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  • Venezuela: existe saída para esse trágico impasse?*

    Abraham F. Lowenthal é fundador e diretor do Latin American Program do Woodrow Wilson Center e do Inter-American Dialogue. Também é professor emérito da Universidade do Sul da Califórnia (University of Southern California). Foi condecorado por presidentes do Brasil, Peru e República Dominicana por suas valiosas contribuições às relações interamericanas. Davild Smilde é professor de recursos humanos da Universidade Tulane (Tulane University) e pesquisador sênior do Washington Office on Latin America, onde faz a curadoria do blog Venezuelan Politics and Human Rights. Estudou a Venezuela por 25 anos e publicou três livros e trinta artigos acadêmicos e capítulos de livro sobre o assunto.



    Juan Guaidó , Presidente Interino da Venezuela — 2019 — Julio Lovera/Shutterstock.com

    Em 30 de abril de 2019, a oposição democrática venezuelana, liderada por Juan Guaidó, tentou articular um levante decisivo contra o governo autoritário do país, liderado por Nicolás Maduro, levando a um ponto crítico o conflito que assolava a Venezuela desde o início do ano. Mas o levante não foi capaz de atrair o apoio de uma massa crítica de líderes militares venezuelanos, e a tentativa fracassada não resultou na deposição de Maduro. A Venezuela, portanto, permanece atolada em um impasse catastrófico: uma economia em queda livre, inflação galopante, capacidade produtiva devastada, violência desenfreada, intensa polarização, sofrimento generalizado e emigração em massa.


    Nicolás Maduro, Presidente da Venezuela — 2018 — StringerAl/Shutterstock.com


    Maduro chegou ao poder na Venezuela após a morte de Hugo Chávez Frías, o militar carismático eleito presidente em 1998, que usou a bonança dos preços altos do petróleo para conquistar o apoio de amplos setores de venezuelanos que haviam sido excluídos da riqueza petrolífera e financiar políticas internacionais assertivas para promover seu projeto de “socialismo do século 21”. Um ano antes de sua reeleição em 2012, Chávez foi diagnosticado com câncer. Antes de assumir o novo mandato, havia ficado claro que o prognóstico era negativo, e ele indicou Maduro como seu sucessor. Maduro conquistou a presidência por conta própria em 2013, em eleições acirradas e contestadas (até então, haviam sido consideradas confiáveis, quando não completamente livres e justas).

    A queda no preço do petróleo e o aumento da preocupação com a violência e a corrupção minaram o apoio de Maduro ao longo dos anos, mas ele se manteve no poder tornando-se mais repressivo e corrupto. Em maio de 2018, conquistou um novo mandato em uma eleição boicotada pelos principais partidos de oposição e não reconhecida pela maioria dos países ocidentais. Sua taxa de aprovação, de acordo com institutos de pesquisa reconhecidos, caiu da faixa de 20–30% para a faixa de 10–20% ou menos entre 2018 e 2019. Ainda assim, Maduro mantém o apoio ou anuência da maioria dos oficiais das forças armadas venezuelanas e da polícia nacional, bem como de forças milicianas mobilizadas pelo governo.

    A oposição política organizada, há muito fragmentada por rivalidades pessoais e falta de visão compartilhada, uniu-se em janeiro de 2019 em torno de Guaidó, presidente da Assembleia Nacional que havia sido democraticamente eleita em dezembro de 2015, ocasião na qual os partidos de oposição conquistaram dois terços dos assentos. Apoiando-se em uma interpretação controversa da constituição da Venezuela, Guaidó declarou-se presidente interino da Venezuela dias depois de Maduro tomar posse em janeiro de 2019. Ele justificou essa manobra ousada com o argumento de que a Assembleia, que havia sido destituída de quase todo seu poder por maquinações de Maduro, rejeitava os resultados eleitorais de maio de 2018, considerando-os ilegítimos. Após consultas prévias realizadas em segredo, o governo dos Estados Unidos reconheceu Guaidó como o presidente legítimo da Venezuela. A mesma decisão foi logo em seguida adotada pela maioria dos governos sul-americanos e europeus.

