Seis meses de Macri - Perspectivas políticas da Argentina

/ auditório Fundação FHC


Pouco mais de seis meses após Mauricio Macri tomar posse na Casa Rosada, em 10 de dezembro de 2015, a Argentina ainda vive um cenário político desconhecido e imprevisível mesmo para os mais experientes analistas. “Montamos em um animal que não conhecemos, não sabemos como come, quando dorme e, sobretudo, como se comporta quando fica nervoso”, brincou Carlos Pagni, colunista dos jornais “La Nación” (Buenos Aires) e “El País” (Madri), em seminário na Fundação Fernando Henrique Cardoso.

“Podemos ver esses seis meses como uma transição meramente política ou como algo mais profundo. Creio que vivemos uma transição cultural. As transições políticas podem ser explicadas em 180 dias, mas as transições culturais necessitam de mais tempo”, afirmou Ernesto Ricardo Sanz, ex-senador e ex-presidente da União Cívica Radical, um dos partidos que integram a coalizão Cambiemos, liderada por Macri, e figura importante no atual governo.

“Em 22 de novembro do ano passado, quando Macri venceu o segundo turno da eleição presidencial, disse à minha mulher, Suzana: ‘Isto é sensacional! Mas será que ele vai conseguir mudar a economia antes que a sociedade ‘mude com ele’?’ Continuo sem resposta”, disse o historiador econômico Pablo Gerchunoff, professor emérito da Universidade Torcuato Di Tella e professor de honra da Universidade de Buenos Aires.

“Como resultado de algumas políticas adequadas adotadas nos primeiros seis meses, a economia argentina vai voltar a crescer a partir do ano que vem, mas a dúvida é se o governo Macri terá condições de passar da etapa de normalização da economia para a de reformas mais profundas”, afirmou o economista Nicolás Dujovne, também professor da Universidade de Buenos Aires.

Principal desafio: vencer as ‘eleições de meio de mandato’

Segundo os quatro participantes do debate “Seis Meses de Macri - As perspectivas da Argentina”, realizado em 8 de junho, há muito a ser feito para superar os problemas econômicos que se agravaram durante o segundo mandato de Cristina Kirchner, a partir de 2011. Mas eles mesmos advertem: o maior desafio do novo presidente é político. Para consolidar sua liderança, Mauricio Macri precisa vencer as ‘eleições de metade de mandato’, em outubro do ano que vem, quando serão renovados metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado.

Uma nova vitória é especialmente importante na Província de Buenos Aires, tradicional reduto do Partido Justicialista (mais conhecido como peronismo) onde vivem 40% dos argentinos. Em 2015, uma jovem política de 42 anos, María Eugenia Vidal, do PRO (agremiação de Macri, de centro-direita), derrotou pela segunda vez na história um candidato peronista ao governo, apoiado por Cristina, dando o impulso que faltava para a eleição de Macri. “Foi como se o Partido Republicano perdesse uma eleição no Texas. Os peronistas ainda estão em estado de choque porque o enorme aparato estatal de distribuição de bens para os mais pobres em Buenos Aires e arredores não foi suficiente para garantir a vitória do governo na principal província do país”, afirmou Carlos Pagni.

“O que estará em jogo no próximo ano é se os setores da classe média, que são os mais modernos, dinâmicos e capacitados, manterão esse espaço recém-conquistado e seguirão influenciando o processo político ou voltarão a ficar em segundo plano”, afirmou Ernesto Sanz.

“Ganhar as eleições de meio termo será essencial para que o novo equilíbrio político surgido com a vitória de Macri e a possibilidade de alternância de poder se consolidem na Argentina”.

Desde 2001, quando o país enfrentou grave crise financeira que resultou no calote da dívida externa e em protestos populares que levaram à renúncia do presidente Fernando De la Rúa (União Cívica Radical), a política argentina foi dominada pelo peronismo, com o quase desaparecimento da UCR, tradicionalmente a segunda força política do país. Entre 2003 a 2015, a Casa Rosada foi ocupada pelo casal Kirchner, primeiro por Néstor Kirchner e, a partir de 2007, por sua mulher, Cristina. Em 2011, Cristina foi reeleita no primeiro turno com 54% dos votos, enquanto o segundo colocado obteve quase 40 pontos percentuais a menos. Néstor Kirchner morreu em 2010.

“Não há democracia que resista a tal desequilíbrio. Sob os Kirchner, em especial sob Cristina, vivemos quase sob um regime de partido único. E, para fazer frente a ele, nada. Felizmente houve inteligência e grandeza por parte de diversos setores que perceberam que era necessário restaurar o equilíbrio político para gerar alternância de poder na Argentina. Daí surgiu Cambiemos”, explicou Ernesto Sanz, em referência à coalizão que sustenta Macri.

