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Cenário global do investimento em infraestrutura: principais tendências

/ auditório da Fundação FHC

  
“Após uma semana de conversas no Brasil, minha percepção é de que são necessárias mais reformas, o governo precisa dar mais apoio e correr mais riscos para efetivamente conseguir trazer investimento estrangeiro para a área de infraestrutura do país.” (James Stewart, diretor da KPMG e ex-CEO do programa Partnerships UK)

Existem abundantes recursos disponíveis no mundo para investimentos em infraestrutura, mas, para conseguir atraí-los de forma consistente e na quantidade necessária, o governo brasileiro precisa assumir plena responsabilidade pelo planejamento e a articulação do novo Programa de Parcerias e Investimentos, o PPI.

“Além de definir os projetos prioritários, estruturá-los com competência e de forma rentável, o governo brasileiro deve fazer o que for necessário, inclusive oferecer garantias e/ou criar um hedge cambial (proteção contra oscilações no valor do real), para dirimir as dúvidas ainda existentes no mundo em relação ao Brasil”, afirmou James Stewart, diretor global da Área de Infraestrutura da KPMG, multinacional de auditoria e consultoria, em seminário na Fundação Fernando Henrique Cardoso.
 

Ainda segundo Stewart, que foi CEO do Partnerships UK (PUK) e do Infrastructure UK (IUK), órgãos responsáveis por aconselhar o governo em políticas relacionadas à área de infraestrutura e parcerias público-privadas no Reino Unido, os primeiros anos de um programa de infraestrutura realizado em parceria com o setor privado são cruciais para criar uma história de sucesso: “Depois de dois ou três anos, é possível que o mercado já possa funcionar de forma mais independente e por conta própria, abrindo espaço para que o governo retire parte desse decisivo apoio inicial.”

O seminário “Cenário Global e Investimento em Infraestrutura no Brasil”, realizado em 28 de outubro no auditório da Fundação FHC em São Paulo, também teve a participação de Marcelo Allain, secretário de Articulação para Investimentos e Parcerias do PPI. (leia o texto: “Investimento em infraestrutura no Brasil: primeiras medidas do governo Temer”). “Este programa é fruto de uma iniciativa tomada pelo presidente Michel Temer em 12 de maio, assim que assumiu o governo ainda de forma interina. Ele parte do diagnóstico de que, além do esforço de fazer o ajuste fiscal, também precisamos avançar em iniciativas que tragam investimentos, melhorem a infraestrutura e a qualidade dos serviços do país”, disse.

De acordo com o palestrante britânico, o risco de o governo não agir decididamente e com ousadia é os investimentos externos não virem, dificultando a retomada do tão necessário crescimento econômico após dois anos de recessão que custaram cerca de oito pontos percentuais ao PIB brasileiro.
“Os investimentos em infraestrutura não apenas trazem os benefícios diretamente associados aos gastos com obras, mas também benefícios mais amplos e duradouros para o país.”
Durante sua apresentação de cerca de 30 minutos, James Stewart falou sobre as principais tendências mundiais no setor de infraestrutura.

       1) ‘Deslocamento do centro de gravidade para o Oriente.’

Segundo o especialista britânico, o mercado global de infraestrutura, tradicionalmente dominado pelo Reino Unido e outros países europeus, além de Canadá e Austrália, está sendo invadido por novos atores, principalmente a China. “O centro de gravidade do mercado de infraestrutura está se movendo para o leste, principalmente para a China, mas também para o Japão, a Coreia do Sul e outros países asiáticos”, disse.

Por iniciativa da China, foi criado recentemente o Asian Infrastructure Investiment Bank, com capital de US$ 100 bilhões. “O AIIB é um soco direto nos olhos do Banco Mundial, que os chineses consideram controlado pelos Estados Unidos”, disse Stewart. Ele também citou o projeto One Belt & One Road, que visa integrar a China a mais de 60 países da Ásia Central, Sudeste Asiático, Oceania, Oriente Médio e Europa.

“No 13º Plano Quinquenal (2016-2020) do governo chinês, passou a ser política de Estado que as empresas estatais chinesas do setor de infraestrutura devem ir atrás de negócios internacionais”, disse o palestrante. Leia mais sobre o assunto no texto “A China sob Xi Jinping: o que quer e o que pode o líder chinês.”

