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Bolsonaro no Planalto, Biden na Casa Branca: como será a relação entre Brasil e EUA?

/ Transmissão online - via Zoom


Com a posse de Joe Biden como novo presidente norte-americano (em 20 de janeiro), os Estados Unidos retomarão seu papel histórico de principal fiador do multilateralismo (que vem desde o final da Segunda Guerra Mundial) e reforçarão sua atuação em questões globais como combate ao aquecimento climático, apoio à democracia e proteção dos direitos humanos. 

Governado por Jair Bolsonaro — que apoiou o derrotado Donald Trump até o último momento, inclusive no dia 6 de janeiro quando radicais de extrema direita, estimulados por Trump, invadiram o Congresso americano —, o Brasil precisará rever sua atual posição em relação aos temas acima, ou acabará cada vez mais isolado no plano internacional.

Esta foi a mensagem central trazida pelo ex-subsecretário de Estado Arturo Valenzuela, que liderou a diplomacia norte-americana para as Américas durante o governo Obama, neste webinar realizado pela Fundação FHC. O cientista político brasileiro Hussein Kalout, professor de Relações Internacionais e conselheiro do Harvard International Relations Council, participou da conversa. 

“O Brasil é um país muito importante e os novos responsáveis pela política externa norte-americana são profissionais de alto nível. Eles buscarão estabelecer uma relação construtiva com o governo brasileiro, apesar de sua hostilidade recente (em relação a Biden).”

Arturo Valenzuela, cientista político e diplomata, foi subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental (Governo Obama).

 

“Os novos responsáveis pela política externa norte-americana sabem o que querem do Brasil e como obter isso, agindo com pragmatismo. Mas não vejo como o Governo Biden fechar os olhos para a destruição da Amazônia e ataques à democracia e aos direitos humanos.”

Hussein Kalout, cientista político e especialista em relações internacionais, foi secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (Governo Temer).

 

Após ter demorado 38 dias para reconhecer a vitória de Biden (o que só ocorreu em 15 de dezembro, tendo sido um dos últimos líderes internacionais a fazê-lo), Bolsonaro enviou, no dia da posse, uma carta em tom conciliatório ao novo presidente americano: "Ao desejar a vossa excelência pleno êxito no exercício de seu mandato, peço que aceite, senhor presidente, os votos de minha mais alta estima e admiração." O brasileiro também disse ver “um excelente futuro para a parceria Brasil-EUA”. 

       Reconstruir o sistema internacional de governança

“Qual é o interesse fundamental dos Estados Unidos em sua relação com o mundo? Não se trata mais de America First (slogan usado pelo ex-presidente Donald Trump durante suas campanhas e gestão na Casa Branca), mas de trabalhar junto com outros países para resolver os problemas globais por meio de um multilateralismo renovado”, disse Valenzuela no início de sua fala. 

Nascido no Chile e naturalizado americano, o ex-diplomata lembrou que o Brasil é reconhecido como um ator relevante, até mesmo essencial, na Organização das Nações Unidas, na Organização Mundial do Comércio, no Banco Mundial, no Banco Interamericano de Desenvolvimento e, mais recentemente, nas Cúpulas do Clima da ONU (o Brasil foi anfitrião da Eco-92, a segunda conferência mundial sobre o meio ambiente, realizada no Rio de Janeiro). 

“O Brasil tem tudo para continuar sendo um tijolo fundamental no edifício da comunidade internacional, mas precisa manter o firme compromisso com a democracia e o Estado de Direito, os direitos humanos e o meio ambiente que demonstrou nas últimas décadas”, afirmou.

“O Brasil participará da mesa de diálogo no momento em que a nova arquitetura de governança global proposta por Biden for discutida? Ou vai optar por se isolar do novo consenso que pretendemos construir?”, concluiu o palestrante.

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Ao escolher um lado na recente disputa eleitoral norte-americana, e permanecer ao lado de Trump nas acusações infundadas de fraude, Bolsonaro dinamitou pontes com a nova administração americana. “Ele perdeu tudo e não tem, no momento, nenhum canal de diálogo com o novo governo em Washington”, disse o cientista político Hussein Kalout, um dos mais contundentes críticos à atual política externa brasileira.

“Biden e Bolsonaro têm visões antagonistas sobre o mundo. O presidente americano buscará renovar a aliança dos EUA com a Europa e possivelmente também com a América Latina. Diante desse quadro, o Brasil terá de dar uma guinada na sua política externa. Como explicar essa mudança brusca a seus apoiadores mais radicais?”, disse o professor de Relações Internacionais.

Kalout alertou para o risco de Bolsonaro estimular a rivalidade com o novo ocupante da Casa Branca durante sua provável campanha à reeleição em 2022. “Bolsonaro não quer ser responsabilizado pelas políticas equivocadas de seu governo no enfrentamento da pandemia e em outras áreas essenciais como economia, meio ambiente e educação. Uma maneira de fazer isso é apostar no enfrentamento ideológico, inclusive com a nova administração em Washington. Se isso acontecer, o nível de fricção nas relações bilaterais aumentará muito”, disse.

O cientista político brasileiro também acusou o atual governo de “obliterar a capacidade do país de se movimentar no tabuleiro do jogo de xadrez internacional”. “O Brasil era reconhecido como um país independente, com uma política externa baseada no interesse nacional e com influência crescente no mundo. Tudo isso está sendo comprometido pelo excesso de ideologia. Corremos o risco de ficarmos completamente isolados”, afirmou.

 

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       Pressão dos militares e empresários

Tanto Valenzuela como Kalout sinalizaram que a pressão de militares e empresários pode ser um fator para que o presidente brasileiro repense a relação com os EUA, agora sob a liderança de Biden.

“Quando ocupei cargos em Washington (nos governos democratas de Bill Clinton e Barack Obama), fui testemunha de que os militares brasileiros sempre foram abertos à cooperação com seus colegas norte-americanos em questões de defesa e segurança nacional relativas aos dois países. Espero que essa boa relação ajude neste momento difícil”, disse Valenzuela, que destacou também a importância dos investimentos de empresas americanas no Brasil.

Por fim, os dois palestrantes destacaram a importância de o Brasil saber se posicionar adequadamente diante da evolução das relações sino-americanas nos próximos anos. Após um período de acirramento das tensões entre Washington e Pequim, o governo Biden deve manter a China sob pressão, mas priorizando ações em fóruns multilaterais (como a OMC) em vez do enfrentamento direto, como fez Trump.

“A China continua a violar regras comerciais, de propriedade intelectual, direitos trabalhistas e direitos humanos. Este não é um problema somente dos Estados Unidos, mas de toda a comunidade internacional, e deve ser tratado multilateralmente. O Brasil vai se engajar nesse processo de maneira produtiva e equilibrada?”, questionou o americano.

 

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Otávio Dias é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br.

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