Carlos Pagni: ‘Experimento raro’

Segundo Carlos Pagni, quatro peculiaridades fizeram da eleição de Macri um “experimento raro” na história argentina:

1 - Pela primeira vez, o país vizinho tem um governo sem maioria parlamentar. “Passamos de um esquema político em que um grupo e uma pessoa naquele grupo (a ex-presidente Cristina) exercia o monopólio do poder para uma situação em que ninguém controla o Parlamento. Antes, para saber o que iria acontecer na semana seguinte, bastava conversar com uma pessoa, de preferência ‘ela’. Hoje preciso ouvir umas 20 pessoas e, ainda assim, a incerteza é grande”, afirmou o jornalista.

2 - Macri, formado em engenharia, é um empresário rico e formou um ministério de ‘tecnocratas’. “Em 2090, é possível que um historiador compreenda o atual processo histórico melhor do que nós e por que os argentinos apostaram na eleição de um empresário rico, que formou um governo de tecnocratas. Ser milionário sempre foi culturalmente mal visto na Argentina. Em toda a nossa literatura, não há uma única novela em que o herói seja um burguês”, disse o jornalista. Segundo ele, essa novidade talvez possa ser explicada pelo legado dos últimos quatro anos de Cristina, descrito como “o mais autoritário e corrupto de um período democrático e certamente o mais inepto, pois tentou reinventar a roda em todos os mercados e acabou depredando todos eles”.

Entenda: Durante o governo de Néstor Kirchner e o primeiro mandato de Cristina, a Argentina se beneficiou, assim como toda a América Latina, do ‘boom das commodities’ (produtos agrícolas, minerais e outros recursos naturais), mas, com a crise financeira global de 2008 e mais recentemente a desaceleração da China, a fase das  vacas gordas acabou, trazendo dificuldades econômicas aos países que não se adaptaram aos novos tempos, entre eles a Argentina e o Brasil. Em 2015, o PIB per capita argentino foi 5% menor do que em 2011. No Brasil, será 7% inferior. Outros países sul-americanos como Chile, Colômbia e Peru cresceram menos do que nos anos anteriores, mas não estão em recessão.

3 - Na Argentina não há cultura de coalizões políticas e o governo Macri é formado por três grupos que mal se conhecem. O novo governo é formado por três grupos políticos que pouco têm em comum: PRO (Proposta Republicana), criado em 2005 por Macri e até recentemente forte, em termos eleitorais,apenas na capital; a União Cívica Radical, de centro-esquerda, com 150 anos de história e tradicionalmente a segunda maior força política argentina, mas que perdeu muita força nos últimos 15 anos; e a Afirmação para uma República Igualitária, cuja figura central é a carismática Elisa Carrió. “Foi Ernesto Sanz, meu parceiro de mesa hoje, quem negociou essa aliança com Macri há pouco mais de um ano, ou seja, é tudo muito recente. Os membros do atual governo ainda estão se conhecendo”, disse Pagni.

Ainda Pagni: ‘Mudança verdadeira ou ilusão?’

“Nas últimas eleições, a maioria da sociedade argentina decidiu fazer as coisas de uma maneira muito diferente do que fez durante décadas. Mas quanto há de mudança verdadeira e quanto haverá de ilusório? Quando começarão a aflorar as tendências mais profundas e permanentes de nossa história? Este é um enigma que ainda não temos como decifrar”, continuou o jornalista.

Para Pagni, o governo Macri corre o risco de se desgastar rapidamente por acreditar que, ao aplicar a receita que considera correta, esta se legitimará por si própria. “Os Kirchner e o kirchnerismo acreditavam que não há nenhuma variável ou dimensão da vida social que não possa ser modelada, dominada ou disciplinada pela vontade de quem manda. O atual governo pode cair na mesma tentação, só que de forma inversa. Se o que indica a técnica e a a equação é o correto, então não é necessário buscar um consenso nem explicar para a sociedade”, disse.

“O risco é de o atual governo não perceber que as decisões que são tomadas ao administrar uma empresa ou uma corporação são diferentes de quando se governa um Estado. E que a política não é um custo desagradável da decisão, mas parte central dela”, afirmou. Segundo o analista, os problemas econômicos da Argentina são circunstanciais, mas os principais desafios são institucionais, entre eles a falta de qualidade da Justiça, um sistema partidário em ruínas, a criminalidade, o narcotráfico e a corrupção.

“Cambiemos recebeu um mandato para desvincular o crime da política na Argentina. Resolver a crise econômica não basta”, concluiu.

