Iniciativas » Debates

Europa: uma visão de dentro e um olhar de fora

/ auditório da Fundação FHC


“Hoje a ideia da Europa unida se baseia em um universalismo que cancela o que é particular e específico. Querer ser si próprio e defender a diversidade é rotulado como um desejo de fechamento.”

Dino Cofrancesco, filósofo italiano, professor emérito da Universidade de Gênova 


“Ao privilegiar a identidade cultural, o professor faz uma reflexão tingida de certa melancolia. Mas, a partir da perspectiva de um latino-americano e diante da magnitude dos desafios do Século 21, a Europa unida segue sendo uma esperança para a humanidade.”

Rubens Ricupero, diplomata brasileiro, subsecretário geral da ONU de 1995 a 2004


Uma visão negativa sobre os rumos da Europa por parte de um importante intelectual italiano, para quem a União Europeia (UE) é “pouco democrática”, cada vez “menos pluralista” e distante das tradições culturais de cada país-membro. Como contraponto, o “olhar de fora”, que vê na Europa a promessa de um equilíbrio entre o crescente isolacionismo dos Estados Unidos sob Donald Trump e a ascensão econômica (e geopolítica) da Ásia, cujo compromisso com a liberdade e a democracia é duvidoso.

Assim foi o seminário “Europa: passado, presente e futuro de uma ideia”, realizado na Fundação Fernando Henrique Cardoso.

         ‘Valores iluministas já são universais’

Para Dino Cofrancesco, diretor do Centro Internacional dos Estudos Italianos, valores iluministas como liberdade e respeito à individualidade são cada vez mais universais. “Qual a principal causa que a União Europeia deveria defender? Por que nos sentir mais em casa em Estrasburgo (na França, onde fica o Parlamento europeu) do que em Toronto (Canadá) ou em Sidney (Austrália)? Os valores universalistas estão em grande parte do Ocidente e em muitos outros países. Não podemos construir a Europa com base apenas em valores que já são um patrimônio universal, em troca de quebrarmos as correntes que nos ligavam aos lugares, às tradições e aos costumes de cada região”, disse o palestrante.

Como exemplos de excesso de intervencionismo da Comissão Europeia, órgão executivo da UE sediado em Bruxelas, ele citou normas que buscam uniformizar o ensino em toda a Europa, das escolas às universidades, assim como regras sanitárias que interferem na produção local de alimentos. “Já presenciei agricultores da Sardenha chorando porque antigos plantios que vinham desde a época dos romanos tiveram de ser abandonados por decisão dos burocratas de Bruxelas, que se consideram tutores do mercado comum”, disse Dino Cofrancesco.

“Não tem nada mais ridículo do que os jovens que viajam para Bolonha para ler Dante Alighieri em inglês”, disse, numa crítica ao programa de intercâmbio estudantil Erasmus, normalmente considerado uma iniciativa bem-sucedida. “Uma Europa que só fala inglês, o idioma do único país europeu que decidiu sair da União Europeia (numa referência à decisão dos britânicos de deixar o bloco europeu, em plebiscito realizado em julho de 2016), não significa construir uma comunidade baseada em valores”, afirmou. Além do Reino Unido, a Irlanda também fala inglês e continuará membro da UE.

          Entre Trump e a China

Para Rubens Ricupero, valores como direitos humanos, solidariedade, Estado de direito e até mesmo a cooperação entre os países estão em xeque e a União Europeia seria atualmente o principal bastião de defesa desses princípios. Ele também citou o aquecimento global e o Acordo de Paris, do qual os EUA se retiraram por decisão do presidente Donald Trump.

“Os valores ocidentais estão sob assalto justamente em um dos países que era um dos maiores defensores desses mesmos valores no cenário internacional, os Estados Unidos. Nem todos os americanos pensam como ele, mas (Donald) Trump não é um ponto fora da curva (na política norte-americana). Antes dele, já tivemos a invasão do Iraque e a teoria dos ataques preventivos, a prisão de Guantánamo e as torturas na prisão de Abu Ghraib, assim como o crescimento do Tea Party (ala mais radical do Partido Republicano)”, disse.

“Ao mesmo tempo, assistimos à ascensão do poderio chinês que, neste momento, até de maneira irônica, assume a defesa do liberalismo comercial e da luta contra o aquecimento global. O que será do sistema internacional em um mundo em que a potência mais dinâmica for a China? Que valores universalistas o regime de Beijing de fato representa?”, perguntou o comentarista.

“Entre Trump e a China, que alternativa temos? A União Europeia, que surgiu das guerras e da destruição do Século 20 para se transformar no acontecimento histórico mais importante das últimas décadas, mantém seu valor como defensora dos valores iluministas e humanistas”, disse o diplomata brasileiro, que foi secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), ministro do Meio Ambiente e da Fazenda. Atualmente é diretor da Faculdade de Economia da FAAP.