    No entanto — como os acontecimentos de 30 de abril ressaltaram — , Guaidó e seus apoiadores não controlam territórios ou instituições públicas relevantes na Venezuela, não administram nenhum programa governamental e ainda não contam com um apoio substancial nas forças armadas. Muitos governos, liderados pelos Estados Unidos, desde o início do ano pressionam o governo da Venezuela e seus integrantes por meio de pesadas sanções econômicas. Também buscaram disponibilizar uma quantidade considerável de fundos públicos venezuelanos no exterior a Guaidó e seus apoiadores, mas isso não é fácil e a oposição ainda não possui financiamento adequado. Ao menos quatro milhões de venezuelanos — mais de 10% da população — deixou o país desde 2015. À medida que um número crescente de venezuelanos deixa o país, países vizinhos começam a impor restrições à sua entrada.

    Altos funcionários do governo americano afirmaram repetidas vezes nos últimos meses que “todas as opções estão sendo consideradas”, incluindo o uso de força militar, para pôr fim ao governo de Maduro. Mas governos latino-americanos e europeus disseram que não são favoráveis e não participariam de uma intervenção militar. Também há pouco interesse nessa opção em Washington, exceto no gabinete de John Bolton (demitido do cargo de Assessor de Segurança Nacional em 09/2019) e entre alguns poucos congressistas e outros atores políticos ligados a membros das diásporas cubana e venezuelana. A maioria dos militares, membros das agências de inteligência e diplomatas é cética com relação a uma intervenção armada.

    Para resolver esse impasse, vários países europeus e latino-americanos vêm pedindo negociações. Autoridades americanas, bem como Guaidó e seu círculo mais próximo de apoiadores, inúmeras vezes já insinuaram que o tempo de diálogo com Maduro já passou, pois sentem, não sem razão, que ele usou as negociações anteriores para dividir e desmobilizar a oposição. No entanto, representantes da equipe de Guaidó conduziram negociações secretas com alguns membros do governo de Maduro sobre uma proposta de transferência de poder para um regime interino, ao mesmo tempo em que encorajavam uma revolta militar em 30 de abril. Em maio, o governo norueguês organizou dois encontros entre representantes do governo de Maduro e da equipe de Guaidó.

    É possível uma transição democrática negociada na Venezuela?

    A Venezuela é um país com tradições políticas democráticas e recursos naturais significativos. Por muitos anos, desfrutou de uma harmonia política considerável, lubrificada pelo petróleo. Após a eleição democrática de Chávez em 1998, no entanto, o país rumou em direção a um governo cada vez mais autoritário, ainda que as instituições democráticas formais tenham sido preservadas e esforços tenham sido realizados para expandir a participação popular. Já em 2008, diversos líderes proeminentes da oposição foram impedidos de assumir ou de disputar cargos eletivos, alguns foram presos e outros buscaram o exílio, sinais de uma deriva autoritária que ainda está em curso. Os mecanismos de freios e contrapesos de governança democrática efetiva foram solapados pela interferência do governo chavista no Judiciário, Legislativo, governos locais, partidos políticos, imprensa e sistema eleitoral.

    A situação da Venezuela também é complicada por causa de seu colapso econômico quase sem precedentes. A má gestão, a corrupção, o tráfico de drogas e a violência produziram um impacto negativo terrível. O país é crescentemente influenciado por diversos atores estrangeiros — especialmente Cuba, China e Rússia — , dos quais ele vem se tornando cada vez mais dependente. As políticas americanas têm exacerbado essa polarização política. Além disso, muitos militares de alta patente se envolveram em corrupção e crime organizado.

    A Venezuela é, certamente, um caso complicado, mas cabe aqui um pouco de perspectiva histórica. Hoje pode parecer que transições democráticas anteriores eram inevitáveis, mas assim não pareciam à época. Cada caso possui características singulares, e os céticos geralmente as citam para sugerir que negociações podem ter sido possíveis em transições ocorridas anteriormente, mas não o são no caso da Venezuela, por conta da intensa polarização e da repressão brutal, do papel de Cuba e do alto nível de corrupção de um “narco-Estado”.