Ernesto Sanz: ‘O desafio de superar o populismo’

Referindo-se à fala do jornalista, o ex-senador Ernesto Sanz afirmou: “Carlos me descreveu como o criador de um experimento tão raro que não sei se sou Dr. Jekyll ou Mr. Hyde. Vocês me dirão com qual dos personagens me pareço mais”, ironizou Ernesto Ricadro Sanz, advogado e político ligado à União Cívica Radical, um dos tripés da atual coalizão de Macri.

Segundo ele, a Argentina vive um momento inédito que não permite buscar refúgio em antecedentes ou registros de situações similares. “Já se escreveu muito sobre distintas transições no mundo, como a do feudalismo para o capitalismo, com Maurice Herbert Dobb, ou de regimes autoritários para democráticos, com Philippe C. Schmitter e  Guillermo O’Donnell, mas a verdade é que sobre a transição de um populismo com intenções ou pretensões hegemônicas a uma república democrática de alta qualidade e intensidade, simplesmente não há literatura política ou analítica”, afirmou.

Para Ernesto Sanz, Macri tem diante de si um ‘trilema’:

1 - Superar a receita populista que durante 12 anos deixou marcas profundas na Argentina;

2 - Governar sem maioria parlamentar;

3 - Vencer as próximas eleições (outubro de 2017) para ter tempo de implementar seu projeto de médio prazo.

Sobre a superação do populismo, o ex-senador, que se reúne frequentemente  com Macri, disse se tratar de “um combate diário, minuto a minuto, em cada uma das decisões de governo”. “O debate sobre os papeis do Estado e do mercado acontece em todo o mundo, mas na Argentina com muito mais virulência. Desde os anos 90, vivemos um processo pendular. Fomos do extremo do mercado-centrismo (governo Carlos Menem), quando se acreditava que só o mercado poderia gerar e distribuir riqueza, o que não aconteceu, ao extremo do estado-centrismo (governos Kirchner), quando nos fizeram crer que o governo resolveria tudo. Atualmente, o grande desafio é definir melhor qual é o papel do Estado e qual é o papel do mercado, buscando um meio-termo”, explicou.

Como exemplo, ele citou recente decisão do presidente Macri de ‘reestatizar’ uma empresa de transporte de energia que havia sido privatizada por Menem (1989-1999). “Ao tomar essa decisão num momento de dificuldade econômica, Macri sinalizou que não atua segundo critérios de esquerda ou de direita, de Estado grande ou pequeno, mas que pretende atuar de forma estratégica, com presença em setores essenciais”, disse.

Ele também falou sobre a “tensão entre unitarismo (tendência favorável à centralização de poderes no governo central) e federalismo (favorável à descentralização)”. “A Argentina tem Ministérios da Educação, da Saúde e da Segurança, mas não tem uma política nacional em nenhuma dessas áreas. O que existe, na verdade, são 24 políticas de educação, de saúde e de segurança, uma para cada província. Resolver essa tensão é absolutamente fundamental, mas muito difícil de fazer sem maioria parlamentar e com diversos governadores de outras tendências políticas”, disse.

“É preciso construir uma convivência com governadores e políticos de outros partidos que não seja baseado na distribuição de cargos e verbas”, defendeu.

Ainda Sanz: ‘Ouvir antes de decidir’

“Desde os anos 80, a Argentina tem sido governada por advogados. Agora, o presidente é engenheiro. A cabeça do engenheiro é diferente. Busca ir fundo na questão em busca da solução mais adequada”.

Ernesto Sanz disse estar surpreso com a capacidade de escuta e diálogo do novo presidente. “Durante o governo de Cristina, não havia reuniões de gabinete, as decisões eram monocráticas, autoritárias. Não venho do círculo de relações de Macri, mas ele me surpreende positivamente todos os dias. Promove reuniões diárias de quase duas horas na Casa Rosada e tem grande capacidade de ouvir e de não se deixar influenciar nem pela primeira nem pela última opinião proferida. Escuta, dialoga e, então, decide”, relatou.

Ele também elogiou a capacidade do presidente argentino de se desligar do governo após o fim do expediente. “Das 7h às 20h, ele trabalha. Depois, desliga o celular e vai ficar com sua mulher e sua filha”, contou.

Sobre o futuro do peronismo, derrotado nas últimas eleições, o ex-senador da UCR afirmou torcer para que o movimento se reorganize em torno de “uma liderança saudável e democrática e que possamos competir de igual para igual com o objetivo de criar um sistema político estável e equilibrado, que permita à economia se desenvolver de forma mais previsível e com tranqüilidade.”

Para ler sobre as perspectivas econômicas da Argentina, baseado nas falas de Pablo Gerchunoff e Nicolás Dujovne, clique aqui.

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Otávio Dias, jornalista, é especializado em política e assuntos internacionais. Foi correspondente da Folha em Londres, editor do site estadao.com.br e editor-chefe do Huffington Post no Brasil.