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A visão de Moscou sobre as relações com a América Latina e o Brasil

/ auditório da Fundação FHC


Em um período em que há um “aumento do potencial de conflitos no mundo” e as relações internacionais vivem uma “tendência de crescente ideologização”, a Rússia defende o multilateralismo como caminho para encontrar soluções para os principais desafios globais e diz que os países da América Latina, inclusive o Brasil, são parceiros importantes para construir uma ordem mundial policêntrica, baseada na busca de consensos e na cooperação econômica.

Estas foram as mensagens trazidas de Moscou pelo embaixador russo Aleksandr Valentinovitch Schetinin, que desde 2012 dirige o Departamento de América Latina do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia, durante a palestra “A visão de Moscou sobre as relações com a América Latina”, na Fundação FHC. “Na época da União Soviética (1922-1991), vivemos um largo período em que as políticas interna e externa de meu país eram pautadas pela ideologia. Atualmente, é claro que defendemos nossos interesses nacionais, mas não classificamos mais os países como amigos ou inimigos e, sim, como sócios em potencial em um mundo multipolar”, afirmou.

Descontraído e falando espanhol fluente, o diplomata também se referiu a dois momentos da história de seu país no século 20 para alertar sobre os riscos de uma ruptura na Venezuela. “A agudização da crise econômico-social pode levar à destruição do Estado venezuelano, desembocando em ausência de poder e caos. No século passado, a Rússia viveu dois períodos em que o Estado foi destruído pela luta política, em 1917 (Revolução Russa) e em 1991 (dissolução da URSS). Sabemos quais foram as consequências e o esforço necessário para reparar ao menos em parte o que foi perdido durante aqueles períodos. Não desejamos isso a ninguém”, disse.

“A Rússia deseja uma América Latina forte, politicamente unida e economicamente viável. Não pretendemos colocar nossos parceiros na região diante de um dilema, mas sim desenvolver uma relação que possa ser exemplo de diálogo construtivo.”

Aleksandr V. Schetinin, diretor do Departamento de América Latina da chancelaria russa 

       ‘Não se limitem a ser um país regular’

Segundo o diplomata, há diversas complementaridades entre as economias russa e latino-americanas, em especial na área energética, mas também em infra-estrutura, segurança e tecnologia. Ele lembrou que o Brasil responde por um terço dos negócios entre Rússia e América Latina e destacou a importância do país no continente. “Por sua história, geografia e dimensão econômica, o Brasil tem todas as condições de ser líder não só na América Latina mas no mundo. Não se limitem a ser um país apenas regular, mas definam parâmetros para que outros o sigam”, disse.

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Desde 1998 membro da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), da qual também fazem parte os latino-americanos México, Chile e Peru, a Rússia disse ser favorável a uma aproximação dos países da APEC ao Mercosul e defendeu o aprofundamento do BRICS, grupo que reúne cinco países populosos e com grandes extensões territoriais, entre eles Brasil e Rússia. “Na última década, o BRICS teve uma agenda extensa, com cooperação em várias áreas e destaque para a criação do NBD (Novo Banco de Desenvolvimento, com sede em Xangai). Temos uma agenda pré-estabelecida e a chegada de um novo governo no Brasil (em janeiro de 2019) representa um desafio para a continuação desse diálogo”, disse.

Segundo Schetinin, Moscou apoia a pretensão do Brasil de se tornar membro permanente de um Conselho de Segurança da ONU ampliado.

       ‘Uma intervenção na Venezuela abriria precedente perigoso na região’  

Ao comentar a crise política na Venezuela, o representante de Moscou disse que o presidente Nicolás Maduro cometeu erros, mas condenou sanções impostas pelos Estados Unidos ao atual governo venezuelano e rejeitou o eventual uso da força para tirá-lo do poder. “O atual governo venezuelano cometeu muitos erros, principalmente no aspecto econômico-social, mas também é verdade que a situação se agravou recentemente devido a sanções sufocantes que foram impostas contra o país. O que estamos vendo (com as sanções) é a apropriação ilegal de recursos de outro Estado”, disse.

