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Ativismo Político em Tempos de Internet

/ auditório da Fundação FHC


"Quiçá o aspecto mais inovador do tema que estamos pesquisando é a relação fundamental entre os mundos online e offline. Eles estão profundamente permeados um pelo outro." – Bernardo Sorj, sociólogo.

O projeto Plataforma Democrática (www.plataformademocratica.org), uma parceria entre a Fundação Fernando Henrique Cardoso e o Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, acaba de publicar o segundo e-book fruto de uma pesquisa sobre internet, mobilização política e novas formas de democracia, com apoio do National Endowment for Democracy e do Open Society Institute.

O livro digital Ativismo Político em Tempos de Internet, cujo download é gratuito, contém 19 estudos de caso de ciberativismo ocorridos recentemente em seis países latino-americanos, entre eles o processo de elaboração do Marco Civil da Internet, as manifestações de junho de 2013 e a atuação do Mídia Ninja (Brasil), o surgimento do Partido de la Red (Argentina), o movimento estudantil (Chile), a Marcha camponesa e a Marcha pela vida (Colômbia), o coletivo Quito, YO me apunto (Equador), os protestos de 2014 na Venezuela e o projeto #SOSVenezuela e campanhas online dos sites Avaaz no Brasil e change.org na Argentina.

A principal conclusão é que nenhum dos casos analisados representa uma ‘bala de prata’ capaz de resolver os múltiplos desafios enfrentados na construção de instituições democráticas mais sólidas e de maior qualidade no século 21, mas todos indicam novas possibilidades e desafios ao desenvolvimento de relações virtuosas entre as formas tradicionais de participação (tanto nas organizações da sociedade civil como nos partidos políticos) e o ativismo no espaço virtual.

“Na internet, não existe a bala de prata que resolve tudo. As experiências recentes de ativismo online reproduzem velhas formas de ativismo e criam novas”, explicou Bernardo Sorj, organizador do livro.

Para Bernardo Sorj, sociólogo e coordenador do projeto Plataforma Democrática, “quando surge um fenômeno online, já houve dinâmicas offline que foram fundamentais”. “As dinâmicas offline influenciam o mundo online e vice-versa. Quando o online e o offline trabalham juntos, as relações virtuosas aumentam enormemente”, disse Sorj, nascido no Uruguai e naturalizado brasileiro.

Preservar o potencial democrático

A gênese da internet está na universidade, onde a comunidade acadêmica sempre trabalhou de forma mais horizontal e interativa, lembrou o filósofo Pablo Ortellado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Já alguns dos serviços online mais populares, como Twitter, Flikr e Craigslist, foram idealizados por ativistas antiglobalização.

“Mais ou menos tudo o que vivemos na internet e nas redes sociais atualmente, incluindo o Google e o Facebook, se originou na academia ou nos movimentos sociais nas últimas décadas do século 20. Não é à toa que essas comunidades que já se organizavam de outra maneira tenham começado, a partir do momento que a internet foi aberta ao grande público, a explorar todo o seu potencial de comunicação e mobilização”, afirmou.

Para Ortellado, o grande desafio é “preservar o potencial democrático dessas novas formas de comunicação que já rivalizam com a televisão e outras mídias tradicionais”. “Precisamos preservar (o mundo online) para que ele não seja dominado por velhas formas e perca o potencial de oferecer saídas para a grande crise de legitimidade do Estado pela qual estamos passando”, disse.

“Como diz Manuel Castells (sociólogo espanhol), comunicação é poder. O Estado tem duas cabeças: é coerção e também é convencimento. E a comunicação é um instrumento vital de convencimento. A partir do momento que a sociedade começa a se organizar de outras maneiras, vemos tentativas de reintroduzir formas de organização social centralizadas nesse universo mais democrático e participativo”, afirmou Ortellado.