Segundo Ricupero, a UE é um exemplo de solidariedade dos países-membros mais ricos em relação aos mais pobres, ainda que recentemente os primeiros tenham exigido dos demais um profundo ajuste fiscal. “Nas últimas décadas, a UE destinou amplos recursos para que os países mais pobres, como Portugal, Espanha e Grécia, melhorassem sua infraestrutura e economia. Fez a mesma coisa com os antigos países comunistas da Europa do Leste, quando se integraram à UE. O projeto europeu, embora imperfeito, sempre teve a preocupação de amenizar as desigualdades regionais. Em que momento os Estados Unidos ajudaram o México ou outros países da América Latina?”, disse.

De acordo com Ricupero, a Europa segue sendo o continente que compartilha uma certa unidade cultural, sem deixar de lado as diferenças regionais e locais. “Na América Latina, os valores comuns vêm principalmente de uma origem ibérica comum, mas os EUA sempre se consideraram únicos, excepcionais. Na Ásia e na África, tampouco há muita unidade (entre as nações)”, disse.

Ele também elogiou o sistema de bem-estar social e de proteção contra o desemprego europeu, que segue em pé, apesar das dificuldades recentes devido à crise econômica e ao baixo crescimento que atinge diversos países europeus. “Na Europa, identificamos um esforço em evitar que a desigualdade escape ao controle, o que não vemos nos EUA, na América Latina e em outras regiões do planeta”, disse.

“Visto de outros continentes, um eventual naufrágio da UE em um mundo cada vez mais imprevisível, com Trump de um lado e os chineses de outro, seria uma tragédia. Quem defenderá um sistema internacional baseado em normas e princípios, o chamado ‘rule based system’?”, perguntou.

“Os europeus parecem não se orgulhar tanto da Europa. Será preciso um olhar de fora para perceber que a UE representa um projeto de paz fantástico, onde há um permanente debate entre a social democracia e o liberalismo?”, perguntou o médico sanitarista e político brasileiro Eduardo Jorge, que foi candidato a presidente da República pelo Partido Verde na eleição de 2014. “A UE representa valores importantíssimos nos dias de hoje e os europeus, de todas as idades, deveriam se orgulhar disso”, disse Jorge, que integrava uma plateia majoritariamente pró-Europa.

          Condomínio de privilegiados

“Apesar de tudo o que foi dito aqui, continuo pessimista”, insistiu Dino Cofrancesco, que qualificou a União Europeia como um “condomínio que oferece uma ampla gama de serviços e produtos para cidadãos consumidores, administrado por uma classe de burocratas muito bem remunerados”. “Ao fundar um projeto de união sobre essas bases, por que estranhar que os cidadãos consumidores prefiram sair quando não se sentem satisfeitos com os serviços oferecidos?”, perguntou.

“Será mesmo uma casualidade o fato de tantos europeus não amarem a Europa? Afinal, os proprietários dos andares mais altos compartilham seu conforto com intelectuais e jornalistas que tentam convencer os demais cidadãos de que eles nunca estiveram tão bem. Se afirmamos viver em democracias e, nelas, não há consenso, não podemos demonizar quem não ama a Europa”, disse.

“A sensação (de boa parte dos europeus) é a de que a União Europeia é pouco democrática porque decide questões que, num Estado federal, seriam de competência de cada unidade federativa, como direito penal, bioética, educação, saúde e alimentação”, disse.

“Ao mesmo tempo, a UE falha ao não ter uma política externa comum e, em temas complexos como a imigração ilegal, não apoia como deveria os países mais atingidos, como a Itália e a Grécia”, concluiu. Os países mediterrâneos são a principal porta de entrada para os imigrantes ilegais originários do Oriente Médio e do Norte da África, e arcam com a maior parte do ônus de recebê-los, embora a maioria deles prefira se estabelecer em países mais ricos como Alemanha, Reino Unido e Suécia.

“Quando os diversos povos que hoje formam a Itália se uniram desejavam se sentir membros da mesma família espiritual. A cidadania italiana não representou um ingresso para um grande shopping center, mas uma identidade e uma matriz cultural. A conveniência econômica (que a UE propõe) gera muitos conflitos, pois, embora garanta certos direitos e serviços, não respeita especificidades e tradições. A riqueza da Europa está na pluralidade”, concluiu o filósofo italiano.

Saiba mais:

Há um declínio global das democracias? Mesa redonda com Larry Diamond

Bloqueio global: como superar a crise das instituições internacionais?

A Europa em sua hora mais grave: cinco ameaças ao velho continente

Otávio Dias, jornalista, é editor de conteúdo da Fundação FHC. Especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.

Mais sobre Debates