Para onde vai a Europa?

/ auditório da Fundação FHC


Na física, resiliência é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a um forte estresse, como uma deformação elástica. O termo também pode ser aplicado aos seres humanos (psicologia), às empresas (administração) e ao meio ambiente (ecologia).

“Não estou aqui para fazer propaganda da União Europeia, inclusive porque já não sou seu presidente, mas estou confiante no futuro da Europa, que tem se mostrado bastante resiliente diante das dificuldades que enfrenta”, disse o português José Manuel Durão Barroso, que foi primeiro-ministro de Portugal (2002-2004) e presidiu a Comissão Europeia (órgão executivo da UE) de 2004 a 2014, em palestra na Fundação FHC.

De fato, a União Europeia tem se mostrado admiravelmente resiliente diante dos sucessivos problemas que o bloco econômico tem enfrentado desde 2009, quando teve início a crise das dívidas soberanas de países-membros como a Grécia, entre outros, na esteira da crise financeira global.

Desde então, o velho continente viveu uma espécie de inferno astral, com especulações sobre o fim do euro, estagnação econômica e desemprego em alta em diversos países, ondas sucessivas de refugiados e imigrantes ilegais, atentados terroristas praticados por cidadãos europeus de origem islâmica, fortalecimento de partidos ultranacionalistas e, por fim, a decisão do Reino Unido de deixar a UE (Brexit), com consequências ainda incertas.

Todas essas ameaças, no entanto, não levaram ao fracasso do projeto europeu, que inclui uma  moeda única europeia, à saída descontrolada dos membros mais endividados do bloco ou à vitória de políticos ultranacionalistas e xenófobos, ao menos nos principais países europeus, como diversos analistas previram que aconteceria.

No próximo domingo, 24 de setembro, as eleições federais na Alemanha, nas quais a chanceler (premiê) Angela Merkel (centro-direita) é favorita, devem confirmar este quadro mais favorável à UE, apesar de os desafios permanecerem. Além dos problemas já citados, Durão Barroso mencionou a anexação da Crimeia (território pertencente à Ucrânia) pela Rússia em 2014, fato que desencadeou a pior crise entre o Ocidente e Moscou desde o final da Guerra Fria.

“Em 2004, quando assumi a presidência do bloco, tínhamos 15 países-membros, hoje são 28. A UE quase dobrou de tamanho. Não podemos ser complacentes, pois em política e economia sempre há surpresas e imprevistos, mas pouco a pouco a Europa vai superando os obstáculos, o que me faz pensar que um sistema mais complexo e diverso como o nosso consegue se adaptar melhor do que se tivéssemos um sistema fechado”, afirmou.

O palestrante lembrou de um encontro com economistas-chefes dos principais bancos do mundo em Bruxelas (sede da Comissão Europeia) em 2012, a seu convite. “Todos, com exceção de um, previram que até o final daquele ano a Grécia, diante da incapacidade de honrar suas dívidas, seria forçada a sair da UE e a abandonar a moeda única. Metade deles achava que o euro não sobreviveria. Na época, não tínhamos os instrumentos de ‘bail out’ (socorro aos membros endividados do bloco) e tivemos de construir os botes de salvamento durante o naufrágio. Mas o fizemos”, contou.

Segundo Durão Barroso, o pior da crise econômica europeia já passou. “Irlanda, Espanha e Portugal, que adotaram programas de ajuste fiscal severos com graves consequências sociais, voltaram a crescer e o desemprego nesses países diminui. Também a Grécia começa a se recuperar. Estamos, portanto, em curva ascendente do ponto de vista econômico”, disse.

O político português defendeu que a UE receba os refugiados de conflitos no Oriente Médio e outras regiões. “É uma questão humanitária e de princípios. Além disso, somos uma das regiões mais ricas do mundo e precisamos de mais gente (devido à baixa taxa de natalidade). Ainda que traga dificuldades no curto prazo, devemos encontrar maneiras de gerir essa questão”, disse. Quanto aos imigrantes ilegais que tentam chegar à Europa por razões econômicas, ele sugeriu maior colaboração com os países de origem para evitar o fluxo descontrolado.

         O revés do Brexit

De acordo com o ex-premiê, a decisão dos britânicos de deixar a UE (em referendo realizado em junho de 2016) foi um duro golpe diante da relevância do Reino Unido para a Europa e o mundo. Quinta ou sexta maior economia do mundo, posto que alterna com a França, o Reino Unido é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, e sua capital, Londres, é o principal centro financeiro europeu e um dos mais importantes do mundo.

“Sempre houve um forte sentimento eurocético na Inglaterra, mas a vitória do Brexit foi acima de tudo um voto contra o establishment político britânico, assim como a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. O temor era que, naquela altura, uma onda de populismo varresse a Europa continental, o que acabou não acontecendo”, disse.

Em março de 2017, o primeiro-ministro conservador da Holanda, Mark Rutte, venceu as eleições parlamentares, derrotando o candidato de extrema direita Geert Wilders, que liderava as pesquisas nos meses anteriores à eleição. Em maio deste ano, Emmanuel Macron, um candidato independente de centro, venceu o segundo turno na França, derrotando Marine Le Pen, da Frente Nacional (extrema direita).

         Uma França mais confiante

“A vitória de Macron foi muito importante porque, embora a Alemanha seja a maior potência europeia, a França é o único país europeu que representa ao mesmo tempo o norte e o sul do continente. Alemanha e Holanda são norte, Itália, Grécia, Portugal e Espanha são sul. Com forte cultura mediterrânica, a França é tanto sul como norte e nada acontece na Europa sem sua participação”, explicou.