    Mas, na verdade, a Venezuela não é mais repressiva do que foi o Chile de Pinochet, ou mais polarizada do que era a África do Sul no apartheid. Também não sofre mais restrições por seus laços com Cuba do que a Polônia sofreu por suas ligações com a Rússia. Apresentar a Venezuela como um “Estado mafioso” confunde mais do que esclarece. A Venezuela sofre com corrupção sistêmica e com o envolvimento militar em mercados ilícitos, mas termos como “cartel”, “Estado mafioso” e “narco-Estado” superestimam o grau de articulação e coerência dessas redes criminosas. A existência de redes criminosas é, na verdade, uma razão importante para se buscar uma transição negociada e ordenada nos limites da lei em vez de se correr o risco de um colapso caótico da Venezuela, o que daria aos criminosos ainda mais espaço para operar.

    Há exemplos de outros países governados por regimes autoritários onde grupos políticos aparentemente inconciliáveis superaram os seus conflitos, e esses exemplos são relevantes para a Venezuela hoje**. Regimes autoritários gastam uma energia considerável tentando se fazer parecer invencíveis. Movimentos opositores se frustram após inúmeras tentativas fracassadas de deposição, geralmente apelando ao radicalismo e à violência após as estratégias não violentas se mostrarem infrutíferas. Mas quando se torna claro que uma mudança de regime em termos mutuamente aceitáveis é a única alternativa a um impasse doloroso, pode surgir uma liderança nacional efetiva, com forte apoio internacional, capaz de estabelecer acordos exitosos. As divisões internas na coalizão de Maduro, que se tornaram evidentes em 30 de abril, aliadas à incapacidade de Guaidó de obter controle sobre as forças armadas, podem finalmente ter persuadido atores-chave em ambos os lados de que uma transição negociada é o único caminho viável.

    A melhor maneira de testar essa hipótese, embora sem nenhuma certeza de sucesso, seria participar de negociações explicitamente focadas na reversão do desastre econômico, no restabelecimento de uma governança democrática e no início de uma reconciliação nacional e reconstrução institucional. Ambos os lados teriam que aceitar a necessidade de fazer concessões difíceis e reconhecer que o esforço pode exigir a ajuda de mediadores internacionais nos quais ambas as partes confiem. Os encontros promovidos pela Noruega são um bom começo, mas precisarão mostrar progresso logo para demonstrar que são viáveis.

    Qual a melhor maneira de se alcançar uma transição negociada?

    Não há uma solução universal para uma transição negociada, mas experiências anteriores podem oferecer algumas pistas sobre como avançar.

      Exercitar a paciência estratégica

    Transições anteriores podem parecer inevitáveis em retrospectiva, mas não pareciam ser à época. A maioria delas foi uma surpresa. Não foram fáceis ou rápidas, tiveram altos e baixos, zigue-zagues e muitos retrocessos. É compreensível, em tais circunstâncias, desanimar e considerar medidas mais drásticas.


    Manifestante luta para evitar detenção na Venezuela — 2019 — Ruben Alfonzo/Shutterstock.com

    Os que buscam uma transição durável de um governo autoritário para uma governança democrática precisam cultivar e exercitar paciência estratégica. Isso pode ser difícil quando há tanto sofrimento generalizado. Mas é contraproducente propor medidas desesperadas, de um lado, ou adotar uma cultura de passividade com a justificativa de que não dá para piorar — uma suposição quase sempre equivocada — de outro.

      Abrir espaço para a negociação

    Apesar do ceticismo generalizado na Venezuela com relação ao diálogo com o governo Maduro, em dado momento uma transição exige negociação e concessão entre as partes em conflito. Isso, por sua vez, requer condições que promovam conversações discretas, mesmo no meio de enfrentamentos públicos entre o regime existente e a oposição. Sem canais exploratórios de interlocução, posições extremadas e formulações irreconciliavelmente rígidas tendem a se reforçar mutuamente, às vezes tornando impossível uma solução.