Como exemplo, ele citou pesquisa que revelou que 80% de tudo o que circulou nas redes sociais na semana anterior à votação do impeachment na Câmara dos Deputados se alinhava a duas narrativas de campanha: ‘É golpe!’ ou ‘É corrupção!’. “Essas duas mensagens afogaram qualquer tipo de reflexão mais independente ou matiz”, disse.

A emergência de uma nova sociabilidade

“A relação entre o ciberativismo e a internet, as tecnologias digitais e a política não é um tema a mais, mas algo fundamental. Este livro apresenta uma grande diversidade de entradas à nova realidade que está diante de nós”, disse o argentino Isidoro Cheresky, professor de Teoria Política Contemporânea da Universidade de Buenos Aires.

“As redes sociais representam a emergência de uma sociabilidade inteiramente nova, onde a distinção entre o público e o privado praticamente desaparece e todos estamos sempre presentes".

“Não se trata de um novo meio de comunicação ou de um conjunto de novas tecnologias, mas de uma inflexão no modo de viver juntos. Da mesma maneira, o tema desse encontro integra uma questão mais ampla que é a democracia do século 21, uma mutação da que conhecíamos até recentemente. O mundo digital amplia o espaço público tradicional e põe tudo de pernas para o ar”, afirmou Cheresky.

“Não vivemos mais no mundo de uma democracia de partidos. Não que não haja agremiações partidárias ou competição política entre elas, mas a associatividade passa por outros caminhos e há uma fragmentação que é difícil de aceitar porque parece que nos joga no vazio”, concluiu.

Comentando a fala de Cherensky, Sergio Fausto, superintendente da Fundação FHC e coorganizador do livro, disse: “Sua exposição me lembra uma passagem do filme ‘O Mágico de Oz’ em que Dorothy e seu cachorro Tuto são carregados por um tornado e aterrissam em um lugar com cores e formas inusitadas. Dorothy diz então: ‘Tuto, tenho a sensação de que já não estamos mais em Kansas’.” “Não se trata de um fenômeno restrito a uma determinada esfera da vida social, mas que se infiltra no conjunto da sociedade e delimita um novo mundo, no qual a gente começa a se mexer e ainda é um território desconhecido para todos”, completou, referindo-se aos impactos das redes sociais.

Capitalismo 2.0

“O livro fortalece uma área de estudo e pesquisa que está crescendo e nos ajuda a mapear e entender esses processos que estão explodindo na vida pública, com os quais ainda não sabemos como lidar, não temos sequer um vocabulário definido, então tudo o que puder ser feito é uma importante contribuição”, disse o cientista social Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da UNESP (Universidade Estadual Paulista). “Pelos casos analisados, vemos que nós, brasileiros, estamos em boa companhia, pois os problemas que temos vivido no Brasil nos últimos anos também estão presentes em outros países da América Latina.”

Para entender a relação entre internet e política ou ativismo, Marco Aurélio disse ser necessário recorrer à sociologia: “Sem a sociologia, não conseguimos colocar de pé um elenco de temas e, sobretudo, de respostas para os problemas. Essa história não só começa lá atrás, como fora da internet”, afirmou. “Não é uma história cujo batismo vem pela introdução na sociedade de novas tecnologias de comunicação e informação. A sociedade, antes da internet, já estava se mexendo, se alterando e se reacomodando no sentido de adquirir o formato que apresenta hoje.”

“A sociologia nos ajuda a buscar essas raízes mais longínquas e a entender como, da segunda metade do século 20 em diante, o capitalismo foi remodelando a sociedade, adquirindo componentes que não estavam explícitos no século 19 e no início do século 20”, disse. “É como se tivéssemos passado de um capitalismo 1.0 para um capitalismo 2.0 e, com isso, provocado uma reorganização da sociedade. Em que sentido? Do meu ponto de vista, uma sociedade em que os indivíduos passam a ter um espaço de atuação muito maior do que antes.”

