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A Turquia (democrática?) no explosivo xadrez do Oriente Médio

/ auditório da Fundação FHC


Entenda a guinada da Turquia (democrática?) no explosivo xadrez do Oriente Médio.

E o que está em jogo nas eleições de 7 de junho.

“Venho de um país onde, por causa de um simples tuíte, uma jornalista foi presa e pode enfrentar até cinco anos de cadeia.” Com esta frase, o jornalista Hasan Cemal resume a guinada autoritária pela qual passa a Turquia, que há apenas alguns anos era vista como exemplo de que é (seria?) possível conciliar o islã e a democracia.

Além de congelar as reformas democráticas que pareciam avançar no início deste século, num momento em que o grande país europeu-asiático negociava sua adesão à União Europeia, a Turquia também realizou uma mudança brusca em sua diplomacia. De uma política de “zero problema” com seus vizinhos do Oriente Médio, passou a apoiar grupos islâmicos que lutam para substituir regimes seculares autoritários da região, seja pela via democrática ou mesmo pelas armas.

No caso do conflito na Síria, Ankara (sede do governo turco) tem adotado uma postura dúbia em relação ao autoproclamado Estado Islâmico (ISIS): oficialmente é contra os combatentes islâmicos radicais do ISIS, mas pouco (ou nada) faz contra eles. “A Turquia não confronta o ISIS diretamente porque há células adormecidas dentro da Turquia e, se algo for feito contra o grupo, a resposta deve ser violência e terrorismo. Além disso, o principal alvo da atual liderança turca é o regime de Bashar al-Assad, que tem recebido apoio do Irã”, diz o veterano correspondente de guerra turco Cengiz Çandar.

No centro dessa virada rumo a um regime internamente cada vez mais absolutista e repressor e do envolvimento da Turquia na guerra sectária que consome o Oriente Médio está um homem poderoso e enigmático aos olhos do Ocidente: o ex-premiê e atual presidente, Recep Taypp Erdoğan. “Quando falamos da Turquia atual, temos de falar em primeiro lugar do presidente Erdoğan porque ele é maior do que a vida”, brincou Çandar, cientista político e colunista do diário Radikal, de Istambul, e do Al Monitor, jornal digital norte-americano no Oriente Médio.

“Erdoğan é o homem que poderia ter conduzido a Turquia à família das verdadeiras democracias. Em vez disso, está nos levando de volta à selvageria. Estamos passando de um regime tutelado por uma burocracia militar para um regime de despotismo civil”, afirmou o também cientista político Hasan Cemal, autor de 12 livros sobre a Turquia e um dos maiores defensores da liberdade de expressão no país. Ambos participaram do seminário “A Turquia (democrática?) no explosivo xadrez do Oriente Médio”, realizado pela Fundação FHC, em São Paulo, em 21 de maio, com mediação do superintendente-executivo do instituto, Sérgio Fausto. 

Recep Taypp Erdoğan foi eleito primeiro-ministro pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de orientação islâmica, em 2003, encerrando décadas de domínio de uma aliança de militares e políticos nacionalistas que vinha desde a época de Mustafa Kemal Atatürk, o grande heroi da Guerra da Independência Turca (1923), fundador e primeiro presidente da República da Turquia.

Nos primeiros anos sob a liderança de Erdoğan, o país de ampla maioria muçulmana, mas com tradição de governo secular, avançou em termos de democratização e passou por um período de crescimento econômico de 6% ao ano, em média, tornando-se um ator importante na política e na economia mundiais.

O clima, no entanto, começou a mudar na virada da década com a crise financeira mundial, que prejudicou a economia turca, e a Primavera Árabe. A crise na zona do euro também teve influência, pois congelou o processo de adesão da Turquia à UE, a principal força motriz das reformas democráticas então em curso no país, e reduziu os investimentos europeus no país.

A mudança na política externa turca

Para Cengiz Çandar, para compreender a Turquia de hoje é fundamental situar o país no espectro mais amplo do que está acontecendo no Oriente Médio. “Em seu último livro, ‘World Order’, publicado em 2014, Henry Kissinger afirma que o Oriente Médio vive atualmente todas as suas experiências históricas - império, guerra santa, ocupação estrangeira, guerras sectárias de todos contra todos – simultaneamente. É a fotografia de uma região em desordem e, se um dia uma nova ordem será reintroduzida, quando e como, é uma grande interrogação”, disse.

Segundo Cengiz, antes da Primavera Árabe, a política externa turca era baseada na plena aceitação do status quo: “Isso significava que a Turquia não atuaria para mudar nenhum regime ou governo na região, introduzindo uma espécie de ‘soft power’, por meio do qual buscava estender sua influência com base no desenvolvimento econômico, comercial e na mediação de conflitos, uma forma de atuar bem diferente da do Irã.”