      Não se apegar a posições maximalistas

    Um regime autoritário precisa ser enfrentado, censurado e abertamente resistido, e os cidadãos precisam por vezes se mobilizar nas ruas para enfrentar seu governo repressivo e arbitrário. Mas a oposição não pode demandar ou esperar muita coisa cedo demais. Ela precisa aceitar progressos parciais e às vezes insatisfatórios para abrir novas oportunidades de negociação. Isso às vezes exige mais coragem política do que se apegar a princípios atraentes, mas pouco práticos. No caso da Venezuela, embora a agenda de Guaidó para pôr fim à “usurpação” de Maduro, estabelecer um governo interino e realizar novas eleições seja bastante popular, sua coalizão precisa fazer escolhas difíceis sobre as prioridades e a sequência das medidas para alcançar esses objetivos.

    Para trazer a Venezuela de volta a um regime democrático, há muito a ser feito. A autoridade da Assembleia Nacional, eleita pelo voto direto, precisa ser restabelecida. A Assembleia Nacional Constituinte, que Maduro criou para substituir o órgão eleito, deveria ser dissolvida. Prisioneiros políticos precisam ser libertados, e alguma anistia deveria ser negociada. A imparcialidade e credibilidade do Judiciário precisam ser restauradas por meio da nomeação de juristas respeitados. É necessário reformar o sistema eleitoral, assim como dar garantias para que os cidadãos e partidos políticos que apoiaram o governo Maduro possam participar de eleições em condições de igualdade com outros partidos. Esses passos não podem ser tomados de uma só vez — nem mesmo haverá concordância sobre eles. Uma possibilidade a considerar, por exemplo, é, primeiro, colocar-se de acordo sobre libertar os prisioneiros políticos, estabelecer um novo conselho eleitoral e convidar observadores internacionais para novas eleições e, depois, negociar sobre os outros pontos em uma segunda rodada.

      Dar ao regime incentivos para a negociação

    Forças de oposição precisam induzir membros do regime autoritário a considerar uma transição. Isso demanda uma promessa crível de que não haverá uma caça às bruxas contra os antigos membros do governo e seus principais apoiadores e que certos interesses (econômicos e outros) de atores do núcleo do poder serão respeitados dentro do estado de direito a ser implantado. A integridade institucional das forças armadas e da polícia precisa ser assegurada. Os direitos individuais de antigos oficiais também precisam ser protegidos. Não é fácil conciliar tais garantias com as compreensíveis aspirações de forças de oposição há muito reprimidas, mas esforços concretos nessa direção foram necessários em outras transições de regimes autoritários. Referências vagas à reconciliação ou a uma eventual anistia não são suficientes. Planos detalhados precisam ser apresentados em estreita consulta com as partes envolvidas.

    Pode ser essencial proteger a integridade física de líderes controversos.

      Estabelecer um arranjo de poder que inclua todos os lados e facilite a transição

    Encontrar meios para compartilhar o poder temporariamente, em vez de insistir de imediato em resultados ou regras específicas, é crucial para o fim do governo autoritário. Por exemplo, aceitar o General Pinochet como senador vitalício e como chefe das forças armadas por oito anos ajudou a tornar possível a transição no Chile. Nomear os membros do Partido Comunista como ministros da Defesa e do Interior facilitou a transição polonesa. Na África do Sul, a nomeação de F. W. De Klerk como vice-presidente de Nelson Mandela foi um dos vários passos pragmáticos que tornou possível uma mudança histórica. No caso da Venezuela, alguns oficiais-chave do regime de Maduro e das forças armadas que quiserem fazer parte do futuro da Venezuela, líderes-chave da oposição democrática e representantes do setor privado da Venezuela e de sua sociedade civil precisam todos ser incluídos no processo de solução do conflito.

