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Democracias turbulentas: o que acontece na Europa, na América Latina e nos EUA?

/ auditório da Fundação FHC


“What the hell is going on?” (O que diabos está acontecendo?)

Sérgio Fausto , superintendente-executivo da Fundação FHC.


Por que democracias estáveis, como a norte-americana e as europeias, e em amadurecimento, como as latino-americanas, vivem um período tão turbulento? Para responder a esta pergunta, a Fundação Fernando Henrique Cardoso e o German Marshall Fund of the United States (GMF) organizaram em setembro um seminário de dia inteiro em São Paulo, com a participação de especialistas de diversos países.

O seminário foi dividido em quatro painéis: Europa, América Latina, Estados Unidos e Democracias e o Sistema Internacional. Apesar das diferenças regionais, algumas questões são comuns à Europa e às Américas. Conheça cinco delas.

 

       1 - Globalização em crise (ou desglobalização?)

Tanto na Europa como nos Estados Unidos existe a sensação de que a globalização — o aprofundamento da integração econômica, social e cultural do planeta desde os anos 1990 impulsionado pelo fim da Guerra Fria e pela redução de custos dos meios de transporte e de comunicação — não tem resultado em uma vida melhor para uma parte significativa da população desses países ou regiões, em especial para os mais pobres e a classe média. Na América Latina, houve um longo período de bonança nos anos 2000, com o boom dos preços das commodities. Mas essa boa fase começou a perder fôlego a partir da crise global de 2008, cujos impactos continuam a ser sentidos em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Tornou-se comum falar em “desglobalização”: uma tendência de crescente isolamento entre os países, com reversão de acordos comerciais e processos de integração, adoção de medidas protecionistas e possível fortalecimento de partidos e líderes nacionalistas. Será uma tendência duradoura ou apenas um momento da política e da economia nas Américas e na Europa?

       “Existe uma percepção de que os benefícios e as dores do comércio livre e de economias mais abertas não foram distribuídos de forma justa.”

       Christian Leffler, diplomata sueco, é vice-secretário geral para Questões Econômicas e Globais do Serviço de Ação Externa Europeu, o serviço diplomático da União Europeia.


“O sonho americano acabou: hoje a maioria dos americanos crê que seus filhos serão mais pobres do que a geração atual. E tanto Donald Trump (candidato republicano à Casa Branca) quanto Bernie Sanders (que disputou as prévias no Partido Democrata com Hillary Clinton) centraram suas campanhas na crítica à estagnação do nível de vida da classe média americana (e atribuíram a maior parte da culpa aos tratados de livre comércio).”

Mathew Burrows, é diretor do programa “Strategic Foresight Initiative” do Atlantic Council e um dos autores do estudo “Global Trends 2030: Alternative Worlds”, publicado pelo National Intelligence Council (NIC).

       “Creio que, passada a eleição nos Estados Unidos, o TPP (Parceria Transpacífico, acordo de livre-comércio estabelecido entre doze países banhados pelo Oceano Pacífico anunciado em 2015 após sete anos de negociações) será aprovado pelo Congresso norte-americano. É a melhor resposta que os EUA podem dar à crescente hegemonia chinesa no comércio internacional.”

       Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington.


Opinião semelhante foi expressa pelo cientista político mexicano Rafael Fernández em recente seminário sobre as relações entre México e Brasil na Fundação FHC. Fernández disse não acreditar que o Nafta (tratado comercial entre EUA, México e Canadá, em vigor desde 1994) seja prejudicado porque isso seria ruim para os próprios Estados Unidos, mas previu um período de esfriamento do TPP, já que tanto Trump como Hillary têm atacado o novo tratado.

       “Mas, se Hillary vencer, não o considero morto porque é um acordo fantástico para os EUA em sua relação com a China tanto do ponto de vista comercial quanto estratégico.”

       Rafael Fernández de Castro Medina, do Instituto Tecnológico Autónomo de México.

 

       2 - Tecnologia, desemprego e novas oportunidades

Uma das consequências da revolução tecnológica das últimas décadas é uma profunda mudança no trabalho, com o desaparecimento de diversas profissões, substituídas por novas tecnologias e processos, máquinas e robôs. Empregos para toda a vida em uma mesma empresa são cada vez mais raros, exigindo mais flexibilidade, aperfeiçoamento contínuo, capacidade de adaptação e iniciativa. Ao mesmo tempo, essas mudanças radicais também criaram novas oportunidades.

