites do planeta. A atividade econômica e as políticas e discussões relacionadas a ela não devem continuar focadas apenas no lucro e no crescimento econômico contínuo, enquanto o mundo é ameaçado por desertificação, desmatamento, mudanças climáticas, aumento da poluição e outras tragédias resultantes da ação humana irresponsável e sem limites.

“Será preciso jogar em equipe para salvar a Terra da insensatez do crescimento e do lucro a qualquer preço. Não é possível retirar recursos indefinidamente da natureza, usá-los para o enriquecimento de poucos e, depois, devolver os dejetos à àgua e ao solo. O meio ambiente não se recupera automaticamente.”

Kate Raworth, economista, é professora e pesquisadora visitante sênior da Universidade de Oxford (Reino Unido).

As ciências econômicas devem ser uma bússola para a prosperidade humana com responsabilidade social e ambiental e os projetos econômicos do presente e do futuro devem incluir duas novas dinâmicas: a ecológica e a distributiva. Para atingir esses objetivos, devem tirar o foco apenas da produção e acumulação de riquezas e pensar no todo. Kate Raworth, que leciona no Environmental Change Institute, da Universidade de Oxford (Reino Unido), esteve na Fundação Fernando Henrique Cardoso para comentar a recentemente publicada edição em português do seu livro “Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo” (Editora Zahar), com apoio da The School of Life Brasil e da Editora Zahar.

            Economia ‘Donut’

Diferentemente do modelo de desenvolvimento dos século 19 e 20, em que os recursos são trazidos para dentro do sistema, utilizados para a produção de bens manufaturados e industriais, e em seguida os detritos que resultam do processo são expelidos para o exterior, frequentemente sem tratamento adequado, o “modelo Donut” proposto pela palestrante é inspirado no pequeno doce em forma de rosca popular nos EUA. 

Circular, a borda externa representa o limite máximo de utilização de recursos naturais e a borda interna, o limite mínimo de satisfação das necessidades básicas da população do planeta. O desenvolvimento consiste em tirar as pessoas do vazio interno da rosca, onde suas necessidades básicas não são preenchidas, e elevá-las até o limite superior da borda externa, que não pode ser rompido, sob pena de comprometer a sustentabilidade ambiental do desenvolvimento. “O formato do donut representa a desejável harmonia entre as necessidades humanas essenciais e a preservação do planeta onde vivemos”, disse.

Raworth refuta o princípio do “compromisso comum, responsabilidades diferenciadas”, defendido por países em desenvolvimento nas longas negociações sobre mudança climática promovidas pela ONU (que finalmente culminaram com a assinatura do Acordo de Paris, em dezembro de 2015). Segundo essa tese, a responsabilidade principal pela redução das emissões de carbono deveria ser das nações mais desenvolvidas, por serem elas mais industrializadas (e há mais tempo), terem um nível de consumo mais elevado e disporem de mais recursos para investir em soluções ecológicas. Segundo a palestrante, à medida que os países “em desenvolvimento” se tornaram grandes emissores, China à frente, perdeu sentido falar-se em responsabilidades diferenciadas. Todos devem agir.

A economista resiste, inclusive, à separação do mundo em países desenvolvidos e em desenvolvimento com base no tamanho de seu PIB. “Essa divisão é parte das crenças que precisam ser alteradas, pois o poderio econômico não deve ser a principal medida de desenvolvimento e, sim, o equilíbrio entre desenvolvimento econômico-social, qualidade e oportunidades de vida e respeito ao meio ambiente”, afirmou.

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          Selfie do planeta  

Associada sênior do Institute for Sustainability Leadership, da Universidade de Cambridge, a especialista inglesa propôs que os participantes imaginassem uma selfie da Terra nos dia atuais: um planeta em que a biodiversidade vem diminuindo bruscamente (cerca de 60% das espécies estão ameaçadas ou desapareceram); ar e água estão cada vez mais poluídos e o processo de aquecimento global já começa a mostrar sua cara em diversas regiões do globo. “Enquanto 1/3 da população mundial não tem acesso a banheiros e saneamento básico, 50% da riqueza global está nas mãos do 1% da população mais rica”, disse.

          Tecnologias distributivas e produção ‘cosmolocal’

Com o avanço tecnológico, que possibilita que cada vez mais conhecimentos estejam à disposição de todos, a pesquisadora sênior da Oxfam (confederação de ONGs que atua em mais de 90 países na busca de soluções para a pobreza e a desigualdade), vislumbra um futuro que propiciará a economia de recursos e o compartilhamento de oportunidades.

Citou, por exemplo, projetos de empresas automobilísticas que planejam enviar peças para que os próprios clientes montem um carro elétrico simples, como ocorre hoje com móveis, ou até mesmo possibilitem que as peças sejam impressas, evitando as emissões de carbono decorrentes do transporte de materiais. “Átomos são pesados e difíceis de serem transportados, dados são levíssimos e podem ser enviados instantaneamente para qualquer lugar do planeta. A produção tem tudo para ser ‘cosmolocal’”, disse.

Na indústria de smartphones, diferentemente do padrão Apple atual em que o fabricante tem controle total sobre seus aparelhos, a tendência é que os dispositivos sejam modulares, possibilitando ao dono montar seu próprio equipamento segundo suas reais necessidades e substituir facilmente peças quando necessário. Esses são exemplos de tecnologias distributivas, que empoderam os consumidores e têm menor impacto ambiental. 

Mas, para que esse cenário ganhe ímpeto e se torne realidade, é fundamental superar outra barreira, aquela que protege os lucros corporativos ou individuais por meio de um sistema de patentes e direitos autorais injusto e desproporcional. “Quando o modelo econômico baseado na propriedade for substituído por uma visão mais coletiva, será possível mudar os sistemas de produção e de consumo e impactar de fato o mundo em que vivemos”, disse Raworth.

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          Cursos de economia precisam de reforma

Para Raworth, os mais jovens devem desde já se preparar e pressionar por essa nova mentalidade e prática. E a mudança começa pelo reforma do currículo dos cursos de formação em economia e administração. Segundo a palestrante, modelos teóricos e analíticos propostos por economistas como Paul Samuelson, Adam Smith, John Stuart Mill e Milton Friedman, entre muitos outros, foram essenciais e adequados às suas respectivas épocas, mas precisam ser urgentemente atualizados diante dos novos desafios. 

“Se os autores dessas teorias ainda estivessem vivos, nem eles próprios concordariam totalmente com elas. Os jovens economistas precisam desenvolver novos modelos e propor à sociedade e aos formuladores de políticas soluções e alternativas que respondam às exigências do presente e do futuro”, disse.

“O planeta é a casa de todos nós. Podemos e devemos agir coletivamente como fazemos em nosso próprio lar, focando no interesse de todos os membros da família e não apenas no interesse individual do chefe ou líder. É fundamental exercermos nosso lado altruísta e esse esforço deve envolver toda a sociedade”, concluiu.

Assista ao Diálogo na Web “O capitalismo tem jeito?”, com os economistas Eduardo Giannetti da Fonseca e Laura Carvalho.

Rodrigo Lima, graduado em relações internacionais, trabalhou como repórter de economia no DCI (Diário do Comércio e da Indústria).

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