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O Ocidente deve temer a Rússia?

/ auditório da Fundação FHC


"Não, o Ocidente não precisa temer a Rússia, mas deve tratá-la com todo o cuidado."

Dmitri Trenin, coronel aposentado das Forças Armadas da Rússia e diretor do Centro Carnegie de Moscou

Os pilares centrais da política externa da Rússia pós-soviética - simultaneamente se aproximar da Europa e manter as ex-repúblicas soviéticas dentro de sua esfera de influência - ruíram ao mesmo tempo no primeiro semestre de 2014. A implosão se deu por decisão de Moscou. Naquela tensa primavera, a Rússia anexou a Crimeia, território cedido à Ucrânia em 1954, mas que nunca deixou de ter uma população de origem majoritariamente russa.

Ali se tornou claro que Moscou já não mais acreditava na aproximação com a Europa e não hesitaria em usar a força para impedir que ex-repúblicas soviéticas se afastassem da sua órbita para gravitar em torno da Europa, afirmou o diretor do Centro Carnegie de Moscou, Dmitri Trenin, coronel aposentado das Forças Armadas da Rússia (e, anteriormente, da URSS), em palestra na Fundação FHC.   

Prenúncio desse desfecho ocorrera seis anos antes, quando tropas russas intervieram em favor de separatistas georgianos, da Ossétia do Sul, província da Georgia de maioria russa.  Naquela ocasião, porém, Moscou ordenou a retirada de suas tropas e firmou um acordo com o governo da Georgia, sob a mediação da União Europeia.

Desde a anexação da Crimeia, a Rússia voltou-se definitivamente para si própria e para a difícil e ainda não concluída transição de um país que foi um império (o soviético) e está buscando se estruturar como um Estado multiétnico. A Rússia sente que não conta senão com si mesma, tem de se garantir sozinha”, disse Trenin, autor de “Should We Fear Russia” (Global Futures, 2016), entre outros livros.

“Onde a Rússia se posiciona hoje no mapa geopolítico mundial? Ela não é nem ocidental nem oriental. Apesar de sua posição central na chamada Eurásia, não conta mais com aliados de peso no mundo (leia mais sobre a relação com a China abaixo) e tem tido dificuldade em conquistar o status que merece”.

Trenin chamou a atenção para o efeito que essa ausência de aliados de peso tem sobre a percepção de ameaça das lideranças russas, comprometidas com a preservação de um imenso território, rico em recursos minerais, petróleo e gás, que se estende da fronteira com a Escandinávia aos limites com a Coreia do Norte, sendo contíguo a diversos países do Oriente Médio e da Ásia Central, para não falar da China, e banhado pelos Oceanos Atlântico, Pacífico e Ártico.

“Atualmente, quando nós, russos, falamos de voltar a ser uma grande potência, na verdade queremos afirmar que não aceitaremos que nenhum outro país se imponha sobre nós. Mas, embora não haja dúvida de que somos um ator importante no mundo, não devemos exagerar essa importância”, disse Trenin, que também é membro do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), prestigioso centro de estudos sobre assuntos militares e de segurança sediado em Londres.

         A força de Putin

Dimitri Trenin esteve na Fundação FHC na véspera da posse do presidente russo, Vladimir Putin, para um quarto mandato, que teve início em 6 de maio e vai até 2024. “A Federação Russa é, de fato, uma quase monarquia. Historicamente, não trocamos de líder a cada quatro ou seis anos (como a maioria dos países democráticos ocidentais). Com Putin, apesar das dificuldades, que não são poucas, temos a sensação de que vivemos uma existência mais ou menos normal, o que não tivemos nos últimos cem anos, incluindo o período socialista/comunista (1918-1991)”, explicou.

Putin governa a Rússia de fato desde a renúncia de Boris Iéltsin, em 1999. Foi primeiro-ministro entre 1999 e 2000, presidente de 2000 a 2008, premiê novamente nos quatro anos seguintes e voltou à presidência em 2012. Em 2018, foi reeleito com 76% dos votos. “Nos últimos anos, a situação econômica piorou e não há perspectiva imediata de melhora. Mas, em comparação à situação política e econômica do país nos anos 70 (ausência de liberdade), 80 (degringolada do comunismo) e 90 (primeiros anos pós-desmantelamento da URSS), os últimos 18 anos têm sido um presente de Deus”, disse Trenin.

O principal mote da longeva Era Putin é “vamos fazer a Rússia grande novamente”. Logo após sua reeleição em março último, ele disse que o país está “destinado ao êxito”. No mesmo mês -- como resposta à nova política nuclear (leia resumo em inglês) anunciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump -- o líder russo anunciou o desenvolvimento de uma nova linha de armamentos nucleares estratégicos que poderiam atingir alvos nos EUA antes que o país possa se defender. Entre as novidades, um míssil hipersônico de alta precisão e drones subaquáticos capazes de carregar ogivas nucleares. Em seminário realizado na Fundação FHC sobre os 50 anos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, analistas alertaram para uma nova corrida nuclear entre as principais potências nucleares.

Mas, segundo Trenin, os sonhos de grandeza de Putin esbarram na falta de “fundamentos econômicos sólidos”. “Putin promete fazer a Rússia mais relevante do ponto de vista econômico e tecnológico, mas um sistema decisório muito centralizado prejudica a eficiência da economia”, disse.

         ‘A pior elite de que me lembro’

Segundo o diretor do Centro Carnegie de Moscou, um dos principais think tanks independentes do país, o bloqueio tecnológico é o aspecto mais nefasto das sanções impostas pelos EUA e outros países ocidentais a Moscou após a anexação da Crimeia, mas o cerne das dificuldades econômicas da Rússia não resulta das sanções e, sim, de problemas auto-infligidos como os altos níveis de corrupção.