      Construir a partir de uma base comum

    Em situações de conflito, líderes políticos de ambos os lados mobilizam apoios demonizando seus oponentes e exaltando as virtudes de sua própria causa e a inevitabilidade do triunfo. Mas essas mensagens de mobilização podem enrijecer posições que tornam a negociação muito mais difícil. É animador que ambos os lados tenham enviado pessoas relativamente moderadas para iniciar as discussões organizadas pela Noruega, um bom primeiro passo. Para construir coalizões viáveis que possam tornar uma transição possível, líderes da oposição precisam encontrar uma base comum e sublimar suas diferenças e rivalidades. Isso pode exigir marginalizar a participação de “maximalistas”, especialmente aqueles que queiram empregar todos os meios de luta, incluindo violência ou intervenção externa. Isso foi necessário no Chile, Espanha, África do Sul, Brasil e em outros lugares. Da mesma forma, o regime no poder precisa rejeitar aqueles que propõem ou empregam repressões violentas.

    Projetar uma visão convincente de um futuro possível

    Os que buscam uma transição democrática precisam projetar uma visão atraente, otimista, inclusiva e crível do futuro, que possa ajudar pessoas comuns a superar as frustrações e medos paralisantes. As negociações deveriam começar pelo esforço de identificar e buscar alcançar os interesses que todas as partes possuem em comum antes de tentar superar aquilo que as divide.

    Criar um processo de justiça transicional

    Transições de regimes autoritários, repressivos e excludentes para regimes democráticos requerem maneiras de reconhecer e documentar violações de direitos humanos e fortalecer o estado de direito sem desencadear um movimento de caça às bruxas. A forma exata pela qual esse difícil equilíbrio pode ser alcançado difere em cada caso. Questões difíceis podem não ser necessariamente resolvidas em um único passo, mas podem ser trabalhadas em estágios ao longo do tempo. É fundamental trabalhar na direção da tolerância e da aceitação mútua, mesmo que a justiça completa seja inatingível.


    Prateleiras vazias em supermercado na Venezuela — 2018 — Sunsinger/Shutterstock.com

      Reconhecer o papel legítimo das forças armadas e da polícia enquanto se trabalha pelo restabelecimento do controle civil

    Qualquer pessoa que tenha suposto que a crise humanitária, a pressão internacional e as ameaças de intervenção iriam induzir os militares a desertar em massa contra Maduro subestimou o complexo jogo de interesses, normas e valores envolvidos. Por exemplo, suposições de que quase todos os oficiais militares venezuelanos estão envolvidos até o pescoço com corrupção — embora comuns em alguns círculos em Washington e Miami — provavelmente subestimam o quanto alguns militares ainda honram os códigos que regem sua profissão.

    Um desafio-chave em transições democráticas é colocar as forças armadas, a polícia e outras forças de segurança sob efetivo controle civil e, ao mesmo tempo, reconhecer seu papel legítimo, suas demandas justas por recursos e sua necessidade de serem protegidas de retaliações.

      Aproveitar o envolvimento internacional, mas garantir a primazia dos atores internos

    Transições democráticas são alcançadas sobretudo por forças e processos internos, mas muitas vezes recebem o apoio importante de atores internacionais específicos: governos, organizações e coalizões internacionais, organizações da sociedade civil, sindicatos, empresas, associações profissionais e organizações e líderes religiosos de outros países. Atores internacionais claramente possuem seus próprios interesses e prioridades, e não se deve pedir a eles ou esperar deles que resolvam as questões internas da Venezuela. Por outro lado, atores internacionais podem, por vezes, desempenhar um papel importante para nutrir e reforçar transições democráticas — pacientemente, discretamente e alinhados com atores internos que têm suas próprias estratégias. Não deveriam tentar substituir atores internos. Estes devem assumir e permanecer na liderança. Atores internacionais podem exercer pressão, oferecer incentivos, facilitar negociações e, talvez, ajudá-los com a logística das negociações. Mas podem se tornar contraproducentes e produzir consequências inesperadas caso assumam papéis de liderança ou tentem promover soluções predefinidas.

    Quais devem ser os primeiros passos?

    Ao se dar os primeiros passos para uma transição negociada, representantes dos dois “governos” venezuelanos e a comunidade internacional deveriam, tão logo seja possível, trabalhar em conjunto para resolver problemas práticos específicos que todos entendam como urgentes, como a oferta de ajuda alimentar e de medicamentos, assim como outras necessidades básicas. Isso pode contribuir para o estabelecimento de confiança básica. A tentativa de usar a oferta de ajuda humanitária para provocar uma divisão entre as forças armadas da Venezuela foi o oposto do que se deveria ter feito.