Ele negou que o governo Putin tenha enviado militares para proteger Maduro: “Não há presença militar russa na Venezuela. Temos uma cooperação militar com a Venezuela, que prevê o envio de técnicos militares ao país. Essa cooperação está de acordo com as regras do direito internacional e não está dirigida contra ninguém ou nenhum outro país, seja do ponto de vista político, econômico ou militar.”

Segundo Schetinin, o governo liderado por Maduro é legítimo. Já o líder oposicionista Juan Guaidó (presidente da Assembleia Nacional que se autoproclamou presidente, sob o argumento de que as últimas eleições foram fraudadas) não tem poder de fato. Para o embaixador,  cabe aos venezuelanos decidir o futuro do país, de acordo com o princípio internacional de não ingerência e com base na Constituição e nas leis venezuelanas.

Sobre a eventualidade de uma intervenção militar externa para tirar Maduro do poder, hipótese aventada por integrantes do governo Trump mas pouco provável nas atuais circunstâncias, o diplomata afirmou que ela abriria um precedente perigoso no continente.  “Depois da Venezuela, poderia vir Cuba, Nicarágua e até mesmo a Bolívia”, alertou. Schetinin afirmou que Moscou “não defende Maduro, mas as cartas da ONU e da OEA e os princípios do direito internacional”.

Já na etapa de perguntas da plateia, o cônsul do Peru em São Paulo, Carlos Ortiz, perguntou se a anexação da Península da Crimeia pela Rússia em 2014 não representaria uma intervenção nos assuntos internos da Ucrânia e, consequentemente, uma violação ao direito internacional. O diplomata russo negou.

“Em fevereiro de 2014, ocorreu um golpe de Estado na Ucrânia com a participação do Parlamento. Em seguida, houve um referendo na Crimeia (província semi-autônoma da Ucrânia de maioria russa) em que mais de 90% da população votou pela independência da região em relação à Kiev (capital ucraniana) e a integração à Rússia”, afirmou. A anexação da Crimeia (março de 2014) não foi reconhecida pela Ucrânia (ex-república soviética) e pela ONU e abriu uma crise entre Moscou e as potências ocidentais, incluindo EUA e os principais países da União Europeia.

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          Instituições globais em xeque

Sem citar nomes, o palestrante criticou o fato de alguns países, entre eles os EUA sob a presidência de Trump e o Brasil sob a liderança de Bolsonaro, defenderem ou mesmo adotarem medidas que, segundo ele, “buscam minar o papel de instituições globais, incluindo a Unesco, a Conferência do Clima, a OMC e a própria ONU”.

“O que temos visto é uma tentativa de submeter os rumos do planeta aos interesses de um Estado, na linha ‘ou fazemos um acordo sobre minhas condições ou não há acordo’. Essa nova postura é um atentado aos paradigmas internacionais que vigoraram nas últimas décadas e que possibilitaram a formação de importantes consensos, alguns deles traduzidos em tratados, como o Protocolo de Kyoto. A Rússia é a favor do enfoque multilateral para a solução de problemas comuns a todas as nações”, afirmou.

Schetinin também alertou para o que chamou de “politização de organismos técnicos”, citando especificamente a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), e criticou a decisão dos EUA de suspender acordos de controle de armas nucleares com a Rússia, sob o argumento de que Moscou teria violado cláusulas do acordo ao desenvolver novos mísseis. Para a Rússia, a suspensão do controle poderia desencadear uma nova corrida armamentista entre as duas superpotências nucleares.

“Não concordamos em relação a todos os assuntos discutidos hoje, mas gostaria de elogiar a disposição do palestrante de expor a visão de Moscou de maneira, clara, direta e transparente. A Fundação FHC está sempre aberta ao diálogo franco e construtivo”, disse o cientista político Sérgio Fausto, superintendente executivo da Fundação, ao final da palestra, que contou com o apoio do Consulado da Rússia em São Paulo.

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Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

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