Trenin qualificou a elite russa surgida no período pós-comunismo (a partir da década de 90) como o principal entrave ao desenvolvimento do país: “A elite usa o país como fonte de renda e investe o que lucra no exterior, onde também educa seus filhos. Precisamos urgentemente de uma nova elite, mas não sabemos onde encontrá-la.” (Leia o artigo “Lavando dinheiro e limpando reputações”, publicado pelo Journal of Democracy em Português no final de maio”).

        A ‘tragédia’ da relação EUA-Rússia

Segundo Trenin, existe um choque entre o que ele chamou de “DNA russo” e o “excepcionalismo americano”. “É simplesmente impossível construir um compromisso em que os dois lados concordem. Os EUA jamais darão status igualitário a nenhum outro país. Não farão isso com a China e certamente não o farão com a Rússia. Já a Rússia, como disse anteriormente, jamais aceitará qualquer tentativa de imposição de liderança por parte dos EUA e do Ocidente”, disse.

Nos 25 anos passados entre a queda do Muro de Berlim (1989), o fim da URSS (1991) e a crise na Ucrânia (2014), ambas as partes teriam cometido erros. No que qualificou como “erro analítico”, os EUA teriam apostado que a Rússia entraria numa trajetória ininterrupta de decadência política e econômica e, diante disso, pensaram “por que nos preocuparmos tanto com aquele país?”.

“Desde então, e principalmente após a anexação da Crimeia e a imposição de sanções econômicas, os EUA têm aumentado a pressão sobre Moscou com o objetivo de fazer a Rússia desabar de vez. Mas, mesmo que essa abordagem funcione, no que a Rússia se transformaria? É uma ilusão, pois não haverá vitoriosos”, afirmou.

Por outro lado, mesmo que os EUA tivessem generosamente aberto as portas da OTAN à Rússia pós-soviética, cedendo ao país todos os privilégios de membro pleno, Moscou provavelmente não teria se comportado como um membro leal da aliança. Teria tentado construir alianças com outros países com o objetivo de minar a própria OTAN, afirmou o coronel aposentado.

“Não vejo nenhuma possibilidade de aproximação entre EUA e Rússia, simplesmente porque nenhum dos lados tem uma estratégia clara e viável em relação ao outro”, disse. Trenin lembrou que, com a eleição de Trump (2016), os EUA também enfrentam uma fase de turbulência política, tanto no plano interno como externo, e “o mais provável é que a melhoria da relação russo-americana dependa hoje muito mais do que vai acontecer dentro de cada país do que de um eventual acordo mútuo”.

Ele minimizou, no entanto, as suspeitas de que Moscou teria interferido na última eleição presidencial norte-americana, supostamente para privilegiar Trump em detrimento da candidata democrata, Hillary Clinton. “Não creio que Putin tivesse uma estratégia definida no sentido de ajudar a eleger Trump, mas em 2012 ele acusou Hillary, então secretária de Estado, de estimular manifestações que chegaram a reunir 100 mil opositores diante do Kremlin. É possível que integrantes ou pessoas ligadas ao governo russo tenham pensado ‘se eles podem se meter na política russa, por que não podemos nos meter na deles?’ Não sei dizer (se de fato isso aconteceu), mas é possível”, concluiu.

        Moscou e Pequim: ‘relação ambivalente’

“A China e a Rússia não se posicionam (oficialmente) uma contra a outra, mas também não estão sempre juntas. Gerenciam as diferenças”, afirmou o palestrante. Como exemplo, ele citou o fato de a China não ter apoiado as ações de Moscou na Ucrânia e a Rússia não admitir as demandas territoriais de Pequim no Mar da China.

Trenin salientou, no entanto, que, com o afastamento de Moscou da União Europeia após a anexação da Crimeia, houve um movimento em direção ao Oriente. “Antes de 2014, a Rússia queria estar a ‘leste do Ocidente’, agora está mais para o ‘oeste do Oriente’. E essa distância (entre a Rússia e o Ocidente) está crescendo”, disse.

O especialista, no entanto, fez a ressalva de que as elites russas “não conhecem e não se identificam com a Ásia e, sim, com a Europa”. “O potencial (de uma relação mais profunda com o Extremo Oriente) é maior do que os resultados concretos”, disse.

Pequim, que disputa a liderança econômica mundial com os EUA, não faz restrições aos russos e tem interesse em estreitar os laços. “Mas Washington tem deixado claro que aqueles que mantiverem relações próximas com Moscou enfrentarão represálias por parte dos EUA”, completou.

       Síria: ‘vitória tática, mas não estratégica’

Já ao final da palestra, questionado por um membro da plateia, Trenin fez um breve comentário da recente intervenção russa na guerra da Síria, em prol do presidente Bashar al Assad. Segundo alguns analistas, Putin teria mostrado que ainda pode ser relevante no cenário internacional, ao desafiar os EUA na região e reconquistar parte do espaço perdido no Oriente Médio.

“Os russos conseguiram impingir uma derrota às forças opositoras a Damasco e, nesse sentido, incomodaram os EUA e seus aliados europeus (contrários a Assad). Mas qual é a estratégia futura (em relação à Síria e ao Oriente Médio)? Putin é bom de tática e aspectos operacionais, mas não de estratégia. Não vejo grandes ganhos (para a Rússia) a médio prazo” (no Oriente Médio), disse.

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Otávio Dias, jornalista, é editor de conteúdo da Fundação FHC. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do estadão.com.br e editor-chefe do Brasil Post, parceria entre o Huffington Post e o Grupo Abril.

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