Segundo James Stewart, há “novos investidores emergindo de literalmente cada canto do globo”. Isso significa que é um bom momento para vender ativos, seja por meio de privatizações, concessões e/ou participações. “Esta é uma boa notícia para o Brasil, que, ao mesmo tempo, precisa renovar e construir sua infraestrutura e também impulsionar sua economia”, disse 

       2) Um mercado cada vez mais diverso

O mercado global de infraestrutura está se diversificando e se tornando mais variado, com três tipos principais de investidores:

  1. Investidores puramente financeiros - Representados principalmente por fundos de investimento e fundos de pensão, neste último caso com maior paciência para esperar retornos de mais longo prazo;

  2. Investidores-empreendedores - Combinam investimento com o suprimento de serviços ou de equipamentos;

  3. Empresas especializadas em concessões - Interessadas em operar diretamente o empreendimento e no retorno da operação a médio e longo prazo. A maior parte das empresas da China se encaixa nesta categoria e responde aos interesses estratégicos do Estado chinês, interessado em assegurar o fornecimento de matérias primas. Isso é verdade, por exemplo, nas concessões na área de petróleo e gás e na área de transporte, quando o empreendimento está ligado ao escoamento da produção agropecuária.

       3) O perfil de risco de projetos de infraestrutura está aumentando

Seja pelas incertezas que atingem diversas economias do mundo, pelo risco político ou pela volatilidade cambial, a maioria dos projetos de infraestrutura tem hoje um risco mais elevado. “O surpreendente é que os investidores não estão precificando esse risco no momento. Pelo contrário. Nunca vimos o pagamento de valores tão elevados por participações em projetos de infraestrutura no mundo, resultado da oferta de capital no setor de infraestrutura ser superior à demanda real (de projetos concretos e bem-estruturados)”, disse Stewart.

       4) Setor privado tem papel cada vez mais significativo…

Em comparação com 25 ou 30 anos atrás, quando praticamente toda a infraestrutura no mundo tinha o governo como dono, operador e administrador, nas últimas três décadas houve grande número de privatizações, concessões e PPPs (Parcerias Público Privadas), aumentando gradativamente a influência do setor privado.

       5) … Mas a maior responsabilidade continua sendo dos governos

Para James Stewart, o setor público, ou seja, o governo, e o setor privado têm papéis muito diferentes no que diz respeito à infraestrutura. “Isto é crítico: são os governos que devem tomar as decisões mais relevantes sobre onde investir e sobre o planejamento dos projetos. Se delegarem essa responsabilidade ao setor privado, este tomará as decisões com base apenas no retorno do investimento. Ocorre que, do ponto de vista público, existem benefícios muito mais amplos a serem obtidos, desde melhores serviços em energia, transporte e outras áreas até o estímulo ao progresso econômico”, afirmou.

Para o britânico, os aeroportos de Londres são um exemplo de como o governo precisa definir a política de infraestrutura. A capital do Reino Unido é servida por cinco aeroportos principais, que operam próximo de sua capacidade total. “O concessionário privado de um deles pode não ver necessidade de construir novas pistas de pouso e decolagem ou terminais. Mas, do ponto de vista do governo, há uma estagnação (um gargalo). Cabe a ele, portanto, planejar os investimentos para expandir essa capacidade”. disse.

       6) A revolução tecnológica chega à infraestrutura

Depois de mudar radicalmente o setor de telecomunicações/telefonia, a revolução tecnológica em curso há algumas décadas já migra para todos os demais setores de infraestrutura. Painéis solares cada vez mais baratos, menores e mais eficientes e novas soluções de armazenamento transformarão a maneira como as pessoas recebem energia em casa ou no escritório. Na área de transportes, os trens em breve atingirão a velocidade de 1.000 km/hora, assim como os veículos autônomos mudarão completamente tanto o transporte de passageiros como de mercadorias.

“Esta transformação tecnológica, rápida e profunda, tornará muito mais difícil planejar projetos de infraestrutura e, para ser sincero, muitos hesitarão em tomar decisões de investimento de longo prazo”, afirmou Stewart.