       “Os burocratas da União Europeia deveriam fazer um ‘mea culpa’. Afinal, nos últimos 30 anos muitas pessoas perderam seus empregos e nunca mais terão um trabalho formal. Como dizer isso a elas? O que fizeram os líderes social-democratas ou cristão-democratas, que dizem defender o Estado de bem-estar social, em prol dos desempregados? Como evitar que o desemprego de cerca de 10% na França (entre os jovens, é de quase 25%), por exemplo,  resulte em más decisões eleitorais? Esta é uma oportunidade perdida pela UE.”

       Jorge Castañeda, ex-ministro das Relações Exteriores do México.

 

      “Diferentemente do que muitos dizem, os empregos dos motoristas norte-americanos não estão desaparecendo por causa do Nafta (acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá), mas por causa das mudanças tecnológicas. É importante proteger as pessoas mais atingidas e, ao mesmo tempo, mostrar que o mundo que está vindo também trará oportunidades.”

       Kori Schake, pesquisadora do Hoover Institution e ex-diretora do National Security Council durante o primeiro mandato de George W. Bush.
 

       3 - Imigração em massa

A guerra na Síria e os demais conflitos no Oriente Médio, Norte da África e Afeganistão provocaram êxodo em massa de refugiados rumo aos países mais ricos da União Europeia. Também há uma forte imigração motivada por razões econômicas, originária principalmente de países da África subsaariana, assim como de antigos países comunistas do Leste Europeu integrados à UE. Já os EUA têm sido o destino de migrantes do México, da América Central e de outras partes do mundo, que tentam entrar no país via território mexicano. Segundo o mexicano Rafael Fernández, “a América Central é a Síria das Américas, e o México, o Mar Mediterrâneo”. Mesmo com o argumento de que a imigração pode ter efeitos positivos em países com baixo crescimento demográfico e em rápido processo de envelhecimento, como a maioria dos europeus, a chegada de levas de migrantes é vista como uma ameaça aos empregos e fator de insegurança.

       “Dois projetos europeus extremamente ambiciosos, que foram a criação do euro (moeda única europeia) e o Acordo de Schengen, que permitiu a livre circulação de pessoas dentro da UE, estão sob risco devido à evaporação do apoio político.”

       Michael Leigh, ex-diretor geral para a expansão da União Europeia e atualmente consultor-sênior do German Marshall Fund of the United States (GMF).

       “A União Europeia imaginava que seria possível distribuir os centenas de milhares de refugiados da Síria e do Oriente Médio entre todos os membros do bloco, mas a maioria quer ir para a Alemanha, o Reino Unido ou os países escandinavos, o que acaba criando problemas nesses países.”

       Christian Leffler

       “Desde o governo de Bill Clinton, já existe uma cerca em boa parte da fronteira entre os EUA e o México. Para cumprir sua promessa de construir um muro, Trump só precisa dobrar a extensão do já existente. E, para enviar a conta para o país vizinho, basta triplicar o valor do visto americano para os mexicanos.”

       Jorge Castañeda

       4 - Terrorismo e violência

A crescente ameaça do terrorismo islâmico na Europa e nos Estados Unidos e os altos níveis de violência na América Latina, em parte devido à atuação do narcotráfico e do crime organizado, também são importantes fatores de instabilidade para as democracias.

       “O desejo por maior segurança em detrimento da liberdade em alguns países ocidentais é motivo de preocupação porque, quando esse equilíbrio é posto em xeque, a democracia acaba prejudicada.”

       Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais na Universidade Di Tella, em Buenos Aires.

       “Existe uma grande preocupação com o crescimento do terrorismo islâmico hoje na Europa, mas esquecemos que o auge da atividade terrorista na Europa foi entre os anos 1970 e 1990, quando havia grupos terroristas em atividade em diversos países como Reino Unido, Espanha, Itália e Alemanha.”

