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Legado e futuro da política no Brasil

/ Transmissão online - via Zoom




“Para quem não vem de família rica ou importante, a política é assustadora. Tem muitas barreiras. Mas descobri que toda causa leva à política. A minha é a educação e, enquanto puder lutar para melhorá-la, não vou desistir. Fui forjada na dificuldade e não estou disposta a abrir mão das minhas convicções”, disse Tabata Amaral, 27, nascida e criada em uma ocupação no extremo sul da cidade de São Paulo. Ainda na escola pública se apaixonou por matemática, disputou Olimpíadas Científicas, conquistou medalhas e uma bolsa em uma escola particular, foi parar em Harvard, onde se formou em astrofísica e ciência política. Em 2018, foi eleita deputada federal por São Paulo com 264 mil votos.

“Comecei a trabalhar com causas ainda na escola em São Gonçalo (interior do Rio). Na adolescência, conheci lideranças evangélicas progressistas que me inspiraram. Após o ensino médio, tive uma lacuna de estudo de alguns anos, preenchida pelo ativismo social. O trabalho com os movimentos pavimentaram o caminho até a universidade. Também fui influenciado pelo movimento negro, que me revelou o orgulho de ser negro e as sutilezas da problemática racial no Brasil . Esta é a minha jornada”, disse Ronilso Pacheco, 44, formado em teologia pela PUC-Rio, pastor auxiliar da Igreja Batista de São Gonçalo e mestrando no Union Theological Seminary, da Universidade Columbia (NY).

“Venho de uma família que sempre esteve ligada à política. O estranho, no meu caso, foi optar pela carreira acadêmica. Como jovem sociólogo formado pela USP no anos 1950, tive contato com os movimentos sociais, pesquisei a situação dos negros no Sul do Brasil e me dei conta de como a vida do povo era diferente da dos que detinham o poder. Tornei-me professor e não queria saber da política institucional. Mas o regime militar me empurrou para a vida política. Não me considero um político profissional, mas sim um político acidental”, disse Fernando Henrique Cardoso, 90, ex-senador da República e presidente do Brasil por dois mandatos (1995-2003).

Este encontro entre três brasileiros de diferentes gerações que se declaram otimistas quanto ao futuro do país encerrou o ciclo de quatro debates “Um Intelectual na Política”, em comemoração aos 90 anos de FHC, completados em 18 de junho. Este é também o título da autobiografia do ex-presidente, publicada no primeiro semestre pela editora Companhia das Letras.

“Não consigo separar a luta por um país mais justo, mais ético e mais igualitário da luta por um país menos machista, menos racista e menos violento”, afirmou Tabata. 

       “Por que você está falando sobre pobreza menstrual?” 

“Não consigo separar a luta por um país mais justo, mais ético e mais igualitário da luta por um país menos machista, menos racista e menos violento. Se pegarmos uma foto do Congresso Nacional hoje, ele não vai espelhar a sociedade brasileira. Um Parlamento formado majoritariamente por homens brancos e ricos não vai resolver os problemas do Brasil”, afirmou Tabata. 

Como exemplo da resistência que enfrenta na Câmara dos Deputados, ela contou que apresentou um projeto para combater a “pobreza menstrual”: 

“No Brasil,  de cada quatro meninas uma costuma faltar à escola de forma recorrente por não ter acesso a absorvente. Elas chegam a perder um mês de estudo a cada ano. A política brasileira se nega a falar de menstruação, um assunto essencial para as mulheres. Quando apresentei um projeto sobre o assunto, a resposta foi ‘por que você está falando sobre isso, isso não importa’”, contou a deputada.

       “O que seriam os Estados Unidos sem as igrejas negras?”

“Essa visão da laicidade do Estado é parte de uma herança iluminista branca europeia, como se a religião por si só representasse um mal ao Estado. O que seriam os Estados Unidos sem as igrejas negras e o movimento de resistência civil ligado a elas? Na África do Sul, as comunidades religiosas negras tiveram papel central na luta contra o apartheid. Também no Haiti, na Jamaica e no Brasil as tradições religiosas africanas e o cristianismo/catolicismo tiveram papel fundamental no enfrentamento ao colonialismo, à escravidão e à opressão. Diferentemente do que prega parte da intelectualidade, a religião e a política estão historicamente imbricadas”, disse Ronilso.

O teólogo criticou, em parte, a esquerda pela hegemonia conservadora no mundo evangélico: “Ao ser reiteradamente hostil à perspectiva da religiosidade na política, a esquerda deixou o caminho livre para os barões evangélicos dominarem o discurso. Mas sempre existiu uma minoria progressista atuante, que mesmo marginal nunca se dobrou, nunca desistiu. Sou pastor, sou progressista e não abro mão disso. Peço a Deus para não perder a coragem de seguir lutando pelos direitos humanos com a minha fé.” 

       “Quem está na vida pública não pode ser sectário”

“O pai da minha mãe era protestante e a mãe da minha mãe era católica. Minha avó paterna, nascida no século 19, era ateia convicta. Já minha tia era espírita. Em casa havia muita liberdade religiosa, cada um praticava sua fé. Acredito que a religião não deve interferir nas decisões de governo, mas quando era presidente buscava atender a todos, com religião e sem religião. Sempre respeitei o conjunto das expressões religiosas existentes no país. Quem está na vida pública não pode ser sectário”, disse Fernando Henrique.

       Otimismo, com realismo 

“Claro que sou otimista com o Brasil. O próximo um ano e meio vai ser muito difícil. Tenho muito medo de uma possível reeleição de Bolsonaro e seu projeto autoritário, corrupto e criminoso que visa decretar o fim da nossa democracia. O que estamos vendo todos os dias desde a chegada dele ao poder não representa nosso povo. Somos melhores do que isso”, disse Tabata. 

A esperança é uma perspectiva profética essencial. Acredito na capacidade de nossa sociedade de um dia reconhecer o legado escravocrata colonial e superar o racismo embutido em nossos dramas sociais. Devemos direcionar o canhão de luz para iluminar nossos dilemas históricos. Nesse sentido, também sou otimista”, disse Ronilso.

“Então somos três otimistas, mas com realismo. Como a Tabata, tenho medo, pois sei o que é viver sob uma ditadura. É preciso juntar forças contra o autoritarismo, a injustiça e a desigualdade. Falar é fácil, mas realmente aceitar o outro, incorporar a diferença e a diversidade é difícil. Não podemos desistir do diálogo e da democracia. Basta de polarização”, concluiu Fernando Henrique.

 

       Saiba mais:

Nexo entrevista Ronilso Pacheco: ‘Religião e Sociedade’

Assista à entrevista de Tabata Amaral no Roda Viva (14/10/2019)

Veja a entrevista de FHC no Conversa com Bial (18/05/2021)

 

       Leia também:

Um intelectual na política: Inquietação, formação e prática política - Com Maria Hermínia Tavares de Almeida, José de Souza Martins e FHC

Utopias e experiência pública na democracia - Uma conversa entre FHC e Fernando Gabeira

Os desafios da política democrática e os desafios da globalização - Com Ricardo Lagos, Julio Maria Sanguinetti e Fernando Henrique Cardoso

 

 

Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.

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