       7) Administração da demanda e potencialização da capacidade

Como utilizar melhor a infraestrutura que já temos? A resposta está na aplicação de novas tecnologias. Exemplo: a análise de dados sobre a movimentação das pessoas dentro das cidades, que se tornou muito mais precisa com os telefones móveis, permitirá ampliar significativamente a capacidade do transporte público já existente, assim como melhorar o trânsito nas ruas.

       8) Taxas específicas para projetos de infraestrutura

“Todo o mundo quer construir infraestrutura, mas poucos têm dinheiro para fazer isso. Portanto, uma grande parte de nosso negócio (da KPMG) consiste em conversar com as pessoas responsáveis sobre novos meios de levantar recursos, o que, em alguns casos, pode significar criar novas taxas específicas para financiar projetos de infraestrutura”, disse Stewart. Exemplo: em Londres, foi criada uma taxa suplementar sobre propriedades comerciais para financiar um terço de um projeto de infraestrutura orçado em 15 bilhões de libras (cerca de R$ 60 bilhões).

       9) Oferecer garantias para atrair financiamento

Diante de recursos públicos cada vez mais escassos, a saída para governos ou grandes bancos de desenvolvimento  pode ser oferecer garantias ou criar algum outro produto financeiro que transmita segurança ao investidor privado. Exemplo: o Reino Unido, que tem um dos mercados de capitais com maior liquidez do mundo, criou uma espécie de fundo de garantia no valor de 40 bilhões de libras (R$ cerca de 161 bilhões) para dar suporte a seu programa de infraestrutura.

“Ao fazer isso, o ‘chancellor of the Exchequer’ (cargo equivalente ao de ministro das Finanças) sinalizou que o Reino Unido precisava estimular o crescimento econômico e não ficaria de braços cruzados esperando o setor privado investir em projetos de infraestrutura. Ao oferecer uma garantia, aumentou a chance de que os investimentos de fato ocorressem”, explicou o palestrante.

Segundo Stewart, o mais surpreendente é que essa garantia acabou sendo pouco usada: “Nos primeiros meses, o ministro procurou os envolvidos para entender o motivo. A resposta foi que, embora a garantia cumprisse a função de transmitir confiança e segurança ao mercado, a própria competição que ela acabou criando fez com que quase não precisasse ser usada. Sem aquela garantia inicial, no entanto, os negócios provavelmente não teriam acontecido”, explicou. Leia reportagem do Financial Times sobre o assunto.

Garantias do governo foram necessárias, no entanto, para deslanchar o empreendimento imobiliário de Battersea Power Station, à beira do rio Tâmisa, em Londres. “No caso dessa antiga estação de energia (imortalizada na capa do disco Animals, do Pink Floyd), havia um grande projeto urbanístico e imobiliário que não ia pra frente porque dependia de uma extensão do metrô até o local, mas nem a City Transport Authority (responsável pelo Underground londrino) nem os empreendedores envolvidos queriam investir. O governo lançou mão então de garantias e determinou que os impostos sobre o futuro empreendimento cobririam o custo do eventual uso dessas garantias. O resultado é que já se podem ver andaimes e gruas no local”, contou.
 
Também a Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia) disponibilizou 16 bilhões de euros (R$ 57 bilhões) para o European Investment Bank (EIB) com o objetivo de levantar uma quantia 15 vezes superior de recursos privados para projetos de infraestrutura.

       10) Infraestrutura associada à sustentabilidade

“O futuro está na infraestrutura associada à sustentabilidade”.

De acordo com o diretor da KPMG, quando se fala em projetos de infraestrutura em geral pensamos imediatamente em estradas, ferrovias, aeroportos, portos, projetos de exploração e produção de energia. Mas uma das principais questões em discussão no âmbito da ONU (Nações Unidas) é justamente a necessidade de mudar o foco dos programas de infraestrutura para outras áreas como construção de escolas, moradias sustentáveis, obras de proteção contra enchentes, projetos de ‘green power’ (energia verde) e limpeza de água.

Leia também outros seminários relacionados ao tema:

Brasil: como remover obstáculos ao investimento privado?

Inovação e saúde no Brasil: identificando desafios e buscando soluções

O Fim do Triunfalismo Petroleiro

Mudança Climática: Paris foi um divisor de águas?

Otávio Dias, jornalista, é editor de conteúdo da Fundação FHC. Especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.

 

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