       Christian Leffler

       “A Europa enfrenta a questão do extremismo islâmico, que tem alistado muitos jovens europeus. Já no Brasil e em outros países da América Latina, muitos entram para o crime organizado porque é uma forma mais rápida de melhorar de vida.”

       Christian Leffler

“O Brasil vive uma situação de grande risco, pois precisa resolver a questão do déficit fiscal e, ao mesmo tempo, responder aos desejos por melhores serviços públicos, com uma classe política desprestigiada. A questão da segurança é especialmente dramática.”

       Sérgio Fausto, cientista político e superintendente-executivo da Fundação FHC.

       5 - Crise da política e dos partidos tradicionais

No Brasil, que há apenas alguns anos era visto como uma potência em ascensão no cenário mundial, a grave crise política, econômica e ética já causou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, mas ainda está longe de ser resolvida. Na Europa, a decisão do Reino Unido de deixar a UE provocou a queda do governo de David Cameron. Na Espanha, sucessivas eleições não garantiram a formação de um governo estável e o país segue sem rumo. Na Grécia, a crise financeira continua firme e forte. Nos Estados Unidos, tanto o republicano Donald Trump como a democrata Hillary Clinton despertam mais desconfiança do que apoio, e seus respectivos partidos não se entendem no Congresso. Na Venezuela, o governo de Nicolás Maduro enfrenta uma crise de desabastecimento, níveis recordes de rejeição e um possível referendo revogatório.

       “As estruturas da democracia como a conhecemos estão mudando e vivemos em um estado de catarse permanente. Essa nova sociedade anarquista é contra os governos, os políticos e as instituições econômicas. Estamos vendo uma profunda alteração na maneira como os partidos políticos vão funcionar, com maior participação através dos meios digitais.”

       Bernardo Sorj, cientista político brasileiro de origem uruguaia, é diretor do Centro Edelstein de Políticas Sociais.

       “Existe uma desconexão entre os governantes eleitos e suas respectivas populações na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. As paisagens políticas estão mudando muito rapidamente.”

       William McIlhenny, diplomata de carreira norte-americano, é membro sênior do German Marshall Fund of the United States.

       “Nos últimos 20 a 30 anos, a América Latina de maneira geral viveu um notável período de evolução democrática, crescimento econômico e transformação social (apesar da crise mais recente). Para continuar a evoluir, é necessário mais transparência, melhor governança e democracia participativa.”

       Christian Leffler

Veja também quatro acontecimentos ou tendências que precisam ser cuidadosamente observados nos próximos anos.

       1 - Eleição nos Estados Unidos

Segundo todos os analistas presentes, o resultado da disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton em novembro próximo é absolutamente imprevisível. As últimas pesquisas mostram que os dois candidatos estão praticamente empatados e a eleição, mais uma vez, deve ser decidida em alguns poucos Estados que costumam votar ora pelos republicanos ora pelos democratas, os chamados “swing states”.

“Devemos nos preparar para a possibilidade de ter Donald Trump na Casa Branca.”

A Flórida, que definiu a vitória de George W. Bush sobre Al Gore em 2000, é um deles. Devido à hegemonia econômica, política e militar do país, a escolha dos norte-americanos terá obviamente grande impacto em diversas áreas, entre elas economia, integração comercial, meio ambiente, imigração, combate ao terrorismo etc.
 

       “Na América Latina, estamos acostumados ao populismo, mas é a primeira vez que vemos Trump, Bernie (Sanders) e mesmo Hillary embarcarem em promessas populistas. Se forem cumpridas, pode ocorrer um fortalecimento do populismo em outras regiões, inclusive na Europa, que, aliás, tem (e historicamente teve) mais líderes populistas do que os EUA.”

       Rubens Barbosa

       “Não menosprezo o perigo representado por Trump, mas acredito que o sistema de ‘checks and balances’ (freios e contrapesos) existente na política americana funcionará.”