    Reparar a infraestrutura e construir as bases para restaurar a economia também são passos urgentes e de interesse de todos. São iniciativas que poderiam começar logo, com recursos vindos, em parte, de fundos venezuelanos no exterior que foram congelados por sanções internacionais e, em parte, da ajuda e de investimentos internacionais. Aliviar a pobreza generalizada que afeta a maioria dos venezuelanos é vital não apenas por questões humanitárias, mas também para ampliar o espaço para o processo de negociação mediante o fortalecimento do apoio da população para a possibilidade de uma solução negociada.

    As forças de segurança da Venezuela, a oposição democrática e atores internacionais confiáveis também precisam, tão logo seja possível, colocar o foco em como reduzir, em conjunto, a terrível violência que assola o país e restabelecer um nível de ordem pública capaz de ajudar os venezuelanos a cooperar entre si. Apoiar-se na experiência de outros países que negociaram com sucesso transições do autoritarismo para a democracia seria especialmente útil aqui.

    Não será fácil resolver nenhum desses desafios complexos. Mesmo esforços bem-intencionados enfrentarão obstáculos e retrocessos em um ambiente altamente polarizado e com baixo nível de confiança. É bastante difícil conduzir negociações discretas e secretas e fazer concessões difíceis em um cenário em que tantos atores diferentes têm acesso a meios de espionagem e comunicação instantânea. Esse acesso permite a vários atores circular detalhes altamente confidenciais para comprometer negociações em curso. Mas um esforço mútuo e deliberado para avançar juntos em uma direção positiva, fortemente apoiado pela comunidade internacional relevante, poderia começar a ganhar corpo se ambas as partes entenderem que nenhuma alternativa melhor é viável.

    Qual o papel da comunidade internacional?

    A contribuição de atores internacionais específicos para a solução da crise depende, em parte, de como eles se posicionaram até aqui. Alguns — em particular a Organização dos Estados Americanos e o Grupo de Lima, que deixaram de reconhecer a legitimidade do regime de Maduro e reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela — não estão em uma boa posição para liderar esforços diplomáticos, embora possam oferecer um importante apoio político e diplomático. O Grupo de Contato Internacional — que inclui várias nações europeias, bem como Bolívia, Canadá, Chile, Costa Rica, Equador e Uruguai — está mais bem posicionado para desempenhar um papel mais direto em eventuais negociações, embora tenha deixado claro que é favorável a novas eleições na Venezuela. A diversidade de perspectivas, relações e experiências de seus países-membros poderia ser bastante útil.

    Os passos já tomados pela Noruega representam uma importante oportunidade para uma solução negociada. A Noruega tem bastante experiência em processos de pacificação nos quais não tomou partido. Embora não reconheça as últimas eleições presidenciais da Venezuela e tenha claramente defendido novas eleições, ela manteve sua reputação de mediador imparcial. O Secretário-geral das Nações Unidas também ofereceu seus serviços de mediação diplomática, que podem ser úteis quando emergir o esboço de um possível acordo.

    Países que são fortes aliados do governo Maduro, incluindo Cuba, China e Rússia, não podem participar diretamente de maneira construtiva no processo de negociação. O mesmo vale para países que são adversários da Venezuela, incluindo os Estados Unidos e a Colômbia. Mas todos eles poderiam encorajar uma postura pragmática e orientada à solução do problema, oferecendo aconselhamento, apoio e incentivos para um acordo negociado. Atingir esses objetivos ajudaria a China a receber o valor dos empréstimos que fez à Venezuela e a Rússia a desempenhar um papel positivo oferecendo estabilidade regional e talvez segurança energética a Cuba. Cuba, em particular, poderia desempenhar um papel importante se pressionar o regime de Maduro para fazer concessões pragmáticas, a exemplo do que fez ao influenciar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) no processo de paz colombiano. Um pouso suave na Venezuela seria melhor para Cuba do que uma transição repentina e violenta.

