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Identidades e crise das democracias - novo livro de Bernardo Sorj

/ Transmissão online - via Zoom


“A preocupação central deste novo livro é como construir sociedades formadas por indivíduos livres e autônomos e, ao mesmo tempo, por identidades coletivas que produzem sentimentos de comunidade, em que valores comuns são compartilhados”, disse o sociólogo Bernardo Sorj, na abertura deste webinar de lançamento do livro digital “Identidades e crise das democracias”, de sua autoria, disponível para download gratuito no site da Plataforma Democrática.

“Trata-se de um enorme desafio, em particular quando as expectativas de consumo de uma maioria que tem poucos recursos se transformam em fonte de ansiedade, insegurança e mal-estar. Mal-estar em relação ao insucesso pessoal, e insatisfação em relação a uma sociedade representada por um sistema político que já não encontra respostas para as incertezas do mundo”, continuou Bernardo, PhD em Sociologia pela The University of Manchester (Reino Unido).

“A fragilização dos laços entre as identidades coletivas e individuais representa o principal desafio que devem enfrentar as instituições democráticas, em especial os partidos políticos. Caso não sejam capazes de produzir respostas criativas, nossas democracias estarão em risco”, continuou o ex-professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autor de 28 livros publicados em várias línguas.

       Mundo vive uma metamorfose social

“Vivemos um momento de metamorfose global e estrutural. Em um mundo de identidades fragmentadas, instituições que perderam credibilidade e soluções econômicas que não funcionam mais. De novas tecnologias que ainda não estão suficientemente apropriadas. Resta saber se essa metamorfose será à la Kafka, parindo um inseto abjeto gigante, ou se dela nascerá uma linda borboleta, pronta para voar”, disse Sérgio Abranches, Mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília e doutor em Ciência Política pela Cornell University (EUA).

“A sociedade, tal como a conhecemos, está se desfazendo, e esta fragmentação está produzindo muitas reações diferentes, todas com impacto tanto sobre as identidades pessoais como coletivas. A minha identidade pessoal é construída em torno da minha ocupação e, de repente, vejo esse trabalho sequestrado pela Inteligência Artificial. Serei capaz de me manter íntegro e bem sucedido nesse futuro que eu não consigo ver?”, continuou Abranches, autor do já clássico “Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro” (Companhia das Letras, 2018).

“Com as identidades pessoais e coletivas em crise, como ficam as referências com as quais lidamos uns com os outros, nossos preconceitos e nossas afinidades? Há muita perplexidade sendo criada e seu impacto sobre a democracia pode ser devastador”, continuou o sociólogo, cujo último livro, de ficção, se chama “O intérprete de borboletas” (Record, 2022). Abranches concluiu elogiando o “cuidado conceitual e a estruturação sistemática” de Bernardo Sorj.

       Destruição da democracia assusta

“Ao fazer uma articulação fina sobre grandes temas que nos desassossegam nos dias que correm, o livro do Bernardo assume o tom de manifesto sociológico, recuperando um estilo que vem escasseando. Neste sentido, o livro tem um caráter monumental”, disse Omar Ribeiro Thomaz, professor livre-docente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp.

“A minha geração intelectual foi embalada pela perspectiva de construção e consolidação das instituições democráticas, não de destruição da democracia, como estamos vendo acontecer atualmente. Por isso, eu me assusto tanto com a realidade que estamos vivendo”, disse Omar, cujo novo livro, “O tempo e o medo”, será lançado em breve.

Omar destacou o que ele chamou de “processo de desidentificação”, em que há um progressivo distanciamento da cidadania em relação às instituições. “Foi o que aconteceu, por exemplo, no Brexit, que representou a coroação de um processo de desidentificação do Reino Unido em relação à Europa, manipulado de maneira frívola e perversa pela classe política britânica”, disse.

Segundo o antropólogo, também há um processo de desidentificação interpessoal, em que nos tornamos incapazes de enxergar o outro a não ser como um inimigo que precisa ser abatido. “Vivemos em um cenário político marcado pela produção em massa de inimigos, com consequências tremendas para o Brasil e o mundo”, concluiu.

       Liberdade em risco

“Faz várias décadas que dois problemas estão no centro das minhas preocupações: as relações entre democracia e capitalismo e as relações entre identidades sociais e individuais. Em relação ao primeiro tema, escrevi recentemente o livro “Em que mundo vivemos?”. O segundo tema é o foco do livro sobre o qual conversamos hoje. Ambos possuem em comum os temas da liberdade e da criatividade humana. E as condições sociais que possibilitam que elas sejam exercidas, tanto a nível individual como coletivo”, explicou Bernardo Sorj.

“As ciências sociais – com as quais nós três trabalhamos – têm dificuldades, por sua própria lógica de querer prever e controlar o futuro, de incluir as categorias de liberdade e criatividade, o que nos transforma em produtores de explicações do passado, sempre surpreendidos pelos ventos das mudanças sociais. Nos encontramos hoje, claramente, frente a transformações tanto no interior das sociedades como geopolíticas globais que podem ter consequências devastadoras, certamente para nossos valores e, potencialmente,  para a humanidade”, disse.

“O que é liberdade? É difícil definir. Mas sabemos o que não é liberdade. Na verdade, só tomamos consciência do valor da liberdade quando somos oprimidos. Estamos embarcando em um mundo distópico, em que seremos oprimidos sem nem mesmo ter consciência disso”, alertou Sorj.

Assista ao vídeo integral deste webinar.

Baixe os dois livros de Bernardo Sorj citados, ambos lançados pela Plataforma Democrática.

Em que mundo vivemos?

Identidade e crise das democracias

Leia o artigo inédito “A metamorfose social e a democracia”, de Sérgio Abranches, publicado na edição comemorativa dos dez anos do Journal of Democracy em Português.

Assista aos três vídeos da série Vale a Pena Perguntar: Inteligência Artificial, Democracia e Políticas Públicas

 

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Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. 

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