“Isso tem uma implicação política fundamental, pois resulta em uma fragmentação que torna mais complicada a tarefa da política democrática. O desafio posto por uma sociedade muito fragmentada é maior e este é um elemento importante para pensar a crise dos partidos políticos. Por que os partidos políticos de todo o mundo, inclusive nos EUA, entram em crise quase ao mesmo tempo nos últimos 20 anos? Eles estão com dificuldade de continuar funcionando como uma dobradiça entre sociedade e Estado”, afirmou Nogueira.

“É como se o modo de fazer política até hoje reproduzido pelos humanos estivesse com água pelo nariz, com dificuldade de se atualizar e inovar. O caso brasileiro é escandalosamente emblemático porque nosso sistema político é quase impermeável, só é alcançado pelas vozes da rua de forma oportunista no sentido de que, quando interessa, ouvem-se as ruas, quando não interessa, tampões nos ouvidos. O sistema político gira por moto próprio, sem estar ligado ao que acontece fora dele”, concluiu.

Para Sergio Fausto, dois fenômenos que vêm de longe contribuíram para essa diversificação e fragmentação social. “No plano da infra-estrutura, a crise do padrão fordista, com a diminuição da classe operária, a ampliação das ‘classes’ ligadas aos serviços e a modificação das formas de trabalho”, disse.

“No nível superestrutural, temos a crise das grandes narrativas que dominaram o imaginário político durante boa parte do século 20, a começar pelo socialismo. A partir de 1968, outras narrativas mais temáticas, como o feminismo e o ecologismo, começam a surgir e vão ganhando força. Quando surge a internet, esse processo que já vinha ocorrendo é acentuado. Não sejamos ingênuos de imaginar uma nova sociedade criada pela tecnologia”, afirmou Fausto.

A terceira onda

Há pouco mais de um ano, o projeto Plataforma Democrática lançou o primeiro livro desse projeto de pesquisa, intitulado Internet e Mobilizações Sociais: Transformações do Espaço Público e da Sociedade Civil, com apoio da Fundação Konrad Adenauer. No trabalho, os autores Bernardo Sorj, Danilo Martuccelli e Nicolás Somma focaram nas mudanças ocorridas nas sociedades brasileira e latino-americana entre a segunda metade do século 20 e os primeiros 15 anos do século 21. Segundo Bernardo, três grandes ondas marcaram esse período.

A primeira onda de organização da sociedade civil teve como motor sindicatos de trabalhadores e associações de assalariados e funcionários públicos, assim como grêmios e organizações estudantis, entre outros grupos representativos de importantes setores socioeconômicos.

A segunda onda surgiu com o advento das ONGs (Organizações Não-Governamentais) nos anos 1970, que levantaram bandeiras como a defesa dos direitos humanos e a preservação do meio ambiente, entre outras.

A terceira onda é a do ciberativismo, sobre a qual ainda se fazem mais perguntas do que afirmações. “Quando uma nova onda (de ativismo social) surge, as outras não desaparecem. Elas se sobrepõem e influenciam umas as outras. Mas, em uma perspectiva de longa duração, o mais interessante é que cada nova onda tende a substituir a capacidade de produção de utopias das ondas anteriores”, ressaltou o sociólogo em abril de 2015.

Um dos focos da próxima etapa da investigação em curso já está definido: o ativismo de profissionais de marketing a serviço de empresas, Estados, partidos e grupos de interesse. Cada vez mais presentes na rede, agem como se fossem cidadãos comentando notícias e expressando suas opiniões em caráter pessoal. “No livro que acabamos de lançar tentamos destrinchar esse lado mais brilhante de um ativismo bem intencionado. No próximo trabalho, vamos mostrar um lado mais cinza,”, disse Sorj.

Leia texto sobre o seminário Internet e Mobilizações Sociais: Transformações do Espaço Público e da Sociedade Civil

Otávio Dias é jornalista especializado em política internacional. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do portal estadão.com.br e editor-chefe do Brasil Post.

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