    Os atores internacionais que desejam ajudar a Venezuela a atingir a transição não devem empregar ou ameaçar o emprego de força militar. Uma intervenção militar seria quase certamente um desastre, custando vidas, causando destruição física e exacerbando a crise migratória regional. Além disso, mesmo que apenas como ameaça, tende a silenciar as vozes moderadas e exaltar as das pessoas mais linha-dura.

    O que é mais necessário agora da comunidade internacional é uma diplomacia hábil e o compromisso de ajudar as partes a caminhar em direção a um acordo. Atores internacionais deveriam garantir à Venezuela assistência internacional para reconstruir sua economia, reinserir o país no comércio internacional e atrair investimento financeiro; abrir e monitorar as negociações e o processo de justiça transicional; e, se o país demandar, organizar e monitorar eventuais eleições livres, justas e confiáveis. Esforços contínuos nessas linhas serão indispensáveis. “Cozinheiros demais entornam o caldo”, mas uma combinação de atores-chave internacionais com papéis claramente definidos poderia ajudar a produzir resultados positivos.

    Qual é o papel dos Estados Unidos?

    Por razões históricas e, ainda mais agora, o governo dos Estados Unidos não estão em boa posição para desempenhar um papel direto importante na ajuda à negociação de uma transição pacífica na Venezuela. Em vez disso, Washington deveria, de maneira inequívoca, apoiar esforços internacionais coordenados para ajudar a encontrar uma solução. Qualquer um que possa encorajar o governo dos Estados Unidos a seguir esse caminho deveria fazê-lo. Seria uma tragédia desnecessária e evitável se por impaciência, presunção, considerações geopolíticas e de política interna ou predileções de atores específicos a política americana fosse orientada a minar as negociações. Se Washington assumir o papel de sabotador, isso tornaria o futuro da Venezuela e as relações dos Estados Unidos com a América Latina em geral ainda mais difíceis.

    Washington não deveria buscar atalhos ou desencorajar a busca por um acordo. Seus diplomatas deveriam explorar, ressaltar e ajudar a reforçar os interesses que os Estados Unidos e outras potências internacionais de fato compartilham entre si: ver a Venezuela estável e pacífica, com uma economia em recuperação e uma indústria petroleira saudável. Todos os venezuelanos e os Estados Unidos deveriam lutar por esse desfecho.

    Agradecimentos

    Além do agradecimento mútuo, os coautores gostariam de agradecer a várias pessoas que fizeram sugestões úteis e substantivas a uma versão anteriores deste ensaio: Sergio Bitar, Michael Camilleri, Joe Clark, Richard Downie, Laura Gamboa-Gutiérrez, Jane Jaquette, Celso Lafer, Daniel Levine, Tom Long, Linda Lowenthal, Cynthia McClintock, Boris Muñoz, Thomas Pickering, Thomas Shannon, Michael Shifter, Pamela Starr, Juan Tokatlian e vários colegas canadenses e venezuelanos que conversaram conosco confidencialmente.

    Somos especialmente gratos a Cynthia Arnson, diretora do Programa Latino-Americano do Wilson Center, por sua revisão e comentários e pela publicação deste ensaio em inglês e espanhol. Agradecemos ainda à Catalina Casas, da equipe do mesmo programa, pela formatação e apresentação do texto de maneira amigável. Nenhuma dessas pessoas é responsável por eventuais erros, pelos quais assumimos a responsabilidade.

    *Este ensaio expressa as opiniões dos autores e não reflete necessariamente a posição da Fundação Fernando Henrique Cardoso. A publicação contou com apoio da “Idea International”. O texto original em inglês está disponível aqui.

    **Muitos dos pontos discutidos se baseiam em entrevistas conduzidas por Sergio Bitar e Abraham F. Lowenthal com treze ex-presidentes de nove países que desempenharam papéis importantes em transições de governos autoritários para democracias nos anos 1980 e 1990, bem como em suas análises dessas entrevistas e da extensa literatura sobre transições democráticas listadas na bibliografia do livro Democratic Transitions: Conversations with World Leaders (Baltimore, MD: The Johns Hopkins University Press; International IDEA, 2015), organizado por ambos.

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