Mas, quando os protestos populares pró-democracia eclodiram na Tunísia no final de 2010, contaminando nos meses e anos seguintes o Egito, a Líbia e a Síria, a Turquia de Erdoğan passou a apoiar movimentos políticos islâmicos ligados à Irmandade Muçulmana, que chegou ao poder no Egito em 2012 com a eleição de Mohamed Morsi (deposto por um golpe militar um ano depois).

A guerra civil na Síria 

A situação se complicou ainda mais com o recrudescimento da guerra na Síria em meados de 2012. O país governado com mãos de ferro pelo presidente Bashar al-Assad, que herdou o poder de seu pai, Hafez al-Assad, se tornou o principal campo de batalha de “proxy wars” no Oriente Médio. Nas chamadas “proxy wars” (guerra por procuração), dois ou mais países se utilizam de terceiras partes, os chamados “proxies” (que podem ser outros países ou grupos armados), para tentar atingir seus objetivos sem se envolverem diretamente em um conflito militar.

“Na Síria, o Ocidente está em choque com o radicalismo islâmico. As principais seitas do islamismo, os sunitas e os xiitas, lutam entre si. E, por trás das diversas forças em disputa, estão potências regionais como Irã, Turquia e Arábia Saudita, e globais como Rússia e Estados Unidos. Todos estão disputando o poder sobre os corpos de centenas de milhares de mortos”, afirmou Çandar.

A Rússia e o xiita Irã apoiam o regime de Assad, representante da minoria alauíta, combatida pela maioria sunita síria. Já a Turquia e a Arábia Saudita, de maioria sunita, se aliaram contra o regime sírio, justamente por ele ser apoiado pelo governo xiita iraniano. Os sunitas e os xiitas são seitas islâmicas tradicionalmente rivais.

Os EUA defendem a mudança de regime, mas têm realizado ataques ao radical Estado Islâmico, uma das principais forças da sublevação contra o presidente sírio, cada vez mais forte tanto no Iraque quanto na Síria. Para Çandar, ao entrar no atoleiro sírio, a Turquia se distanciou do caminho que a levaria a ser um país muçulmano realmente democrático para se tornar parte envolvida no conflito sectário que consome o país e toda a região.

O afastamento da Europa

O afastamento da Turquia da União Europeia, causado pela crise na zona do euro e pela resistência principalmente da Alemanha e da França de aceitarem a entrada de um país de mais de 80 milhões de habitantes, a grande maioria deles muçulmanos, no bloco europeu, também teve consequências. 

Como resposta à frustração causada pelo fracasso do projeto de adesão à UE, Erdoğan voltou suas energias para o Oriente Médio e passou a se apresentar não apenas como líder da Turquia, mas como porta-voz do mundo muçulmano como um todo. “Para projetar sua influência até o Cairo, Bagdá, Damasco, Jerusalém e até Sarajevo, ele passou a agir cada vez mais como um sultão otomano, com poderes absolutistas, e menos como o líder democrático da Turquia”, explicou Çandar.

A repressão às manifestações de 2013 

Em 2013, o governo Erdoğan, depois de impressionantes três vitórias eleitorais, foi surpreendido por uma série de protestos em Istambul, organizados via redes sociais, como os que aconteceram no Brasil pouco depois. As manifestações tinham as mais diversas reivindicações e bandeiras, por mais democracia e contra a recente estagnação econômica do país, entre outras. 

Cada vez mais forte e autoritário, o então premiê turco reprimiu duramente os protestos e chegou a bloquear o acesso da população às mídias sociais. “Venho de um país em que o então primeiro-ministro baniu o Twitter e o YouTube. Em que basta o premiê ou o agora presidente pegar um telefone para que uma reportagem seja proibida e um jornalista, demitido”, desabafou Hasan Cemal, ele mesmo desligado de um importante jornal por interferência do governo.

Cemal também protestou contra a crescente influência islâmica na sociedade turca, impulsionada pela chegada do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) ao poder: “Vivo em um país em que o governo se mete na vida privada dos cidadãos, determinando o comprimento das saias das meninas e o número de filhos que uma família deve ter. Pelo menos três, ordenou Erdoğan.”

Hasan não acredita, no entanto, que o presidente turco consiga fazer da Turquia uma república islâmica. “Ele tem tido sucesso em instalar um regime cada vez mais despótico, mas a Turquia é um país diverso do ponto de vista social, econômico e político, com uma tradição de separação entre Estado e religião. Erdoğan tem uma mente conservadora e islâmica, mas não conseguirá mudar o país inteiro nessa direção.”

Cengiz Çandar concorda, mas faz um alerta: “É importante nos lembrarmos de que estamos no Oriente Médio. Se a Turquia não retomar o crescimento econômico e não se tornar mais inclusiva, e se não reforçarmos nossa democracia, o Estado de Direito e as instituições, o futuro próximo é incerto.”