“É essencial que a França recupere a confiança, pois há uns 20 anos que os franceses deixaram de acreditar em si próprios. Não é à toa que o livro mais vendido na França no ano passado foi “La Decadénce” (do filósofo Michel Onfray). Quando a França está pessimista, projeta negativismo para toda a Europa. Macron prometeu resgatar a confiança da França em si própria, e espero que consiga”, disse. Durante a campanha, o novo presidente francês defendeu a integração europeia e, na noite de sua vitória, celebrou em frente ao Museu do Louvre, em Paris, ao som do hino da União Europeia.

A próxima peça do tabuleiro político europeu deverá ser a provável reeleição da alemã Angela Merkel (da CDU, União Democrata Cristã) para um quarto mandato consecutivo. “Sob a batuta de Merkel, a Alemanha fez uma aposta sincera no futuro da Europa. Foi o país que mais contribuiu, tanto do ponto de vista político quanto com recursos financeiros, paras os programas de socorro à Grécia, Portugal, Espanha e Itália. É verdade que (a chanceler alemã) exigiu um rígido ajuste fiscal, o que despertou críticas, mas o encanto da Europa é justamente a divergência de opiniões e visões (entre os países-membros)”, disse.

Com a provável vitória de Merkel, espera-se que Alemanha e França, ambas com governos recém-eleitos, liderem o movimento de renovação e aprofundamento da União Europeia. “Existem duas visões opostas, ambas falsas. Uma é a dos eurocéticos, que acreditam que a Europa vai desaparecer, muito alardeada no auge da crise dos últimos anos. A outra é a visão ingênua dos que acreditam que amanhã teremos os Estados Unidos da Europa. Nem uma coisa nem outra. A Europa vai continuar a ser uma construção incremental, progressiva e fragmentária. Por vezes isso é frustrante, mas é o caminho viável e o mais racional”, disse o político português.

        Efeito Trump e a defesa europeia

A pressão que o presidente dos EUA, Donald Trump, tem feito no âmbito da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no sentido de seus membros europeus se responsabilizarem por uma fatia maior dos gastos militares da aliança deve ter impacto em um dos temas mais relevantes (e sensíveis) para a UE: a efetivação de um plano de segurança e defesa comum.

“A Alemanha, principal potência econômica do continente, gasta atualmente apenas 0,8% de seu PIB com defesa. Se elevar este percentual para 2%, em uma década teria o maior Exército europeu, o que desperta grande resistência na Europa (devido ao passado bélico do país, que provocou duas guerras mundiais no Século 20). A solução será desenvolver projetos comuns. Para combater o terrorismo sem prejudicar a livre circulação de pessoas dentro de suas fronteiras (estabelecida pelo Acordo de Schengen e um dos pilares da UE), a Europa precisará incrementar a segurança interna e a defesa de suas fronteiras com o resto do mundo”, afirmou Durão Barroso.

“Não creio que teremos um Exército europeu, mas sim maior integração das capacidades militares e tecnológicas dos países-membros. Como tudo na UE, será algo progressivo”, disse.

        Multilateralismo chinês

Num momento de crescente isolacionismo por parte dos EUA, a China adota uma atitude cada vez mais multilateralista, explica o palestrante. “É muito curioso que a China, que no passado era isolada do mundo, tenha se tornado uma firme defensora do multilateralismo. Outro dia estava conversando com meu compatriota António Guterres (atual secretário geral das Nações Unidas) e ele me contou que a China é atualmente o principal fator de estabilidade na ONU. Enquanto ninguém sabe o que Washington vai fazer, Beijing está sempre disposta a ajudar”, disse.

“A China é a grande vencedora da globalização e, até o momento, tem projetado seu poder no mundo sem precisar enviar forças militares para fora de seu território. Está ganhando influência por meio de diplomacia e investimentos”, afirmou o palestrante. Como exemplo desse “soft power”, ele cita o projeto One Belt & One Road, que prevê investimentos maciços em infraestrutura na Ásia, Europa e África para conectar essas regiões à potência asiática.

Segundo o palestrante, a China tem uma visão sofisticada da União Europeia e se ofereceu para ajudar no momento mais agudo da crise europeia. “Quando todos previam o pior, o então presidente Hu Jintao me ligou para dizer que estávamos no rumo certo e que a China acreditava no futuro da Europa. Em seguida, a China comprou grande quantidade de títulos dos países mais endividados”, completou o palestrante, para quem a ascensão chinesa no cenário mundial é bem-vinda, apesar das ressalvas em relação à inexistência de um  Estado de direito e de violações aos direitos humanos naquele país.

        Brasil e Mercosul

Antes de encerrar sua palestra, Durão Barroso falou brevemente sobre a crise brasileira. “O Brasil atravessa um momento difícil, mas, se conseguir superar esta fase fortalecendo suas instituições, será um grande feito. Tenho certeza de que vai conseguir”, afirmou. Ele também defendeu a conclusão do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul: "Diante do protecionismo de Trump, creio que os líderes europeus vão querer demonstrar que a Europa continua aberta para o mundo.”

        Paciência histórica

Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a União Europeia é um exemplo para o mundo. “Às vezes em um dado momento temos a impressão de que as coisas não vão tão bem, mas é preciso ter paciência histórica para cultivar as tendências de longo prazo. Isso vale para a Europa, o Brasil e outros lugares. O que foi feito na Europa nas últimas décadas é de uma importância histórica inexcedível. É uma pena que não tenhamos evoluído tanto na integração do Mercosul e da América Latina”, disse.

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Otávio Dias, jornalista, é especializado em questões internacionais. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do estadão.com.br e editor-chefe do Brasil Post, parceria entre o Huffington Post e o Grupo Abril.

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