       Kori Schake, que já ocupou importantes cargos em governos republicanos

       2 - Brexit e o futuro da União Europeia

Em breve, o Reino Unido deve iniciar o processo de saída da União Europeia, conforme decidido em referendo realizado em julho deste ano. As conseqüências desse processo, apelidado de “Brexit”, são desconhecidas tanto para o Reino Unido (terceira maior economia da Europa e sexta do mundo) quanto para a UE e a economia internacional. Em 2017, haverá eleições na Alemanha e na França, os principais países da UE, e partidos nacionalistas ou de extrema direita estão em alta. Por fim, a estagnação econômica e o alto desemprego continuam a atingir diversos países europeus, colocando em risco o futuro do bloco econômico.

       “A União Europeia vai sobreviver, mas de forma bastante diferente da que temos hoje ou imaginávamos. Não haverá um estado federal ou a adesão de novos países. Será uma união mais modesta e pragmática.”

       Michael Leigh

       “Apesar das dificuldades atuais, a UE é um projeto tão bem-sucedido que, quando dizemos para um jovem europeu que ela foi criada para garantir a paz, ele não entende. Precisamos de um novo elemento de coesão para a UE.”

       Michael Leigh

       3 - China (e Rússia)

Apesar da desaceleração de seu crescimento econômico nos últimos anos, a China em breve será a maior economia do mundo (em termos de PIB) e continuará a elevar sua participação no comércio mundial. Também deve aumentar seus investimentos pelo mundo. O país nega que tenha pretensões territoriais hegemônicas, mas seus gastos militares são crescentes e, recentemente, o país realizou exercícios militares no Mar da China.

Já a Rússia, embora enfrente problemas econômicos e de redução de sua população, continua a ser uma potência energética e nuclear e, sob o governo autoritário de Vladimir Putin, tem buscado reconquistar parte de sua influência sobre países e regiões que no passado gravitavam em torno da União Soviética. A anexação da Crimeia e o apoio aos separatistas no leste da Ucrânia são um exemplo desse projeto de poder. Putin também interveio militarmente na Síria, em apoio ao ditador Bashar al-Assad, numa tentativa bem-sucedida de se tornar mais presente no Oriente Médio.

       “A China, assim como a Rússia, terão maior influência no sistema internacional, o que não será aceito facilmente em ambos os lados do Atlântico (EUA e Europa). Quando a China se tornar a primeira economia do mundo, viveremos um momento de transição em que podem ocorrer conflitos.”

       Juan Gabriel Tokatlian

       “Estaremos retornando a um mundo bipolar, com Estados Unidos e Europa, de um lado, e China, Rússia e Irã, do outro? Ninguém deseja uma nova guerra, por isso é importante manter abertos canais de comunicação com os chineses.”

       Juan Gabriel Tokatlian

         4 - América Latina: Brasil, Argentina, Colômbia, Venezuela, México e Cuba

O Brasil resolverá sua crise política e econômica e retomará o processo de superação da desigualdade social? A Argentina terá sucesso em sua tentativa de reverter o processo de declínio das últimas décadas? Brasil e Argentina conseguirão renovar o Mercosul e fechar um acordo comercial com a União Europeia? O processo de paz entre o governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) resultará no fim do mais longo conflito armado da América Latina?

“As condições são boas para uma revisão e uma modernização do Mercosul porque, finalmente, Brasil e Argentina estão pensando da mesma maneira.”

A Venezuela finalmente superará a crise política e econômica e retornará ao caminho da democracia? O México prosseguirá em seu caminho de modernização econômica e buscará uma maior integração com o Brasil? Cuba avançará na trilha de reformas econômicas e fará uma transição pacífica para a democracia? Quando o Congresso americano colocará um fim ao embargo econômico à ilha? A América Latina, assim como a Europa, vive uma fase de mais perguntas do que respostas.         

“Nos últimos dois ou três anos, a América Latina vive o fim de um ciclo político que vinha desde a eleição de Hugo Chávez (em 1998). A região passa por novos processos políticos, mas ainda não está claro o que vai acontecer. Vai depender muito do Brasil. Existem muitas variáveis fora de nosso controle, da crise que atinge toda a classe política a um contexto global que também nos afeta.”

         Sérgio Fausto

         “Permitam-me ser um pouco mais dramático. A economia brasileira vai melhorar, mas temos problemas estruturais no campo da política que não serão resolvidos tão rapidamente.”

         Bernardo Sorj

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Otávio Dias, jornalista, é editor de conteúdo da Fundação FHC. Jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.

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