O que está em jogo nas próximas eleições

Em 7 de junho próximo, haverá eleições parlamentares no país e o AKP tentará obter um quarto mandato consecutivo à frente do país. O atual premiê Ahmet Davutoğlu sucedeu Erdoğan depois que o último foi eleito presidente, no ano passado. “As eleições são críticas porque, se o partido de Erdoğan obtiver uma ampla maioria, ele poderá tentar mudar a Constituição para estabelecer um regime presidencialista em que tenha plenos poderes”, disse Hasan Cemal.

“Erdoğan não aprendeu que obter a maioria dos votos não significa uma licença para violar os princípios democráticos, ignorar a independência do Judiciário e a separação dos poderes, atacar a liberdade de expressão, destruir a mídia independente e subjugar a sociedade civil. Se não aprendeu isso até agora, nunca o fará”, completou o cientista político.

O Estado Islâmico e a questão curda

De acordo com Cengiz Çandar, o fortalecimento do Estado Islâmico (ISIS) no Iraque e na Síria colocou a Turquia no que ele qualificou de um “jogo de soma zero”.  À medida que o conflito na Síria se tornou uma “guerra de proxies”, opondo a Turquia (e a Arábia Saudita) ao Irã no campo de batalha sírio, o atual governo de Ankara passou a apoiar qualquer grupo que lutasse contra o presidente Bashar al-Assad.

Mas, num determinado momento, os grupos oposicionistas sírios de tendência secular (não islâmicos e supostamente pró-democracia) foram sobrepujados pelo ISIS e outros grupos radicais islâmicos.“No início, Ankara não viu os combatentes do ISIS como açougueiros, selvagens, loucos, que é como Obama, o Ocidente e quase todo o mundo os veem. Mas sim como parte da reação sunita ao regime sírio. Se Assad fosse removido, o ISIS desapareceria”, explicou Çandar.

O Estado Islâmico, no entanto, ganhou força e no último ano tem realizado um grande número de massacres e execuções sumárias e destruído importantes sítios arqueológicos do Iraque e da Síria, provocando uma reação cada vez maior da comunidade internacional. Diante desta situação, a Turquia passou a condenar o ISIS. “Mas continua apoiando militarmente elementos islâmicos na Síria com armas, dinheiro e apoio logístico”, disse Çandar.

Hasan Cemal lembra haver outro motivo pelo qual a Turquia lavou as mãos diante do avanço do Estado Islâmico nos nortes da Síria e do Iraque: a região é habitada por uma maioria curda, assim como o leste e o sudeste da Turquia, e os curdos lutam há décadas por independência ou, pelo menos, ampla autonomia em relação aos governos centrais dos três países. No Iraque e na Síria, já desfrutavam de razoável autonomia, o que ainda não acontece na Turquia.

Nos últimos anos, Erdoğan tem buscado melhorar as relações com os curdos da Turquia e seu principal partido, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), cujo braço armado declarou um cessar-fogo em 2013 Mas, segundo Cengiz Çandar, a relação entre Ankara e o PKK é semelhante à do governo da Colômbia com as Farc. As duas partes beligerantes vivem em um constante morde e assopra.  “Ankara deixou que o Estado Islâmico fizesse o serviço sujo contra os curdos sírios porque não queria que o PKK se infiltrasse em território sírio e fortalecesse suas posições por lá”, explicou o colunista. A Turquia e a Síria têm mais de 900 quilômetros de fronteira, com curdos vivendo dos dois lados.

O Oriente Médio e a Guerra dos Trinta Anos

Já ao final do debate, que tratou de outras questões complexas e polêmicas como a relação da Turquia com Israel e os palestinos, assim como do provável acordo nuclear com o Irã, um membro da plateia questionou Cengiz Çandar sobre as perspectivas no Oriente Médio. A resposta, embora perspicaz e até mesmo espirituosa, não foi nada confortadora.

O veterano jornalista fez uma analogia entre a atual guerra sectária no Oriente Médio e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), como ficou conhecida uma série de conflitos sangrentos que diversas nações europeias travaram entre si por rivalidades religiosas (católicos versus protestantes), dinásticas, territoriais e comerciais.

“Estamos vivendo nossa guerra dos trinta anos. Lá também houve uma luta de todos contra todos. O conflito na Europa só terminou quando todos estavam exaustos e finalmente decidiram coexistir. Quanto tempo vai durar o atual conflito no Oriente Médio? Três décadas? Mais? Menos? Quando estivermos exauridos, a guerra acabará. E, então, faremos nossa versão da Paz de Vestfália”, disse. 

“Mas, por enquanto, deixem-nos matar uns aos outros. Ainda temos muita energia para cuspir fogo”, concluiu, em chave de humor negro.

Otávio Dias, jornalista, é especializado em questões internacionais. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do estadão.com.br e editor-chefe do Brasil Post, parceria entre o Huffington Post e o Grupo Abril. 

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